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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


07 agosto 2009

INTERRUPÇÃO "Vou contar uma história. Uma história de espantar..."
Sou um monstro. Um monstro horrível que fez a coisa mais ordinária, mais vil, que alguém jamais poderia fazer. Cometi um crime. O meu crime é algo muito feio, próprio de pessoas sem o mínimo sentimento para com as outras; pessoas que não conhecem o sentido da palavra altruísmo. Nem compaixão, preocupação. Egoístas, essas pessoas não reconhecem as necessidades primordiais de afeto e carinho, que todos os seres-humanos normais lhes pedem. Elas não entendem a real dimensão de SER humano. Elas são desumanas. De acordo com o modo pelo qual a sociedade usualmente me define, sou um ‘senhor’, jovem ainda, no alto de meus quase 40 anos. Vivo sozinho em meu apartamento, já vai algum tempo. Quase nunca saio. Não preciso; tenho tudo que necessito aqui mesmo e, nestes tempos de internet, posso fazer tudo, pedir tudo, sem deixar meu escritório. Os poucos seres vivos que vejo, me definem como um ‘eremita’. O que tenho a lhes contar, senhores, aconteceu há duas décadas. Àquela época eu apenas começava uma vida. Eu não havia tido, até então, o que se pode chamar de uma existência fácil. Vinha de um lar desestruturado: minha mãe enlouquecera e fugira quando eu ainda era um menino; meu pai foi alcoólatra, morreu de cirrose hepática. Sempre tive dificuldades de relacionamento. Não fui o cara popular na escola. Não era o preferido das garotas. No futebol, era sempre o último a ser chamado. Enfim, levava uma existência triste. Mas, finalmente, eu estava progredindo, mudando o curso dos acontecimentos, e havia todo um futuro por levar: sonhos, desejos, planos, metas, objetivos,... Tudo traçado, planejado, certo e a caminho. Foi quando recebi a notícia... Apesar de todos os cuidados para que não acontecesse, minha namorada havia engravidado. Em minha cabeça pipocavam imagens de fetos e bebês e mulheres barrigudas. Em meus sonhos, me via levando ao parque o filho que não queria. Aquele que, por mim, nunca teria vingado. A partir dalí nunca mais a liberdade. E sim a existência presa a outro ser. A condição essencial da individualidade tinha sido violada. Todo o desejo por lindas mulheres teria de ser centralizado em uma única; que, aliás, não mais me satisfazia. Nem mesmo intelectualmente. No entanto, permanecíamos juntos, apenas esperando o momento de romper definitivamente. Os senhores sabem, separações são sempre assim: primeiro os laços rompidos verbalmente, as acusações múltiplas e mútuas pela diferença de personalidades e de sonhos. Um, queria engolir o mundo, conquistar poder, ser um deus; outro, priorizava a família, queria casar, ter filhos, dedicar-se a eles. Pontos-de-vista divergentes. Até o momento em que os objetos pessoais são devolvidos: a parte prática da separação. Discos e livros voltam às mãos dos donos. (Prossegue...)

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