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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


09 julho 2008

O QUE EU ODEIO (EM CURITIBA)

Eu odeio essas pessoas que demoram no caixa eletrônico. Eu odeio essa onda hip-hop que tomou conta da cidade. Eu odeio os celulares (onde quer que você esteja, alguém te acha!). Eu odeio a Curitiba Crystal Fashion. Eu odeio os estrangeirismos nas vitrines das lojas (é tudo 50% off). Eu odeio os motoristas que buzinam para toda e qualquer forma mais ou menos feminina que vêem na rua (será que algum deles já conseguiu companhia assim?). Eu odeio os maloqueiros que têm orgulho de ser maloqueiros. Eu odeio os riquinhos que querem ser maloqueiros. Eu odeio panfleteiros, guardadores de carro, fazedores de cartão. Odeio os vendedores de balas nos sinaleiros. Odeio pais que colocam adesivos nos carros informando que seus filhos estão "a bordo". Odeio crianças chatas. Odeio dia de clássicos (de futebol). Odeio parques de diversão. Odeio milicos, guardas, fardas. Odeio pessoas que vivem indo ao médico sem precisar. Aliás, odeio médicos. E também advogados, publicitários e biólogos. Odeio shoppings e fast-foods, junkie food. Axé e pagode. Música sertaneja. Lixo cultural. Odeio filmes de ação. Odeio gente esnobe. Odeio sapatos. Odeio jovens que ganham carros dos pais quando passam no vestibular. Odeio pessoas que tentam ler o que estou lendo ou escrevendo. Odeio o culto ao corpo e a geração saúde. Odeio os carrinhos de supermercado. Odeio agentes de trânsito (as tiazinhas da prancheta). Conclusão: acho que não vou para o céu; tenho muito ódio em meu coração. Será aqui o meu inferno?

07 julho 2008

CARTA DO DESESPERO N.º 4

Tô estressado com você; já faz um tempo. Cansei de repetir insistentemente que não quero mais a sua intransigência. Sobre o que aconteceu hoje eu já havia lhe avisado: falei inúmeras vezes para que não surgisse nenhum novo nome, foto ou o que quer que fosse. Passei da fase de avisar; se você não cumpre, faço eu. E quanto a isso, não cabe a menor queixa por sua parte. Foi avisada e reavisada, por que não cumpriu? Não é necessário falar 1 milhão de vezes? Contudo, você reclamou. Disse que eu não poderia ter apagado nada. Balela. Você não acreditou em mim - como sempre, não deu ouvidos ao que eu falo -, achou que era flerte; não há mais avisos. A respeito da sua intransigência (bater os dois pés a tudo o que sai da minha boca) eu não agüento mais. Você é um dia linda, calma, CIVILIZADA; enquanto no seguinte torna-se quase um BICHO. E não me refiro aquele "meu bichinho", como carinhosamente faço questão de te nomear. É um outro: SURDO, chucro, injusto. É no mínimo gozado ter por todo sempre ao meu lado, personificados, uma fauna e uma flora. Uma fera e uma flor. Pois te afirmo: a fera eu não quero nunca mais. Sempre, sempre, sempre provo que estou certo - desta vez, eu havia avisado - e você não ouve. Não leva a sério. Não ME leva a sério! Continua, por idiotaria birrice infantil e ignorante fechando os ouvidos só (e isso é importante frisar), só para o que eu digo. Mas que CARALHO!!! Vive falando que sou inteligente e não-sei-quê e blá-blá-blá e não respeita o que eu falo, mesmo eu provando estar certo. Não sabe discutir. Pra você, discussão é sinônimo de briga. Acredite: não é! Não quero e não vou mais avisar. Você deve: ser ex-tre-ma-men-te MEIGA; parar de ficar emburradinha por NADA; ouvir a merda das coisas que eu falo e debater como pessoas normais, inteligentes e únicas, não como os filhos-da-puta dos playboyzinhos que permeiam a nossa volta. Pela última vez - juro - pela última vez, pare: 1) de me ameaçar. 2) de comparar a sua vida com a minha. Você não tem esse direito, muito menos a força necessária (idéias, argumentos, experiências de vida, bagagem intelectual) pra me dizer algo sobre mim. Que eu estou errado, por exemplo. EU NÃO TENHO A VIDA FÁCIL PRA PENSAR FUTILIDADES. Eu sei o que sou, de onde venho e aonde vou chegar. Tenho força de transformar a realidade (a minha e a dos outros). E você? Sabe o que quer? Pra onde vai? Qual a sua missão? Analise estas coisas antes de levantar a voz pra mim. Olhe dentro de você: tem o que ali? Não admito que alguém bata o telefone na minha cara - ou que atire o telefone em mim. Eu sei do meu valor, e que cada um vai engolir as palavras ruins a meu respeito. Quanto a você: pense. Pense muito bem se fecha com o que eu exijo. Não aceito mais a calma momentânea. Quando eu digo alguma coisa não posso ser contestado com gritinhos, esperneios e burrice. Só aceito diálogo, meiguice e inteligência. O que eu espero de uma mulher: - Meiguice/calma - Inteligência - Bom-gosto - Fidelidade - Respeito - Entendimento Cabe a você. Cansei de avisar. Quando eu sair por aquela porta aí não tem mais volta.

