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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


22 janeiro 2009

PARA A FORMAÇÃO DO ARTISTA

foto: Cristiane Senn por Cesar Felipe Pereira
Ser artista é uma escolha. Se as pessoas vivem para ter prazer, por que é que elas se perdem, enrolam-se num eterno círculo vicioso, gastam as suas vidas em problemas corriqueiros e de que nada valhem para a real experiência que são obrigadas a adquirir neste plano? Ora, a luta pela sobrevivência lhes é massacrante, obrigando-as a pôr num grau maior do que qualquer outro a manutenção de suas vidas, que é algo que sequer compreendem em profundidade. Fato é que a maioria das pessoas decide levar suas vidas em busca de conforto e estabilidade. Qual é o papel da arte na vida destes pobres seres, estes mesmos que vagam sem rumo, que não sabem de onde vieram, onde estão e para onde vão, que mesmo não se importam com os propósitos de suas existências, que não questionam suas missões no mundo? Para essas pessoas, e para todas as outras, a arte existe para tirá-las deste marasmo, para sacudi-las, para fazê-las perceber o que sozinhas não poderiam. E por isso mesmo, a arte/obra deve ser impactante, exagerada, exacerbada, deve provocar no apreciador/espectador/leitor, enfim, naquele que entra em contato com ela, estranhamento suficientemente grande para fazê-lo esquecer do horário em que parte o ônibus, da conta a pagar no fim do mês, do relógio preso ao pulso, dos maiores problemas com a refeição de logo mais. Seu papel é incomodar; chocar; alertar; causar espanto; abrir os olhos. Transgressão. Rebeldia. – “A arte é, e sempre foi, provocação. A função da arte em relação à sociedade resulta clara: expressar a qualquer preço o que se esconde atrás do muro. O artista é o que arranca o véu, toda arte é violação, é uma regressão ilegal em relação à maturidade da sociedade industrial e super-repressiva”. (Jean-Jacques Lebel, pintor francês, em Discutindo Arte n.º 3). Se isso for feito, a garantia de êxito torna-se eficaz: são essas as obras que mantêm um leitor atento a madrugada inteira, que faz a pessoa saltar na poltrona do cinema, que a deixa incapaz de desviar os olhos de um quadro. Para Aristóteles, na “Poética”, que trata essencialmente da tragédia, a finalidade é a CATARSE. Ele via a arte como imitação da natureza (MIMESE), e que nela (na arte) havia prazer na contemplação. A vida é o material do artista. Incerto numa determinada realidade o ser essencialmente criador, diferentemente dos homens que se dedicam a outras atividades, vê-se impulsionado a realizar aquilo a que se propõe: criar. A área de interesse que escolheu para si – ou que lhe escolheu – trata não daquilo que é, mas daquilo que parece ser. Representativa por excelência, distingue-se de outros vieses pelos quais poder-se-iam encarar a realidade – seja lá o que essa palavra verdadeiramente signifique -, a saber: a ciência e a filosofia. Desse modo, o profissional da arte possui, invariavelmente, liberdade e poder inigualáveis. Pode recriar realidades, inventar mundos imaginários e/ou fundir uma coisa na outra. A arte, enfim, é o canal pelo qual o artista dá vazão aos sentimentos e pensamentos contidos dentro de si. Se a obra de arte visa à purgação, a purificação, à catarse de emoções e sentimentos contidos no inconsciente de seu apreciador, ela também é um modo de vida. O ser artista é um estado permanente, libertador e, até certo ponto, indissociável da própria obra: Respiro arte. O ar já não me falta. Arte é inevitável. Fatal. Arterial. Não quero a prisão da vida teórica. Quero a liberdade da arte. Contudo, tais características de nada valem se o artista não souber escoar aquilo que produz, ou seja, não for capaz de fazer sua obra circular, de comunicar com o mundo – a finalidade máxima de seu trabalho. Desse modo torna-se indispensável transformar a obra num produto, por si só vendável, comercializável... Visão essa que é duramente criticada por Ernest Fisher, que afirma: “O artista verdadeiro se posiciona contra a vulgaridade do sistema (esta sociedade de mercado, que transforma tudo em mercadoria)”. É necessário ter um ideário estético, conteúdo: não se preocupar com a questão do dinheiro (do mercado). O artista acadêmico e o artista empírico Mas, onde procurar a devida formação profissional? Primeiramente, há que se distinguir duas modalidades de profissional, ou seja, daquele que se propõe a viver de sua arte: o artista empírico e o artista acadêmico; o popular e o erudito. O artista acadêmico é aquele que vê um algo a mais para seu trabalho na educação formal: freqüentar um curso universitário (ou dois?), cursos livres, oficinas, palestras, seminários, são modos concretos de entrar em contato com a atividade que os interessa. Nesses encontros é possível ficar a par do que se fez e se tem feito na área escolhida, verificar a visão de profissionais já estabelecidos no mercado e os caminhos que percorreram para chegar onde se encontram; um mundo de conhecimento pronto para ser assimilado. Certamente não é um porto muito seguro, mas apenas uma garantia a mais no caso de não vir a dar propriamente certo a carreira do profissional. No entanto, essa pessoa quando verdadeiramente artista, estará sempre pronta a afirmar que se não puder viver de sua arte, não quererá vida alguma! Por outro lado, o artista empírico é aquele que, como o próprio nome diz, faz da prática a sua máxima. O artista é um empreendedor. Deve fazer de sua personalidade uma inquietude que o mova em direção à realização, a tornar seus projetos realidade. Concretizar seus objetivos é o desafio principal que enfrentará no dia-a-dia. É através do fazer artístico propriamente dito que o ser se descobre artista, se desenvolve, se consolida. De nada adiantam títulos de mestre ou doutor, dez mil certificados, se o artista não se entregar à pugna diária do trabalho. Em outras palavras, a obra vale mais que o seu artista. Ela é eterna, ele se esvai. Vale mais do que ele vê e ouve, mais do que por ele é imaginado. Processo criativo: 3 práticas importantes A Freqüentação Freqüentação, em arte, é o ato consciente/deliberado de procurar entrar em contato com os produtos culturais disponíveis, por gosto, interesse cultural, deleite... A freqüentação é muito importante, porque é claro que o artista, esteja ele devidamente estabelecido como tal ou ainda em formação – que na verdade é algo diário, contínuo e eterno -, precisa da interação com elas para poder saber o que é arte, o que se faz, o que ele “pode” fazer. Livros, discos, filmes, peças, quadros etc são importantes na veiculação de conhecimentos, processos, modos de “feitura”, entre outros elementos. Enfim, escritores lêem livros; cineastas vêem filmes; pintores vão a exposições com o intuito de “respirarem” aquilo a que entregam suas vidas... Observação Objetiva Além da interação com as obras, o artista é aquele que se mantêm constantemente com os olhos e ouvidos bem “abertos”. Faz da observação objetiva da realidade, ponto de partida para a criação de “coisas diferentes”, artísticas. O artista, por razões óbvias, em seu trabalho criativo, utiliza-se mais daquilo que vê e daquilo que ouve, do que das inúmeras obras com as quais teve contato. Análise Introspectiva Apenas observar, no entanto, não basta, e não é a única fonte de “inspiração” para as obras. É necessário pensar; as reflexões a respeito daquilo que se observa no cotidiano trazem idéias para os trabalhos. A análise introspectiva permite o aflorar do que há de único em cada ser humano, caminho perseguido por muitos para aquilo que chamam de uma arte “verdadeira”. Além de pensar naquilo que se observou, atentamente, outra fonte interessante é o percorrer, vasculhar os porões da memória. Grande parte do material utilizado nos trabalhos do artista procede de experiências próprias. O background que o homem carrega consigo, indissociável do ser artístico que é, invariavelmente o influenciará para a produção de todo o espólio que futuramente deixará. O certo é que o sujeito que pretende fazer da arte seu meio principal (ou único) de sustento, e que quer