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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


25 agosto 2009

Baixaria na TV é machismo
por Bruna Perussello*

É notável que nas últimas décadas estamos vivenciando uma tendência exacerbada de se flexibilizar tudo e aceitar tudo o que era até então inaceitável, talvez numa tentativa desorientada de recuperar o tempo perdido de tanta repressão que se instalou em diversos contextos durante toda a história. Assim, hoje, há uma constante pressão da sociedade para ver tudo com extrema naturalidade. Chegou-se a um ponto em que tudo de justifica pelo dinheiro ou pela diversão. Se uma determinada conduta confere diversão ou proventos a alguém, parece ser proibido abarcá-la na questão de certo ou errado. Quem ousa criticar qualquer coisa, ou adentrar no âmbito do “certo ou errado” é taxado de moralista e conservador. Falar em moral, valores, questionar condutas, debater a erotização da televisão e a instigação sexual precoce propiciada pela mídia ou qualquer coisa do gênero virou sinônimo de caretice e conservadorismo. A tênue linha que dividia o moralismo do bom senso parece ter se esvaído há algum tempo, o que resultou na triste situação atual: a sociedade não consegue mais distinguir o que é ser um moralista conservador e o que é ter senso crítico. A única proibição consentida parece ser justamente contra o ato de proibir, ou seja, é proibido proibir. A mídia percebe muito bem essa tendência, por isso as emissoras de televisão concedem programas de entretenimento a pessoas como Luciana Gimenez, Luciano Huck, Gugu e outros tantos “promotores de erotismo disfarçado de entretenimento” que chamamos delicadamente de apresentadores. Como criticar qualquer coisa - principalmente quando ela abarca a sexualidade - é visto como uma atitude de excessivo pudor e moralismo, esses programas televisivos atraem grandes audiências, de pessoas de todas as idades e classes sociais. A mídia apresenta programas cada vez mais chulos e valores cada vez mais deturpados. A mulher é usada como objeto sexual de uso e desuso para enfeitar o ambiente sexualmente. Mercantilizar o corpo feminino se tornou instrumento indispensável para atrair a atenção do público. Programas de televisão idiotizam a mulher nas situações mais gratuitas. Essas atitudes vão se tornando cada vez mais comuns, aos poucos tornando-se normais, banais e plenamente aceitáveis, ao ponto de uma mulher se deparar com o priminho enxergando uma mulher como um mero pedaço de carne e achar até engraçadinho. Ao ponto de vermos mulheres rebolando praticamente de calcinha no palco onde há crianças das mais tenras idades, e quem julgar isso ser taxado de moralista. Ao ponto de termos que conviver com a cultura de que “para se divertir tem que ter baixaria e mulher como objeto de consumo sexual” até em bailes de formaturas, e quem ousar criticar é taxado, novamente, de moralista. Fico imaginando como será a situação para as mulheres num futuro muito próximo. Se hoje já temos que nos proteger a todo momento contra assédio sexual dos chefinhos; contra assédios na rua, quando ouvimos comentários sobre nossa aparência, como se fôssemos meros bens de consumo num supermercado, totalmente à disposição da opinião alheia; se quando vamos fazer uma baliza alguns homens param de braços cruzados para analisar nossas manobras, só esperando nosso primeiro erro para nos chamarem de barbeiras; se somos julgadas primeiramente em relação à nossa aparência até mesmo em situações profissionais, etc, imaginem então como será para a próxima geração, já que os garotinhos de hoje em dia estão crescendo e se desenvolvendo se deparando a todo momento com essa imagem da mulher veiculada pela mídia e por estilos musicais (como funk e axé, por exemplo), encarando a mulher como um mero conjunto de atributos físicos, ou seja, um mero corpo para sua satisfação sexual. Imaginem, então, quando eles se derem conta que essa cultura machista é banalizada, acatada e até promovida pelas próprias mulheres.

- publicado originalmente em http://portal.contato.net/falando_serio/index.php?acao=internautas&art_codigo=017478&col_codigo=9, em 06/08/09.

*Bruna é psicóloga e (em breve) administradora. Minha amiga pessoal ativista em assuntos como: direitos das mulheres, defesa contra a vulgarização feminina, crítica ao consumismo etc... Mais de seus escritos podem ser encontrados em seu blog: http://angustiaetica.blogspot.com/

