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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


14 fevereiro 2010

Thadeu Wojciechowski é um homem das letras

por Paula Melech

Por vezes, o seu ritmo é tão turbulento que fica difícil acompanhar todos os passos de Thadeu Wojciechowski. O sujeito das letras deixa transparecer o multifacetado artista que escolhe a arte para enxergar o mundo: é poeta, compositor, publicitário, professor de literatura e língua portuguesa. O homem ainda arruma tempo para tocar um blog, o Polacodabarreirinha's. O curitibano de quase 60 anos é inquieto - tem 27 livros editados, 12 por editar e mais de mil canções com cerca de 50 parceiros. Os números dão uma boa medida para o tamanho das ambições do artista. Preenchendo tudo com delicadeza, o Polaco da Barreirinha, como é conhecido, pensa na música e na literatura como uma extensão natural de sua vida. No departamento sonoro, ele compôs mais de 120 canções com Octávio de Camargo e Bárbara Kirchner, além de cultivar parceiros como Walmor Góes e Carlos Careqa. Cheia de camadas, as sílabas se enroscam e tecem um painel criativo e bem humorado na sua vasta produção literária. É aqui que ele convoca Saboro Nossuco, alter ego que assina o último livro Koan do como onde (2009). Thadeu recebeu a reportagem para um bate-papo regado a café em sua casa, no bairro Barreirinha, em Curitiba. O Estado: Como você vê o cenário da literatura em Curitiba? Curitiba faz uma poesia de alta voltagem e de muita qualidade. Além de ser a capital mundial do rock, a cidade tem muitos e bons poetas e é referência para todo o Brasil.

A nova geração herdou um patrimônio magnífico e está fazendo excelente uso dele. Uma pena que a mídia dedique tão pouco espaço à cultura e ao que rola na cidade. Creio que se não fossem os blogs muita coisa permaneceria inédita. O Estado: O seu processo criativo acontece de forma deliberada ou você organiza um tempo do seu dia para produzir? Um pouco de cada. Chega um amigo, a festa começa e não tem hora para acabar. Lá pelas tantas, é fatal que a gente comece a fazer uma nova canção ou coisa que o valha.

Poesia é conversa entre pessoas inteligentes, então qualquer assunto pode se transformar em motivo para se cometer um poema ou uma letra. Mas claro que tem os momentos em que escrevo sozinho. E como escrevo! Quem acompanha o meu sabe muito bem disso. Sou um terrorista. O Estado: Você se lembra do momento em que a poesia surgiu na sua vida? Como foi? Muito cedo, tão logo comecei ler e a escrever. Minha mãe declama muito bem e despertou em mim o gosto pela poesia. O Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que me chamou a atenção. Minha mãe declamava Versos íntimos e eu achava aquilo maravilhoso. De lá pra cá, ainda mantenho o mesmo ídolo.

O livro Eu, pra mim, é uma jóia rara da poesia universal. Depois vieram Machado de Assis, Guimarães Rosa, Dalton Trevisan, Nelson Rodrigues, poetas diferentes e que quase não escrevem ou escreveram em versos.

Mas fazem ou fizeram poesia de alta voltagem. Na música , também tive uma influência muito forte, acho que virei compositor no mesmo dia em que ouvi o Jimi Hendrix pela primeira vez. O cara abriu o mundo para mim. O Estado: Que motivações o levam a escrever? O prazer principalmente e acima de tudo. Quando escrevo um texto ou faço uma música que eu gosto, isso me dá uma enorme alegria. Esses dias a atriz Claudete Pereira Jorge foi lá em casa e me encomendou uma peça de teatro.

Ela precisava do texto pronto em três dias. Eu nunca tinha escrito nada para o teatro, mas sentei e escrevi. E gostei do que li depois. Acho que motivação maior do que gostar do que faz não existe. O Estado: Como a música apareceu na sua vida e qual a relação dela com o seu trabalho literário? Acho que já respondi a uma parte dessa pergunta, mas acho que tem tudo a ver. É muito tênue a linha que separa um poema de uma letra. Há alguns anos, eu escrevi um poema chamado Vida e jamais o imaginei como letra.

No entanto, o Ulisses Galleto o musicou e o Guilherme Dias o transformou em história em quadrinhos. Você põe um poema no mundo e ele cai na vida, não está nem aí pra você. Essa é a coisa mais gratificante. O Estado: Como é o seu processo criativo como letrista? Você precisa ser guiado pela melodia da canção ou é a própria letra que dá direção à música? Os dois. Às vezes, eu faço a música inteira em questão de segundos. Ás vezes demora e tenho que sentir para onde caminha a melodia. Eu e o Octávio, somos espartanos na hora de compor. Vamos encaixando sílaba a sílaba.

A formação clássica dele nos moldou a compor dessa maneira. Já com o Walmor Góes a coisa é mais explosiva, normalmente resolvemos rapidamente as canções. Talvez pelo tempo que a gente compõe junto, são mais de 30 anos. O Estado: Geralmente você trabalha com amigos ou também surgem parcerias com pessoas que você não conhece? O pessoal vai lá em casa e a gente faz. Não é nada planejado, é como respirar. Você está conversando alegremente e em paz, então todo mundo fica criativo. Não faço música só com poetas.

Eu tenho dezenas de parcerias com pessoas que não escreveram absolutamente nada. Mas qualquer pessoa tem poesia dentro de si, acho que tenho um talento especial para fazer aflorar essa coisa. O Estado: Que músicos ouve e o que anda lendo ultimamente? Tom Waits, Carlos Careqa, Maxixe Machine, Alexandre França, o Jimi eu nunca deixo de ouvir. Estou sempre recebendo CDs e DVDs, tem muita gente boa por aí. O Careqa fez um CD com adaptações das letras do Tom Waits, este é o meu preferido já faz algum tempo, há um ano pelo menos. Sou obsessivo, escuto mil vezes a mesma coisa. E com livros também, leio até decorar tudo que eu gosto.

No momento estou relendo toda obra do Nelson Rodrigues, acho que é a enésima vez. Sei lá. Mas sou apaixonado pelo estilo dele. Quanto mais leio, mas eu gosto. É como o Kurosawa e o Augusto dos Anjos na minha vida.

Não sei te afirmar quantas vezes vi os filmes Sonhos, ou Sete samurais, Ran, Kagemusha, Dersu Uzala, Madadayo, assim como não sei dizer também quantas vezes li o Eu. Eu gosto de rever tudo que me impressionou algum dia. O Catatau, do Leminski, não sai do meu banheiro.
originalmente em: http://www.parana-online.com.br/editoria/almanaque/news/428127/

2 comentários:

  1. Boa!

    No entanto, em vez do Catatau, eu tenho uma edição fotográfica da Marilyn Monroe que não sai do meu banheiro.

    =]

    abraço!

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  2. É isto aí, broder, dia 18 vou estar lá na certeza...encontrei o mauro umas duas vezes estes tempos aí...muito gente boa. Você trabalhando com ele com certeza vai resultar num trabalho foda. Curioso pra ver...abração, velho.

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