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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


25 agosto 2009

Baixaria na TV é machismo
por Bruna Perussello*

É notável que nas últimas décadas estamos vivenciando uma tendência exacerbada de se flexibilizar tudo e aceitar tudo o que era até então inaceitável, talvez numa tentativa desorientada de recuperar o tempo perdido de tanta repressão que se instalou em diversos contextos durante toda a história. Assim, hoje, há uma constante pressão da sociedade para ver tudo com extrema naturalidade. Chegou-se a um ponto em que tudo de justifica pelo dinheiro ou pela diversão. Se uma determinada conduta confere diversão ou proventos a alguém, parece ser proibido abarcá-la na questão de certo ou errado. Quem ousa criticar qualquer coisa, ou adentrar no âmbito do “certo ou errado” é taxado de moralista e conservador. Falar em moral, valores, questionar condutas, debater a erotização da televisão e a instigação sexual precoce propiciada pela mídia ou qualquer coisa do gênero virou sinônimo de caretice e conservadorismo. A tênue linha que dividia o moralismo do bom senso parece ter se esvaído há algum tempo, o que resultou na triste situação atual: a sociedade não consegue mais distinguir o que é ser um moralista conservador e o que é ter senso crítico. A única proibição consentida parece ser justamente contra o ato de proibir, ou seja, é proibido proibir. A mídia percebe muito bem essa tendência, por isso as emissoras de televisão concedem programas de entretenimento a pessoas como Luciana Gimenez, Luciano Huck, Gugu e outros tantos “promotores de erotismo disfarçado de entretenimento” que chamamos delicadamente de apresentadores. Como criticar qualquer coisa - principalmente quando ela abarca a sexualidade - é visto como uma atitude de excessivo pudor e moralismo, esses programas televisivos atraem grandes audiências, de pessoas de todas as idades e classes sociais. A mídia apresenta programas cada vez mais chulos e valores cada vez mais deturpados. A mulher é usada como objeto sexual de uso e desuso para enfeitar o ambiente sexualmente. Mercantilizar o corpo feminino se tornou instrumento indispensável para atrair a atenção do público. Programas de televisão idiotizam a mulher nas situações mais gratuitas. Essas atitudes vão se tornando cada vez mais comuns, aos poucos tornando-se normais, banais e plenamente aceitáveis, ao ponto de uma mulher se deparar com o priminho enxergando uma mulher como um mero pedaço de carne e achar até engraçadinho. Ao ponto de vermos mulheres rebolando praticamente de calcinha no palco onde há crianças das mais tenras idades, e quem julgar isso ser taxado de moralista. Ao ponto de termos que conviver com a cultura de que “para se divertir tem que ter baixaria e mulher como objeto de consumo sexual” até em bailes de formaturas, e quem ousar criticar é taxado, novamente, de moralista. Fico imaginando como será a situação para as mulheres num futuro muito próximo. Se hoje já temos que nos proteger a todo momento contra assédio sexual dos chefinhos; contra assédios na rua, quando ouvimos comentários sobre nossa aparência, como se fôssemos meros bens de consumo num supermercado, totalmente à disposição da opinião alheia; se quando vamos fazer uma baliza alguns homens param de braços cruzados para analisar nossas manobras, só esperando nosso primeiro erro para nos chamarem de barbeiras; se somos julgadas primeiramente em relação à nossa aparência até mesmo em situações profissionais, etc, imaginem então como será para a próxima geração, já que os garotinhos de hoje em dia estão crescendo e se desenvolvendo se deparando a todo momento com essa imagem da mulher veiculada pela mídia e por estilos musicais (como funk e axé, por exemplo), encarando a mulher como um mero conjunto de atributos físicos, ou seja, um mero corpo para sua satisfação sexual. Imaginem, então, quando eles se derem conta que essa cultura machista é banalizada, acatada e até promovida pelas próprias mulheres.

- publicado originalmente em http://portal.contato.net/falando_serio/index.php?acao=internautas&art_codigo=017478&col_codigo=9, em 06/08/09.

*Bruna é psicóloga e (em breve) administradora. Minha amiga pessoal ativista em assuntos como: direitos das mulheres, defesa contra a vulgarização feminina, crítica ao consumismo etc... Mais de seus escritos podem ser encontrados em seu blog: http://angustiaetica.blogspot.com/

3 comentários:

  1. Mais ofensivo que ver um priminho relacionando a imagem feminina a uma peça de alcatra vendida em um açougue.. é ver algumas das nossas "priminhas" desejando ser essa "alcatra" futuramente. E qualquer imagem que fuja desse retrato é visto como um fracasso. A mulher quando se submete a toda essa perspectiva doentia resume suas idéias em visceras despedaçadas por projeções que até então não eram dela. Triste.

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  2. voce bruna perussello e demais ,que bom que existam pessoas como voce valeu

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  3. Quem é esse anônimo?
    Já tenho até fãs, que máximo :)

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