18 agosto 2009

Nota do Sandrini

Introducción
Depois de uma semana em Caracas, estou de volta. Se disser que cheguei inteiro, pode não ser bem uma verdade. Enfim, um voo longo, com a aeronave da TAM chacoalhando quase o tempo todo na ida e um retorno espetacular, não por causa do voo da TAM, mas pelos fatos que me sucederam no aeroporto Simón Bolivar, en La Guaira, que é a cidade onde se localiza o aeroporto internacional de Caracas. Fatos que vou lhes contar com detalhes, porém depois de dizer algumas coisas sobre minha estada, no meio de semana, na capital venezuelana para ministrar a oficina de criação literária chamada “Violenta imaginacion”. O título, obviamente, já demonstrava um risco, visto a situação que o país vive. Mas como somos pensadores livres, vamos lá e encaramos a coisa com uma excitação tremenda em nossos princípios éticos e ideológicos, que passam primeiramente por “Pensar e falar o que tenho e acho necessário falar, sobre qualquer assunto”. Mas acontece que isso pode não ser bem assim e nunca o foi em muitos momentos da história da humanidade, creio mesmo que em grande parte nunca foi assim. Contudo, eu jamais havia estado em um, vamos dizer, (praticamente) regime de Exceção e, obviamente, de excessos; e que no caso venezuelano se acha sob as patinhas pesadinhas de um astuto (não, inteligente como querem muitos) e totalitarista Hugo Chávez, sujeito militar e que só por isso já dá muito pano pra manga em qualquer discussão sobre o futuro da liberdade na Venezuela. E nos faz temer também por todo o futuro da liberdade na região norte da América do Sul. Em nome do libertador Bolívar temos um ditador que se diz bolivariano e uma máquina estatal que parece só funcionar quando é bem azeitada no óleo da castração, do atraso econômico e político que com suas engrenagens de perfil militar vai esmagando os cidadãos, pobres ou de classe média, com dentes de aço. E o pior, tal máquina possui seus ecos nessas nossas terras paranaenses. Talvez o único estado do país, o Paraná, a retransmitir a “avançada” Telesur, de Chávez. E, bem... mãos dadas com o retrocesso, tentamos ir adiante, claudicantes. Órfãos de sabedoria. A semana (em resumo) A oficina “Violenta imaginacion” foi uma grande oportunidade para tomar contato com gente de algumas esferas culturais e profissionais que estavam por lá, frequentando o Instituto Cultural Brasil Venezuela entre os dias 2 e 6 de agosto. Entre os oficinantes havia gente do cinema, do jornalismo, da psicologia, professores, poetas, humoristas etc. Um pessoal que queria discutir, trocar, aprender, ensinar. Joaquín, Carolina, Liris, Patrícia, Pablo, Noraedén, Pedro, Leôncio, José Roberto e tantos outros que estavam ali para mais que um “taller”, estavam ali para estabelecer também contato com a cultura brasileira e falar da cultura venezuelana, sobretudo de literatura. Contudo, no primeiro dia senti a necessidade de conversar um pouco com eles sobre os tipos de violência que mais os incomodavam, ou que mais achavam estar presentes na sociedade em que vivem. Queria saber as diferenças e as semelhanças entre Brasil e Venezuela acerca do tema. E o que mais ouvi foi sobre a violência institucional (a política e a policial, sobretudo). Houve também quem falasse da violência das ruas, como acontece no Brasil. E surgiram ainda outros tipos de violência. O cardápio latino-americano para tal assunto é bastante variado. Tem para todos os gostos. Tais observações sobre a violência institucional, fiz questão de levá-las a alguns veículos para os quais dei entrevistas, a radio Del Ateneo e o jornal Talcual. Na TVES, chavista, evitei falar disso, passei ao largo do assunto. Pensava que tudo isso podia ser um risco à minha segurança, pois o que acontecia naqueles dias com a imprensa venezuelana era o fechamento de mais de 230 rádios em todo o país. E certamente existem censores da Stasi chavista monitarando alguns veículos. Eu podia cair na malha fina. Contudo, não ia me abster de falar o que pensavam meus alunos, que pareciam sofrer com isso. Bem, quero dizer que fui muito bem tratado pelas pessoas que me receberam em Caracas. Irlanda, Leo (que é mesmo como um irmão para mim, tamanhas as nossas afinidades e humor irônico), Marcel, da rádio Del Ateneo e Verónica (esposa do Leo), fora ter recebido muitos sorrisos lindos da pequena Carlota, filhinha de Leo e Verónica. Enfim, minhas impressões eram das melhores. E ainda são com essas pessoas, meus amigos. Seguindo com a violência. Apesar de terem me alertado para a criminalidade, que cresceu muito nos últimos anos em Caracas, com um dos índices mais altos de toda a América, não vi nada que assustasse muito. Tudo estava em ordem. Seguia eu comendo arepas, cachapas e indo a bares e tascas com os amigos de lá e bebendo muita Solera (da azul e da verde), que é a cerveja mais popular deles. Encerrada a oficina no dia 6 de agosto, quinta, fomos