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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


26 abril 2010

Resenha: “Os Inquilinos”, de Sérgio Bianchi, (BR/2009 – 103’ – 35mm).

“A guerra já começa em nós, por dentro”.

Poema na voz da personagem de Cássia Kiss, professora de Valter.

“Os Inquilinos”, filme mais recente de Sérgio Bianchi, inicia com planos fixos mostrando uma favela. Uma trilha sonora de piano reveste as imagens até localizar uma rua específica, onde crianças brincam. Uma das brincadeiras, em particular, ganha destaque e chama a atenção pelo seguinte mote: “Cada tiro mata um”; frase repetida várias vezes pelas crianças. Após o stablishing shot pontuado por um movimento descendente de grua, localiza-se a casa de uma típica família suburbana brasileira, mais especificamente da região metropolitana de São Paulo, com seus costumes característicos, conversas corriqueiras. As personagens principais (o casal Valter - Marat Descartes / Iara – Ana Carbatti) pertencem a esse local e manifestam-se a cerca do vizinho, Seu Dimas (Umberto Magnani), e de sua relação com a ex-mulher, Consuelo (Cláudia Mello). Na TV, Datena, o apresentador do programa sensacionalista “Brasil Urgente”, desempenha o próprio papel ao apresentar uma reportagem, ficcionalizada pelo filme; grades emolduram as janelas da residência. No lar, a “mesmice”/a tipicalidade da mise en scène pontua as emoções da família (Valter, Iara e os dois filhos), em situações típicas como, por exemplo, o café da manhã, a preparação para enfrentar mais um dia de trabalho e/ou estudo, o beijo de despedida do casal.

Valter, que trabalha de dia e estuda à noite, vê a estabilidade de sua vida se alterar em função dos novos vizinhos, que acabam de mudar para a casa ao lado. Vemos Valter cansado por não conseguir dormir direito, por causa desses novos vizinhos, da “vizinhage”, na fala de Evandro (Caio Blat). Ele tem sonhos e alucinações, principalmente em relação a um deles, inicialmente por ciúmes de Iara. Sente-se ameaçado, o que o leva a pedir ao patrão para ser registrado no emprego, pois gostaria de obter maior “segurança” em sua vida, afinal tem “filhos pequenos pra sustentar”. O amigo enfermeiro chega a alertá-lo: “Acho que você deveria parar de estudar à noite e ficar com sua família”. Será preciso, afinal, se posicionar a respeito do incômodo que é ter esses “bandidos”, os baderneiros como vizinhos, pois sua família está ameaçada pelos hábitos que talvez venham a influenciá-la negativamente. A rispidez é o tom predominante da narrativa, embora o humor também se faça presente, de maneira sutil, quando, por exemplo, Valter urina no quintal de casa, após ver tal cena ser feita por seu cão, “para marcar território”.

Iara reclama para Valter, esperando que ele tome alguma atitude: nesse momento, um ruído não diegético (como que na cabeça de Valter) toma a cena; é interessante, uma espécie de microfonia pairando no ar em tom permanente. As reclamações da mulher, que quer sair daquele lugar por causa dos vizinhos, pontuam o conflito vivido pelos protagonistas: como criar os filhos em meio àquele ambiente degradante? Então fica claro o clima de “Ah, algo ruim vai acontecer, isso ainda vai dar merda!”, presente desde o início do filme. O enredo parece insosso; mas só “parece”; as situações parecem levar Valter a se posicionar, a largar a acomodação de sua “vidinha” pacata, a finalmente se manifestar de maneira mais intensa. Algo que poderá ou não ocorrer.

No plano da técnica, verifica-se que o filme esconde sua feitura; a montagem procura sempre corroborar os discursos das personagens, por exemplo: o canteiro destruído pelo cachorro, logo após Valter dizer “Vou deixar o cachorro um tempo solto. Se ele destruir o canteiro eu conserto depois”. Ou mesmo a explosão de uma bomba no pátio da escola, após Evandro ser advertido pela professora a cerca de sua manifestação extremista. As locações são em número reduzido, sendo as principais a casa da família, a casa dos vizinhos, um bar, uma rua de bairro, o trabalho de Valter e um ônibus. A direção de arte segue uma paleta de cores que tende ao “apagamento” e à simplicidade: não há grandes destaques para cores, paisagens muito estetizadas e focos na materialidade de objetos e construções.

A fotografia é naturalista, “fria”, na medida em que se afina à manutenção da ilusão de realidade pretendida pelo filme; vale-se de vários movimentos de câmera interessantes: travellings, gruas etc. O choque, a mensagem a ser veiculada pelo realizador encontra-se em outro viés, que não propriamente o da forma: fica suspensa na aparente falta de sal das situações, e na irresolução, também aparente, dos conflitos propostos ao longo da trama. As relações de causa-efeito, a continuidade espaço-temporal atribuídas ao cinema clássico-narrativo mostram-se de maneira clara; não há nenhum ponto sequer, ao longo de todo o filme, em que o espectador seja desorientado no que se refere à manifestação do aparato tecnológico/fabril que constrói o produto que assiste.

O som é quase que exclusivamente do tipo sincrônico, diegético. Há apenas, em pequenas passagens, a utilização de alguns sons não diegéticos como, por exemplo, alguns latidos do cachorro, e o som “distorcido” quando Seu Dimas é pego pelos bandidos mexendo em algo, no lugar onde eles escondem “as coisas”. Há muita trilha sonora, e ela é quase que inteiramente instrumental, com algumas vocalizações em alguns momentos.

Quanto ao elenco, não há quaisquer ressalvas: Bianchi dirige magnificamente bem tanto os veteranos Cássia Kiss e Umberto Magnani, quanto os protagonistas Marat Descartes e Ana Carbatti e os atores mirins. Um elenco afinado, contido e preciso na execução de seus papéis. Caio Blat destaca-se entre todos eles: o ator está ótimo na pele de um paulistano bem suburbano. Vemos também Leona Cavalli, num papel menor (Fátima). Destaca-se a construção da morte de Evandro e a cena do crime de Seu Dimas, que não são mostradas como se dão. Estamos diante de uma direção bastante sensível, na qual Bianchi não explicita visual e sonoramente a violência cometida. Acompanhamos os fatos pela reação das outras personagens e pela narração (da professora e demais alunos, no primeiro caso, e da vizinhança, no segundo) que comentam o que ocorreu; inclusive através do filho de Valter e Iara, que discute a morte do vizinho com os colegas. Boa direção do tipo naturalista. Sem dúvida, o ponto mais forte do filme.

Ao cabo, chegamos à questão do “Partido”, ao vermos um dos “bandidos” retornar à cena do crime, junto de outros três homens, fortemente armados. Ele, na verdade, teria sido um infiltrado entre aqueles bandidos? Ou um oportunista? Houve alguma espécie de conchavo entre ele e Consuelo? Essas e outras questões permanecem no ar ao final da projeção. “Os Inquilinos” é, portanto, em última análise, um filme de incertezas; uma tentativa de organizar, a partir do ponto-de-vista de uma família tradicional de uma periferia tipicamente brasileira, o caos da vida que flui em meio à violência cotidiana e atroz. Violência essa que não é nem um pouco bela de se ver e ouvir. CFP

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