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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


31 maio 2010

Delirium Dream’s, de Beto Carminatti, 22’, 16mm, 1987, PR.*

por Cesar Felipe Pereira

CINEMA UNDERGROUND

O documentário Delirium Dream’s, do cineasta curitibano Beto Carminatti, nome importante da chamada Geração Cinemateca – grupo de cineastas que gravitava em torno da então chamada Cinemateca do Museu Guido Viaro, inaugurada em 1975, em Curitiba -, registra um grupo de jovens no que se refere a seus modos de vida atuais (final da década de 1970) e seus planos e esperanças em relação ao futuro. A sinopse do filme diz que “através dos depoimentos de alguns rapazes e seus familiares este documentário mostra um pouco da vida (O que você quer ser? O que você acha que seu filho vai ser?) num bairro de Curitiba no fim dos anos 70”. Restaurada em 2005, a obra traça o retrato de 3 personagens, entre os quais destaca-se “Polaco”, que pretende ser jogador de futebol, ou, se nada mais der certo, trabalhará no INPS. Nas palavras de sua mãe: “Esse ano ele vai decidir a vida dele. (...) alguma coisa ele vai fazer”. Trabalho, juventude, serviço militar, revolta/rebeldia, o vestuário, os sotaques característicos, enfim, o retrato de uma época num espaço determinado se apresenta aos olhos do espectador (o bairro é o do Portão).

Outro personagem relata: “Não trabalho, “vagabundjeio”, jogo bola; (...) minha vida é normal”. Discorre sobre mulheres (tema recorrente também nos cartazes colados nas paredes dos quartos), sobre o mundo estar em guerra, sobre o Brasil. Vemos jovens no bar, tomando cerveja e conversando. Tudo registrado por uma câmera que está quase sempre na mão do cinegrafista (o próprio diretor), enquanto a banda sonora acompanha a fotografia desde seus primeiros fotogramas. Uma delas, “The Equalizer”, dos ingleses do Clash, é o “tema” da obra, pontuada pela recorrência de seu refrão: We don’t want no Gangboss / We want to equalize. O próprio realizador, inclusive, está representado na narrativa do filme, tanto na fala de sua mãe, como em sua própria voz/imagem.

Feita a apresentação, pode-se afirmar que o filme pode ser considerado (temática e esteticamente) como pertencente ao chamado “cinema underground brasileiro”, mesmo que deslocado de sua principal cena de realização: o eixo Rio-São Paulo. Apresenta, além da intenção de registrar os acontecimentos do mundo, na esfera particular do bairro, da família do realizador e dos amigos mais próximos, aproximações mais estritas com obras experimentais norte-americanas, como, por exemplo, Antecipation of the Night, de Stan Brakhage (1958), pois vemos em Delirium o mesmo tipo de construção: vistas, passagens de natureza, caminhos, planos em movimento captados pela janela do carro - sobretudo ao final do filme -, a ânsia de registrar o mundo tal como ele é; nesse sentido, o filme se aproxima do livro “On the Road”, do escritor Jack Kerouac, muitas vezes relacionado à Geração Beat, grande influência do Cinema Underground. Vemos também a predominância do ambiente doméstico, igualmente presente na filmografia do estadunidense. Estamos diante de um cinema de autor, que procura imprimir na tela a experiência interior do cineasta/realizador (postura bem próxima do “cinema lírico” de Brakhage).

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