a uma tasca, e ali me fizeram uma boa festa. Foi uma celebração feita com muito carinho. Mas não um carinho forçado, os caraquenhos são realmente muito calorosos, não os sentimos forçando a barra. São assim, e pronto. O que é muito acolhedor para quem chega de fora e logo está se sentindo em casa. Na sexta, dia 7, meu dia livre, fui comprar livros no Centro da cidade com Leo. Trouxe obras de escritores venezuelanos como Ana García Julio, Francisco Suniaga, Oscar Marcano, César Chirinos, Humberto Mata, Eduardo Cobos, Rodrigo Blanco Claderón, uma coletânea de novos autores chamada Las voces secretas, poesia de Rafael Cadenas (aliás, Liris, a cineasta, me presenteou com um obra completa deste grande escritor). Eu trouxe também Francisco Massiani, Carlos Sandoval, Luis Brito Garcia, e muitas outras coisas. E mais ainda: uma coleção de poesia venezuelana que trouxe para o meu amigo e professor estudioso da poesia latina contemporânea Rodrigo Machado. Bem, não posso me esquecer que ganhei exemplares da inteligente revista 2021 editada por Leo e da revista Ojo, editada por Verônica. Mais uma novela chamada El famoso caso de las cartas de Lucas Meneses, autor que muita gente ainda não conhece, mas me parece muito bom, desconfia-se que escreve sob pseudônimo. E um curta metragem escrito, dirigido e produzindo por Liris. Um curta muito bem feito, baseado no conto O Enfermeiro, de Machado de Assis. O filme se chama La vida honorable de Procopio Gómez. Liris (Liris Acevedo Donis) me comentava sobre o humor que havia percebido em meus livros, posso afirmar que em seu filme percebi o mesmo. Qué bueno, hein! Segue: descansei durante a tarde e cancelei a subida ao Cerro El Ávila com meus alunos. Uma pena. Minhas pernas não iam aguentar, sinceramente. Fim de tarde fui a um shopping ali perto do Hotel para comprar um helicóptero para o Gianluca, e por sorte o encontrei, do contrário nem uma lembrança para o Gianluquinha eu teria trazido. No sábado, dia 8 acordei às cinco, e às seis o táxi enviado pelo Instituto Cultural Brasil Venezuela estava me esperando. Seis e meia estava lá eu, no aeroporto Simón Bolívar, um lugar com nome de um grande libertador mas que ia justamente me colocar nas mãos dos milicos por umas duas/três horas (perdi a noção do tempo naqueles instantes que agora passo a narrar), me privando de liberdade. La estúpida máquina bolivariana antidrogas y ideas Fiz o check in e soube que tinha que pagar para o governo uma simples taxa de 60 dólares para sair do país. No meu caso, pagar para ser incomodado. Foram os 60 dólares mais infelizes da minha vidinha de inseto. Fui a zona de embarque, entrei numa fila imensa, e levei uns bons minutos até chegar ao scan das bagagens de mão, tirar sapatos, cinto, aquela bobagem toda. Mas a surpresa é que tinha mais um scan, passei de novo. Tudo certo. Tudo limpo. Ia embora após uma semana de bom trabalho e bons amigos. Senti que o resultado da oficina de criação literária havia saído melhor de que eu esperava. Estava eu ali um pouco orgulhoso de mim e dos meus alunos. Quando um rapaz fardado me chamou e pediu meu passaporte. Pediu também de outro senhor brasileiro e em seguida de um professor universitário Thiago Gehre, de Roraima. Nos fizeram passar várias vezes no scan antidrogas e ele não detectou nada no senhor e então foi minha vez. Subi na plataforma da máquina bolivariana antidrogas, e desci. Não deu nada. Me mandaram subir de novo. Lhufas. A agora estúpida máquina bolivariana antidrogas não queria funcionar comigo, não funciona com escritores talvez. Me mandaram descer e assinar um papel com umas garatujas feitas por um rapazinho quase analfabeto que mal sabia teclar um computador e ficava catando milho nas teclas para digitar algo que não sei o que era, pois não foi impresso e tive que assinar um documento escrito a mão. Bem, passei pela estúpida e rude máquina bolivariana antidrogas três vezes. Depois da segunda e de ter assinado aquele documento feito a mão em papel de embrulhar pão, achei que poderia ir embora, gastar uns bolívares no Duty Free (yes, o orgasmo da classe média). Foi quando me pediram o passaporte outra vez e sumiram com ele por muito tempo. Antes haviam me perguntado seu eu tinha comido. Eu disse, “Mira, no creo que es muy comum los restaurantes de los hoteles en todo el mundo tener sus puertas abiertas a las cinco de la mañana, yo vine para el aeropuerto a las seis, entonces, estoy sí sin comer nada, pero se me dejan, a mi me gustaria tomar el desayuno antes que el avión se vá”. Na verdade as mulas da polícia chavista queriam me fazer passar por Mula. Para eles eu levava drogas no estômago. Nesse caso, se levasse drogas no estômago, seria melhor me chamar de anta, topeira do que mula. Bem, depois da terceira escaneada em mim, não me liberaram. Surgiu um gordinho de roupa verde oliva, um tipo que parecia uma azeitona, redondinho e rechonchudo, tomou