"A LIBERDADE CONDUZINDO O POVO", Eugène Delacroix, 1830.

Nesse quadro do século XIX, a temática é claramente identificável como pertencente à Revolução Francesa. No centro, em destaque, aparece a personificação de um dos fatores da famosa "tríade" do ideário francês de"liberdade, igualdade e fraternidade": uma mulher do povo, os sans cullotes como ficaram conhecidos, incita os companheiros a seguir em frente. O movimento ocorre do segundo plano para o primeiro e da esquerda para a direita, verificados 1) a inclinação do corpo da mulher/liberdade, 2) a direçao do homem de chapéu e baioneta (?) e 3) as pessoas do segundo plano com os braços levantados. O peso do quadro está na parte inferior, devido aos corpos que jazem sob os pés do "povo". O centro geométrico coincide com o centro "de atenção", destacando-se o homem que "suplica" à mulher/liberdade. Ela olha para os companheiros, e não para frente, como que os convocando ao combate - ou à liberdade. Uma de suas mãos empunha a bandeira francesa, enquanto na outra vemos uma baioneta, o que parece sugerir: "não há liberdade sem luta". Se trata-se de um filme, possivelmente a trilha seria o hino nacional francês - a "Marselhesa". Ela (a mulher) e o homem suplicante dividem a representação: na parte "superior" está uma região mais escura do que na outra porção do quadro.

