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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


28 abril 2010

A FOME DE MARINA > Por José Ribamar Bessa Freire* > > Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente > Lula da Silva, justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor baiano > aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma > universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em > Marina para presidente, “porque ela tem cara de quem está com fome”. > > Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come. > > Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros > truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, > cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da > existência humana. > Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e > enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos > indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem > iletrados e subnutridos, estariam despreparados. > > Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. > Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas > famélicos e desescolarizados. > > De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se > for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o > exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem > está com fome carece de qualidades para o exercício da representação > política. > > A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, > dessa vez pisou na bola. Feio. > > “Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que > cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!”. > > Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse > Brasil profundo que os Silvas representam. > > A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata > de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma > beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, > seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em > ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia > precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê? > > O mapa da fome > > A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua > infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto > ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que > nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no > Acre. > > Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para > cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. > Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de > mortalidade infantil. > > Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, > mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, > frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta > prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava > seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado > por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose. > > A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no > seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do > mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a > cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos > saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu > a ler e escrever. > > Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de > História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada > doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando. > > Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas > Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no > movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no > Acre e depois ajudou a construir o PT. > > Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco, quando devolveu o dinheiro > das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a > fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por > dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da > floresta. > > Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental > faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço > Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e > estimular o manejo florestal. > > Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três > anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de > metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, > desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil > propriedades de grilagem. > > Tudo vira bosta > > Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a > descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir > dos ovos, “o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o > cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ > e o programa do partido: tudo vira bosta”. > > Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra > música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e > ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se > manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca”. > > Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa > de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada, confessando: > “Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem… > e faz piada”. Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um > pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ > Eu não queria magoar você”... > > A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a > ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela tem > cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee conseguiu o > milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, > se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a > professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia > Menezes, tão altaneira. > > Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. > Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, > hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de > vampiro. Sobra quem? > > Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos > ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde > por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana > bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz > e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, “il péte de santé”. > > O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem > se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil… > > Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é > motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da > resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da > sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de > liderança em nosso país. > > "Marina Silva é a cara da fome." > > Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, > Rita Lee me convenceu definitivamente. > > > * José Ribamar Bessa Freire é Professor, coordena o Programa de Estudos dos > Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória > Social (UNIRIO). > > > >

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