en sus manos meu passaporte e me mandou acompanhá-lo. Mantendo sempre a calma, o segui. Ele me mandou sentar e esperar um comunicado. Ok, gordito azeitona. Ele ligou, ligou e a ineficiente comunicação bolivariana, claro, falhava. Até que depois de umas cinco tentativas de contato, chega um policial de cara cerrada. Também de roupinha verde. Fico imaginando aqueles muchachos verditos olivos na parada gay da avenida Paulista. Um sucesso. Esse polícia me levou ao cuartito, uma salinha num corredor isolado do aeroporto. Ali, silêncio total, ninguém falava comigo, não diziam o que iam fazer. O silêncio nesse caso é puro terrorismo. Mas tudo bem, nada que cause mais terror que ver a cara do Chávez, logo ao desembarcar no Simón Bolívar, numa plotagem mal feita com uma mensagem sobre a liberdade da nação bolivariana ou algo assim. Chávez, meu querido ditador, a Venezuela tem tantas mulheres lindas, e você é que quer ser miss universo? Bem, até que não seria mal, dizem que as misses da Venezuela têm que se isolar um ano para se prepararem para ser miss mundo. Nesse tempo, enquanto você estivesse se preparando para ser Miss Universo, se maquiando, fazendo peeling, lipoaspiração, levando massagem e drenagem linfática de um oficial do exército, colocando próteses de silicone, implantando um pouco de neurônios (um nova técnica para que as misses não falem tantas tonterías), a sociedade teria tempo para dar um golpe e tomar o poder. Claro, você, querido, ia subir nas tamancas e gritar, “Por aquí la poderosa soy yo... E bem... Tu eres sí la poderosa. E seus soldados também. As poderosas verde oliva me colocaram depois de meia hora nas mãos do oficial Unamo. Esse muchaco com cara de Chavinho me enfiou num jipe bege da polícia junto a mais quatro soldados e um senhor à paisana que dizia ser um motorista de táxi (hehehehehehehe). Um senhor pançudo que com toda certeza era uma agente bolivariano da “inteligência”. Ok. O tal Unamo me disse que iam me levar até um hospital porque eu teria que passar por um raio X. O carro da milícia chavista rodou lento por vários minutos, mas antes ia parando no caminho para traficar (eles sim) aqui e ali bebidas, entre elas refrigerante, champanhe, suco, vodka, run. E iam todos felizes. Enfim teriam bebida e alguém para torturar: eu. Não chegávamos nunca ao hospital. Quando chegamos, o hospital não tinha máquina de raio X. Isso já eram oito e meia. Achei que ia perder o voo. Seguiam por ruas sujas, apertadas, feias, tudo para me aterrorizar. Coitados, sou brasileiro, nada em termos de miséria pode assustar um brasileiro. Uma favela é só uma favela. Fomos a uma clínica então. Rodamos mais e mais. Os verde oliva buscavam cigarros com os camelôs e outras coisas que eu não compreendia. Até que lá por 9 e 20 eu entrava numa clínica suja e obsoleta em Maiquetía (cidade próxima ao aeroporto de Caracas). Maiquetía, pode-se dizer (e não dizer mais nada depois), é a própria maquete do inferno. Na clínica fiz o raio X. Me puseram nu, sem nem me darem um roupão, o que no Brasil é praxe, e com uma mulher me mirando, fizeram a chapa. Nada constrangedor. Afinal, era só um traficante nu... Um traficante não tem vergonha de nada. Resultado: negativo. A chapa nada acusou. Mas o oficial Unamo me disse que eu teria que fazer outro exame. "Vamos hacer otro, necesitamos dos". Nessa hora eu disse que queria fazer uma ligação ou para a Embaixada ou para um amigo meu, o Leo Felipe Campos. “No, no puedes llamar a nadie”, me disse o mano Unamo, de modo muito humano. Estavam fazendo de tudo para me aterrorizar e atrasar o voo. Mas segui tranqüilo, continuei lendo meu livrinho. O que parecia incomodá-los. E antes de eu subir de novo no jipe bolivariano antiescritores o senhor da inteligência me perguntou baixinho: “Do you speak English or Frank?” eu pensei em lhe responder, “I speak Frank-enstein, pequeño monstruo”. (Imagina então se o baixinho gordinho fosse do serviço de "Ignorância" Bolivariano?). Mas respondi que falava português e ele me perguntou: “?Tienes dinero?”. Nessa hora fiquei danado da vida e disse alto: ?Que me has preguntado, señor?”. Nisso os outros soldados ouviram e Unamo perguntou o que estava passando comigo. Eu disse ao mano Unamo que o senhor “inteligente” tinha feito uma pergunta a mim e eu não tinha entendido, por isso tinha pedido que ele falasse mais alto. Nisso o velhote baixinho gordinho da “inteligência” disse, “No, no es nada, nada importante”. A essa altura, creio que Unamo não sabia aonde me levar para tirar outra radiografia, pois a região ali, claro, é muito desenvolvida, é uma área onde se encontra de tudo, mas com só com os camelôs e no mercado negro. E creio que clínicas e hospitais em bom estado são bem mais difíceis. Ou não existem mesmo. O mano Unamo então chamou a base, falou algo lá no seu espanhol que come todas as sílabas (acho que ele também não havia tomado café da manhã) e