viver, e não apenas sobreviver, de sua própria arte, não pode contar simplesmente com o poder divino da inspiração. Quem escreve, pinta, compõe, enfim, quem cria, necessita criar também mecanismos nos quais possa realizar “construtos artísticos” mesmo quando supostamente parecer que a musa amiga o abandonou. Alguém, certa vez, afirmou que talento (inspiração) é apenas 5% da atividade, os outros 95% são transpiração; e que é só no dicionário que o sucesso vem antes do trabalho. Com isso em mente, a melhor maneira de conquistar os louros da melhor, e ao mesmo tempo, pior das atividades humanas é realmente arregaçando as mangas! Se não há como escapar, o ideal é fazer daquele dia aparentemente sem nada pra dizer - o que chamam de ócio criativo -, um dia de coleta de dados, pesquisas, raciocínio. Quantas e quantas boas idéias não surgem exatamente quando não se quer pensar em nada? Por isso, uma tarde inteira com a televisão ligada, ou mesmo a madrugada (por que não?) abandonado à sorte do “Altas Horas”, podem fazer muito por sua carreira. ZAPEAR em busca de inspiração: depois que inventaram o controle remoto (castrador e libertador dependendo do viés pelo qual se encare; lembre-se: nada é completamente bom ou completamente mau) ninguém mais coloca freios no criador. Se tiver uma TV por assinatura então, a coisa pega fogo: por mais que não passe nada que agrade pelos cento e tantos canais, ao menos se demora com o controle na mão. E a cabeça segue funcionando. Captando o mundo confuso que habitamos. Então é importante procurar a inspiração nos mais diversos meios, tanto populares quanto eruditos. Resumindo: Para a formação do artista: 1) Obras (livros, discos, filmes, peças etc.); 2) Olhos e ouvidos bem “abertos” (observação objetiva); 3) Reflexões (análise introspectiva). O controle racional + o aflorar do inconsciente. Mas o que é arte mesmo? A arte é vista muitas vezes como balburdia, brincadeira de crianças marotas ou jovens irresponsáveis. Não há mãe que já não tenha afirmado, o chinelo levantado na mão direita: “Fulano deve estar fazendo arte!”, no sentido de “ele está aprontando alguma coisa”. Para muitos uma maneira interessante de passar o tempo; contudo é castrador prender-se apenas à função de entretenimento da atividade; a arte é muito mais que isso. Levando-se em conta a enorme quantidade de indivíduos que com ela lidam, fácil é imaginar o grande número de opiniões a seu respeito. De acordo com Pablo Picasso, por exemplo, “a arte é uma mentira que nos ensina a compreender a verdade, pelo menos aquela verdade que somos capazes de compreender como homens”. Por diversas vezes, o artista é aquele a quem chamam “louco”, um pobre-coitado sem noção de vida prática ou capacidade para ganhar dinheiro. Mas, se por um lado é taxado preconceituosamente de vagabundo, é certo que sem o fruto de todo o seu esforço saberíamos menos sobre nós mesmos, nossa condição neste mundo, as perspectivas de futuro. As obras de arte, produtos culturais, são mirantes sobre o mundo (Paulo Venturelli), visões particulares, idiossincráticas, que tomam por base o mundo observável e o imaginário para poder lançar luz, registrar, sensibilizar esteticamente todos aqueles quanto puderem. Mas, infelizmente, não é toda obra que é assim: o já citado Ernest Fisher, em seu brilhante livro “A Necessidade da Arte”, distingue dois tipos de arte: a utilitária e a instrumental. A utilitária seria aquela arte que se caracteriza pela negação da ideologia; visa à catequese, à doutrina, à pedagogia; enquanto que a arte dita instrumental seria exemplo de amostragem de ideologia, sem tentar convencer o leitor, onde também consta uma mensagem, mas onde ela não é dada de forma explícita; é, por outro lado, artística. Não é possível, contudo, negar às obras o estatuto de arte; são arte, se feitas por um artista. Se você estiver, por exemplo, dentro de algum museu visitando uma exposição, e vir, por exemplo, alguém arremessar uma bolinha de papel em direção a um cesto de lixo, errar e, em seguida, ver muitas pessoas no local ficarem observando, não