03 julho 2008

STANISLAVSKI E A BUSCA POR AUTENTICIDADE

O ator e diretor teatral russo Constantin Stanislavski tornou-se referência no que diz respeito à interpretação ao criar um método que, desde que devidamente seguido, proporcionaria ao ator um desenvolvimento significativo na experiência de dar vida a outros espíritos humanos. O método consistia em compor o papel da personagem “de fora para dentro”, ou seja, primeiro no que se refere às características exteriores de um indivíduo (fisionomia, gestual, movimentos etc) e depois ao que habita em seu interior (a essência, a memória emocional, o próprio “eu sou”). Para tanto um ator, quando da ocasião da composição de sua personagem, deveria permitir-se improvisar certo período de tempo – ainda nos ensaios de um espetáculo – visando a estabelecer modos convincentes de andar, sentar, entre outras ações, que possam realmente condizer com suas personagens; em outras palavras, buscando a verossimilhança, sem a qual não há vida no palco – e sim apenas teatralidade, convencionalismo, interpretações estereotipadas. Stanislavski chegou ao método após, numa fase inicial, perfazer o caminho contrário, no qual vislumbrava na composição “de dentro para fora” a melhor maneira de conhecer (sentir) o que o papel exige. Tal pensamento, descrito na primeira parte de “A criação de um papel”, livro que encerra sua célebre trilogia para a formação do ator, foi abandonado posteriormente para dar lugar ao estabelecimento da partitura de representação em via inversa. Eis que Stanislavski, por volta de 1930, encontra no diálogo entre professor e aluno a forma para dar vazão aos ideais didáticos que há muito lhe perturbavam o espírito: em contato com diversas personagens fictícias, entre as quais uma em especial – o aluno Kóstia -, e por intermédio do professor Tortsov, o autor pôde lançar mão de artifícios muito esclarecedores como, por exemplo, perguntas e respostas em torno dos problemas inerentes à interpretação, questões essas que colocam em pauta a importância de uma verdadeira imersão física e psicológica por parte do ator, ao invés de só superficialmente “vestir” suas personagens. A já citada trilogia da interpretação, uma espécie de manual do ator, extremamente útil para encenadores de teatro e mesmo de cinema, é composta pelas obras: “A preparação do ator”, “A construção da personagem” e “A criação de um papel”. Esse último livro, dividido em três partes, apresenta as reflexões de Stanislavski sobre o exercício de atuação por intermédio do desenvolvimento de papéis pertencentes a três peças famosas: a comédia “A descrença de ter espírito”, de Griboyedov; a tragédia “Otelo”, de William Shakespeare e “O Inspetor Geral”, de Gogol. As orientações para o desenvolvimento das habilidades pertencentes à profissão de ator, que se fazem acompanhar quando da leitura das obras do diretor russo, deixam claro o nível de esmiuçamento do pensamento de Stanislavski: há descrições detalhadíssimas, repetitivas, mesmo enfadonhas em certos pontos; o que, por outro lado, não diminui o valor de seu trabalho: instrutivo, desbravador, sempre em busca da melhor maneira de obter uma presença de palco verdadeira. O que realmente importava, para Stanislavski, era parecer verdadeiro. Como dito, o ator deveria ser capaz de vestir física e psicologicamente a sua personagem, de fazer com que seu ser servisse de morada a outro, que outra vida existisse por seu intermédio. Para tanto, algumas estratégias foram por ele apontadas: em cada ação, em cada palavra que o texto do dramaturgo encerra, deveria haver um objetivo, ou melhor, segundo suas próprias palavras, deveriam nelas descobrir e/ou criar um superobjetivo. Ele deveria guiá-lo, conduzi-lo naturalmente à representação, através da ação direta, a efetiva realização dos atos anteriormente planejados na fase de composição da partitura para o papel. O realismo, ou “naturalismo espiritual”, foi o alvo que orientou a prática e a teoria de Stanislavski. A busca pela autenticidade, conseguida através da encarnação total de um papel - e não apenas através da simples caracterização exterior -, foi o que o moveu e instigou, o que o fez procurar maneiras de realizar algo há muito almejado: a recriação da vida através da arte. Sem preocupações com o clichê que decorre de tal concepção, afirmo que sua cabeça estava permeada pela máxima: “a vida imita a arte e a arte imita a vida”; que mesmo “a arte do palco deve ser repleta de vida”, e não um mero exercício que proporciona trabalho, sustento (embora seja bem difícil viver de arte; ao menos neste país) e afago no ego dos profissionais com ele envolvidos. Pelo contrário, é necessário ser autêntico, estar em cena “de corpo e alma”, com os sentidos a postos e inteiros, de posse da imaginação, podendo sempre contar com o esperado funcionamento da memória emotiva, consciente do presente, com o passado construído e com perspectivas de futuro. Enfim, o ator é o canal que dá vazão à plena manifestação de uma natureza fenomenal: criadora/recriadora de beleza e significação, em que certa porção do potencial do mundo fica engendrado nas teias de um autor, o dramaturgo; assim é que o ator, para Stanislavski, é um ser sensível, astuto, prudente, múltiplo e profundo. REFERÊNCIAS - COSTA, Iná Camargo. Stanislavski na cena americana. www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142002000300008. acesso em: 1.º/07/2008.- STANISLAVSKI, Constantin. A criação de um papel. – 8.ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.