esperou. A esta altura eu pensava seriamente que não havia o que eu pudesse fazer para me livrar. Depois de três scanners no aeroporto, mais uma radiografia da barriga, e depois outra, e agora a chamada para uma base militar... Eu ia mesmo ficar preso ali como traficante. Certamente também viram os livros na minha mala (que chegou toda furada ao Brasil, com livros e roupas estragados e os livrinhos que trouxe para o Gianluquinha também) e achavam que eu podia estar traficando algo que o governo Chávez detesta: Cultura. Sobretudo quando produzida pelos próprios intelectuais venezuelanos (os livros que trouxe, como disse, eram na maioria de escritores de lá). Depois de um segundo ou terceiro comunicado, o carro foi em direção ao aeroporto. Já eram bem mais de nove da manhã, horário em que o voo partia. Chegando à área de embarque internacional, o carro seguiu adiante. Pensei, estou danado. Os filhotes de Chávez me querem como exemplo para os gringos traficantes. Não saio mais desta república socialista bolivariana, acreditava. Se não fosse a natureza grandiosa do Cerro El Ávila e seu verde, eu poderia me sentir em qualquer uma daquelas ditaduras socialistas em paisagens cinzas do leste da europa de anos atrás. Romênia, Albânia, Polônia e por aí afora. Ditaduras em nome do socialismo. Socialismo que jamais existiu em lugar algum do mundo. Distorceram Marx e se esqueceram do verdadeiro socialista que se chama Bakunin. O anarquismo é o socialismo. Todo o resto são regimes-lobo sob pele de cordeiro, ora comunista ora capitalista. O mundo é plutocrático, sabemos. Democracia em grande parte é uma falácia. Uma falência. O carro fez um retorno, voltou a área de embarque internacional e me mandaram descer, nisso eu já tinha batido meus ombros uma duzentas vezes no teto do carro, que era muito baixo. Bati também a cabeça algumas vezes. E creio que os policiais de Chávez também batem ali suas cabecinhas o tempo todo. Os dois neurônios que levam em suas cabeças, chamados Hugo y Chávez, devem sofrer fortes abalos. Mas continuam amando o sistema que ultimamente se alimenta de armas suecas* e tanques russos. Bem, desci do carro da Guarda Chavista e me levaram ao cuartito abafado para assinar um termo dizendo que eu não havia sido molestado fisicamente. Então Unamo me mandou correr porque o voo estava esperando. Eram dez da manhã. Nisso eu tinha que passar por uma roleta para a área de embarque. Estava travada. O mano Unamo me disse, “Salte por ahí”. Era para eu passar por cima de uma esteira de malas. Apressado pelo mano Unamo, escorreguei e bati a perna, fortemente, sai mancando, minha canela ficou toda inchada com vários hematomas. E ainda está. Roxa. Dolorida. Mas eu já havia assinado um termo que dizia que eu não tinha sido molestado fisicamente. No fim das contas, voltei com quase todo o dinheiro que eu tinha ganho pelo trabalho da oficina. Não trouxe nem uma xícara escrito “Caracas”, ou uma camiseta com o escrito “Venezuela”. Ou “Estuve en Caribe venezolano”. Sei lá, essas coisas para turista colocar na sala de suas casas e mostrar aos vizinhos que viajaram pelo mundo e adquiriram cultura só por terem entrado numa lata de sardinha que se chama avião, onde as pessoas suam, tossem, vão ao banheiro toda hora. Onde a turbulência é uma droga, a música é péssima, os filmes são terríveis. E muita gente lendo livros de autoajuda, livros sobre como administrar negócios, ou Paulo Coelho. Por isso, certamente quando cai um avião, morrem muitíssimos coelhos numa paulada só. Enfim.... cheguei ao avião... Mas passaram-se dez minutos mais ou menos e chegou o outro detido pela guarda chavista, um professor de Roraima, da Universidade Federal, chamado Thiago. Prenderam sua bagagem e fizeram com ele alguns absurdos. O voo partiu lá por dez e quinze. Levei a certeza de que fiz grande amigos em Caracas, grandes mesmo. Mas também trouxe outra certeza: Simón Bolívar esta remexendo seus ossos na tumba sem parar. O sistema de Chávez é bruto. Atrasado. Violento. Não é socialista coisa alguma. É repressor. Contudo, deixo recado para os oportunistas de plantão, Lula não tem nada a ver com os modos políticos do senhor Chávez. Quanto ao Paraná, já não sei se se e pode afirmar o mesmo. Digo mais, não sou petista. Não creio em Deus (ao menos nesse deus branco burguês com matriz no Vaticano nazista). Não creio em mitos. Não tenho ídolos. Não creio em governadores paranaenses com cara de governadores de Montana. Não creio em presidentes que se apartam de sua gente. Não creio na direita nem na esquerda. Vocês não precisam portanto acreditar em mim. Assim estamos quites. Podem me chamar de agora em diante de Sandrini Chávez de Cadeia.
* Um país expressivo como a Suécia deveria no máximo produzir cuecas, cuecas-suecas (ahn, bom né?) não armas. Não há porque querer invadir a Suécia, só se for para saquear de lá o tédio de uma sociedade gelada. E bem...