tenha dúvida: se aquele alguém que arremessou a bolinha for um artista reconhecível pelas pessoas do local, seu ato pode chamar-se “arte”. De acordo com o artista plástico norte-americano Donald Judd, “Se alguém chama isso de arte, então isso é arte”. (Discutindo Arte, 3). O artista possui uma credibilidade quase inata, que o acompanha pelo mundo afora. Os flashes estarão a sua procura; todos estarão esperando o próximo “escândalo” do multibilionário astro do rock. Considerações Finais Artistas: personalidades sensíveis que encaram o desafio de dar significação satisfatória à existência através de trabalhos que representam a "realidade" exterior e interior ao homem, através de trabalhos que inventem novos universos ou que “discutam” os já existentes. Nesse sentido, há muito potencial do mundo e da vida; a velha frase: “A vida imita a arte”, ou “A arte imita a vida”. Se vai longe o tempo em que o artista foi aquele que sofria e produzia, produzia e sofria, passava dor, algo como o eternizado na expressão latina patior, aquele sujeito que vivia da caridade, do financiamento por parte de mecenas e/ou instituições; fica claro que ao longo do século XX e agora, no XXI, os caminhos tortuosos que percorre são bem outros. Em sua produção não apenas a criatividade e a originalidade são os fatores determinantes; não apenas as perguntas “tradicionais”, pertencentes ao mundo da arte são levantadas como, por exemplo: o que eu quero provar com isso? O que eu quero dizer com isso? Isso é possível? É verossímil, crível? Como amoldar todo o material difuso, rico e aparentemente disforme/incongruente na obra de arte? Como fazer com que ela o contenha, signifique e expresse da melhor maneira possível? Além de preocupar-se em “arrumar” imagens inusitadas, boas metáforas (verbais e visuais); de estar permanentemente em busca da palavra perfeita do melhor adjetivo; além de preocupar-se com temas como polissemia, trocadilhos, ênfase, rimas, citações, humor, ironia e sarcasmo; de fazer a conexão ou o devido distanciamento, os diálogos entre as diversas manifestações artísticas (pontos de encontro e de divergência); de preocupar-se com a denifição/delimitação de gêneros; questões essas difíceis de responder, mas da mais alta relevância; o artista moderno precisa preocupar-se com a própria sobrevivência. Como dito, a arte é um ponto de vista, e existe para mudar padrões/regras preestabelecidas, para criar realidades: novos mundos, novos universos. Eternizar acontecimentos, sensações e pensamentos, plasmá-los numa obra de arte, e vendê-la aos interessados. Eis que se criam manifestos, palavras de ordem que manifestam uma idéia, uma atitude nova; uma espécie de “guia” do que fazer daqui para frente, daqui por diante; transformam-se em vanguardas artísticas, através de mudança radical; auto-crítica; revisão de valores – sentimentos próprios, criação de personagens, vozes. RUPTURAS!Dito isso, no que se refere a uma formação moderna do artista – que aqui se tentou explicitar - é necessário acrescentar que o artista se desenvolve e se estabelece no próprio fazer artístico. Produzir, a custo de tanto sacrifício que inevitavelmente a arte gera, uma obra para deixá-la “confortavelmente” guardada/escondida em casa, ou mostrá-la apenas a poucos amigos é, no mínimo, falta de coragem, ou algo que se aproxima da masturbação. Guardar os escritos na gaveta, ou mostrá-los apenas aos amigos, é anti-artístico. Ao contrário de outros tempos, não é mais necessário, seja pelo medo da fogueira ou qualquer outra coisa, esconder as “obras malditas”; assim é que, em pleno ato criativo, não é mais necessário esconder os papéis, as fitas, os discos. Agora os textos podem sim permanecer abertos sobre a mesa, pois não mostrar os feitos aos outros, não abandonar a obra ao sabor do vento, ao julgamento do mundo, é privá-la de enriquecer um pouco mais com as contribuições de seres únicos.

Um comentário:

  1. queimou geral, meu caro.

    bom o texto, muito bom mesmo.

    giulianoquase.

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