13 agosto 2009

performance NOMOS/teatro da caixa, em curitiba, dias 18, 19 e 20 de agosto

Lançamento do novo disco do França...

Serviço

Música de Apartamento – Alexandre França. Teatro Paiol (Lgo. Guido Viaro, s/nº – Prado Velho), (41) 3213-1340. Hoje e amanhã, às 21 horas. Ingresso: R$ 15 (com CD), R$ 10 e R$ 7 (estudantes).

WANNABE

Sandrini em apuros!

ARTES Miércoles 12 de Agosto de 2009 | 26 TalCual

Artes

Amarga despedida

El novelista brasileño Paulo Sandrini, quien impartió un taller de narrativa en Caracas la semana pasada, fue retenido temporalmente por la Guardia Nacional en el Aeropuerto de Maiquetía
Oscar Rodríguez Loyo

Cortesía Paulo Sandrini
E l escritor brasileño Paulo Sandrini regresó a su país no sólo con buenos recuerdos de Venezuela y de la grata experiencia que vivió en los talleres de narrativa que dictó durante la semana pasada en el Instituto Cultural Brasil Venezuela. Lamentablemente, también se llevó un mal sabor en la boca luego de ser detenido y hostigado por las autoridades, el pasado sábado 8 de agosto, en el Aeropuerto Internacional Simón Bolívar de Maiquetía. El novelista de 38 años fue retenido por autoridades del aeropuerto junto a otro señor, y un joven profesor universitario bajo la acusación de "supuesta posesión de drogas", horas antes de su vuelo con destino a la ciudad de Brasilia. Sandrini, quien se encontraba en la ciudad de Caracas dictando una serie de talleres literarios denominados Violenta imaginación, chequeó su boleto de viaje y su equipaje para dirigirse a la zona de embarque, cuando oficiales militares y de inmigración le solicitaron el pasaporte, su maleta de mano y colocarse frente a la máquina antidrogas. "Me encontraba en la cola pasando con mi equipaje de mano, cuando me pararon. Sin explicaciones, me pidieron el pasaporte y me mandaron a colocarme debajo de la máquina para detectar drogas. Me hicieron pasar tres veces por la máquina y como no había desayunado, vieron que tenía el estómago vacío, entonces me llevaron a un cuarto donde me tuvieron por media hora, y luego trasladarme un hospital para tomarme una placa de Rayos X, para detectar si llevaba drogas o no en mi estómago", explicó Sandrini vía correo electrónico. El escritor fue llevado a una clínica del Estado Vargas para realizarle el examen. Durante el trayecto, las autoridades lo llevaron a diversos sitios de Vargas sin responder a las preguntas de Sandrini, quien asegura que buscaban atemorizarlo pero se mantuvo tranquilo hasta llegar a la clínica. "Antes de ir al hospital, los oficiales se detenían a cada rato en varios lugares para buscar comida, jugos, alcohol. Incluso, se paraban de manera innecesaria al lado del camino con el fin de retrasar el vuelo aún más de lo que ya estaba, y ponerme en una situación de terror. Era una violencia psicológica contra mi, una `Violencia institucional’, sobre la cual habíamos debatido con los alumnos del taller literario. Pero yo me quede tranquilo y leía un libro dentro del carro de la policía, lo que para ellos fue un tanto incómodo", dijo. Los militares le prohibieron a Sandrini hacer llamadas telefónicas durante el tiempo de retención. Los resultados de los Rayos X apuntaron que el escritor no poseía sustancias ilegales. Sin embargo, uno de los funcionarios buscó chantajearlo dentro de la unidad móvil. "Me llevaron a una clínica en malas condiciones y con aparatos obsoletos. Me hicieron dos exámenes y los dos salieron negativos. Luego me volvieron a meter en el auto y el chofer que estaba vestido de civil me pregunto en voz baja si tenía dinero. Yo le pregunté en voz alta qué fue lo que me preguntó, cosa que alertó a los otros y mantuvo al chofer en silencio", agregó Sandrini. El autor explicó que, minutos después, fue llevado aeropuerto, mientras las autoridades realizaban llamadas a la base del ejército. Allí fue exonerado y obligado a firmar un documento que explicaba el procedimiento de las autoridades y que Sandrini no había sido molestado ni agredido físicamente. Sandrini se suma a la lista de escritores e intelectuales que han recibido muestras de hostilidad en el aeropuerto, entre quienes cabe citar a Enrique Krauze, Mario y Álvaro Vargas Llosa y Fernando Mires.

07 agosto 2009

OLHO de GATA

(para Lêlé, minha gatinha...) Parte I Era uma vez uma gata xadrez empoleirando-se sobre a mesa. Não que eu tenha certeza, mas ela me olhava meio de esguelha como quem caça. Os belos olhos da gata estavam arregalados, bastante iluminados e com uma ponta de brilho no canto inferior, onde eu, o pobre ratinho branco, me via refletido. Permaneci em pé e sem um pingo de medo, fiquei apenas correspondendo o que de mim se esperava: no meio do peito enorme flechada. Ela emitia sinais inequívocos de interesse no material, a saber: A língua que lambe o lábio, os pêlos todos ouriçados além dos olhares já citados. E também não era pra menos, um espécime estonteante: pele alva, contornos bem feitos, as prendas nos seus devidos lugares. Ou seria possível que só estivesse com frio, absorta na profundidade quase impenetrável da penugem? Pensei em oferecer o meu mais profundo abraço, envolvê-la no aconchego do meu colo lhe acariciando a fronte suplicante; enfim, de fazê-la sentir segura debaixo daquele teto de várias possibilidades. À princípio, exitei. Inventei a mim mesmo 17 desculpas para desfazer meus planos iniciais, desviando-me a cada momento do alvo primordial. Refleti, conjecturei, levei às últimas conseqüências e acabei decidindo por observá-la à distância, um pouco mais. Mas por fim não resisti, lenta e graciosidade me aproximei. Puxei a cadeira, sentei e a encarei profundamente, a sobrancelha esquerda levantada e nenhum movimento largo. Ela recuou um pouco, assustada. Acho que não esperava a minha iniciativa. Receosa, cabisbaixa, o olhar ainda de lado, era a um só tempo arisca e domesticada. No entanto, a gatinha tocou de leve a minha mão, abandonou o que talvez fosse apenas um vão de recato. A mim me admirava o semblante da felina: magnífica! Um quê de tímida, mas as barbatanas em alerta. Senti imediatamente um alívio e me deixei entorpecer pelo contato. Sorri, e foi precisamente nesse momento que uma dúvida me invadiu a alma: seria ela uma bichana muito calma?

A (sub) CULTURA DE MEU PAÍS

CRIMES BÁRBAROS, TRAIÇÃO POR TODOS OS LADOS, CORRUPÇÃO DESENFREADA NO senado: AS PESSOAS NÃO SE ESPANTAM MAIS COM NADA! PARECE QUE ANDAM TODAS ANESTESIADAS (PELA NOVA GRIPE?), APENAS ESPERANDO A copa DO ANO QUE VEM.

3 trechos para a trama do inverno que treme

1- A decadente elite curitibana não vê a hora que chegue o frio para poder tirar do armário seus elegantérrimos casacos europeus cheirando à naftalina e já um pouco embolorados. 2- A polaquinha passa manteiga de cacau nos lábios partidos, ajeita bem o gorrinho vermelho, protege o pescocinho branco com o longo cachecol e sai faceira a caminho do cinema. 3- Em todos os frios cruzamentos de Curitiba, para os pedestres o sinal fechado. Vê-se de ambos os lados da rua, dois exércitos prontos pro combate.

CAFAJESTES: atenção, mulheres, cuidado com eles!

LANÇAMENTO: Está sendo lançado pela Editora Nova Mulher, "a amiga da mulher moderna", o livro Manual do Cafajeste Profissional, da socióloga e pós-feminista norte-americana Lisa Strombovski. O livro inicia com um capítulo a respeito da diferença entre os tipos de cafajeste (o amador, o profisisonal e o pseudo-cafajeste) para daí afirmar que o "CAFA" - adjetivo utilizado para esse tipo de ser -, ou seja, o "meio-termo entre o bonzinho e o completo descarado É A MATERIALIZAÇÃO DO SONHO DE TODA MULHER".
Apresenta a definição dicionarizada do termo cafajeste (diz o que é) e acrescenta informações do tipo: qual o seu habitat? (onde encontrá-lo (s)) e lista nomes que sugerem a mesma idéia. Lisa diz que há o cafajeste que é cafajeste (torna-se um) por causa de uma mulher, por uma grande desilusão amorosa, mas afirma que é bom sempre estar alerta: Toda mentira, por mais descarada que seja, é dita pelo cafa com a maior naturalidade do mundo. Ele é o tipo de cara que tem três namoradas ao mesmo tempo e diz a todas "eu te amo" com uma facilidade impressionante. Os cafas são sempre muito bons de papo, verdadeiros mestres da vida social. Convincentes, nunca os peça para jurarem por qualquer coisa que seja; mesmo que seja pela santa mãe deles estirada no caixão, irão farer na mesma hora. E o pior, você irá acreditar! Todo cafajeste que se preza é um administrador de mulheres: os cafas são reconhecidos por suas frases típicas. Quando perguntado, por exemplo, "qual faz seu tipo"? Logo estarão prontos a responder: "Mulher", logo acrescentando "...e viva!". Depoimento de Hannah Bistronda (amiga e editora de Lisa): "Uma vez, estava eu em casa, esperando o meu marido, quando escutei barulho na porta. Ele chegou bêbado e cheirando a álcool e mulher. Eu lhe disse: John, seu fdp, isso são horas?, onde você estava seu bastardo?, e comecei a agredí-lo. Ele disse, enrolando a língua: 'calma, minha flor, eu tava jogando uma sinuquinha com o pessoal do trabalho, você acha que eu não mereço um pouco de diversão saudável?'... E eu: saudável o raio que o parta, seu cachorro sem coração e... e.. Espera. O que é isso atrás da sua orelha?.. E aí o John tateou a própria cabeça, mas estava tão bêbado que não conseguiu achar o giz branco que estava ali. Eu peguei o giz e lágrimas escorreram dos meus olhos; a partir daí soube que ele era fiel. Ah, meu amado John". Características principais: extremamente seguro de si (auto-confiante); bom de papo; cara-de-pau; manipulador. O cafajeste é decidido, sabe o que quer: pegar mulher! O maior número possível delas, de todos os tipos imagináveis, em todo e qualquer lugar. O cafa profissional é aquele que até na rua consegue pegar mulher. (Há diferentes níveis de dificuldade: bares, cinema, ônibus, rua...) Muitas vezes possui dois (ou mais) celulares: um para a matriz (a da vez!), outro (s) para as filiais. O que deixa as mulheres indignadas é que o cafa nem precisa ser bonito; basta saber agradar, o papo tem de convencer. Por isso, cuidado garotas, eles estão por aí, mais disseminados que gripe suína! O livro da doutora Lisa pode ser encontrado em livrarias especializadas de todo o país, em tradução deste que assina o post. Em Ctba, disponível nas principais livrarias. Hasta! serviço: Manual do Cafajeste Profissional Ed. Nova Mulher, R$34,00.
INTERRUPÇÃO "Vou contar uma história. Uma história de espantar..."
Sou um monstro. Um monstro horrível que fez a coisa mais ordinária, mais vil, que alguém jamais poderia fazer. Cometi um crime. O meu crime é algo muito feio, próprio de pessoas sem o mínimo sentimento para com as outras; pessoas que não conhecem o sentido da palavra altruísmo. Nem compaixão, preocupação. Egoístas, essas pessoas não reconhecem as necessidades primordiais de afeto e carinho, que todos os seres-humanos normais lhes pedem. Elas não entendem a real dimensão de SER humano. Elas são desumanas. De acordo com o modo pelo qual a sociedade usualmente me define, sou um ‘senhor’, jovem ainda, no alto de meus quase 40 anos. Vivo sozinho em meu apartamento, já vai algum tempo. Quase nunca saio. Não preciso; tenho tudo que necessito aqui mesmo e, nestes tempos de internet, posso fazer tudo, pedir tudo, sem deixar meu escritório. Os poucos seres vivos que vejo, me definem como um ‘eremita’. O que tenho a lhes contar, senhores, aconteceu há duas décadas. Àquela época eu apenas começava uma vida. Eu não havia tido, até então, o que se pode chamar de uma existência fácil. Vinha de um lar desestruturado: minha mãe enlouquecera e fugira quando eu ainda era um menino; meu pai foi alcoólatra, morreu de cirrose hepática. Sempre tive dificuldades de relacionamento. Não fui o cara popular na escola. Não era o preferido das garotas. No futebol, era sempre o último a ser chamado. Enfim, levava uma existência triste. Mas, finalmente, eu estava progredindo, mudando o curso dos acontecimentos, e havia todo um futuro por levar: sonhos, desejos, planos, metas, objetivos,... Tudo traçado, planejado, certo e a caminho. Foi quando recebi a notícia... Apesar de todos os cuidados para que não acontecesse, minha namorada havia engravidado. Em minha cabeça pipocavam imagens de fetos e bebês e mulheres barrigudas. Em meus sonhos, me via levando ao parque o filho que não queria. Aquele que, por mim, nunca teria vingado. A partir dalí nunca mais a liberdade. E sim a existência presa a outro ser. A condição essencial da individualidade tinha sido violada. Todo o desejo por lindas mulheres teria de ser centralizado em uma única; que, aliás, não mais me satisfazia. Nem mesmo intelectualmente. No entanto, permanecíamos juntos, apenas esperando o momento de romper definitivamente. Os senhores sabem, separações são sempre assim: primeiro os laços rompidos verbalmente, as acusações múltiplas e mútuas pela diferença de personalidades e de sonhos. Um, queria engolir o mundo, conquistar poder, ser um deus; outro, priorizava a família, queria casar, ter filhos, dedicar-se a eles. Pontos-de-vista divergentes. Até o momento em que os objetos pessoais são devolvidos: a parte prática da separação. Discos e livros voltam às mãos dos donos. (Prossegue...)