Loading...

It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


26 junho 2008

O Nem Tão Incrível HULK

Não resisti à tentação; dei o braço a torcer e fui assistir o Hulk. Domingo, sala cheia - casaizinhos, malocas e crianças -, me acomodei numa das poltronas do cinema no shopping jardim das américas; há muito tempo ouvia: "felipe, pare de ser chato, o 'cinemão' também é cinema, vamos ver tal filme, esse outro e bla-bla-bla...". Enfim, pipoca jumbo, o balde de coca-cola na mão, a mão na mão da garota, aquela coisa toda, o filme começou... No começo aquela coisa de sempre: logomarca da Marvel Comics - o filão de adaptações de HQ's continua de vento em polpa -, as "origens" da bola da vez - o Hulk -, e na seqüência eis que Robert Bruce Banner está nada mais nada menos que na Favela da Rocinha. Nosso pobre cientista, encarnado por Edward Norton - continuo afirmando que ele é o ator "jovem" mais talentoso de Holywood; cara extremamente versátil (vide "Clube da Luta", "As Duas Faces de um Crime", "Tenha Fé", "A Outra História Americana" - genial -, "Frida" etc etc etc) -, trabalha numa fábrica de refrigerantes (?) que são exportados para o mercado americano; vive "tranqüilamente" enquando procura conter a fúria do monstro verde que habita seu interior. Já há algum tempo não há "acidentes", porém isso muda quando um pouco de seu sangue cai justamente dentro de uma das garrafas de refrigerante da empresa em que trabalha - coincidência? - , o líquido (refrigerante com sangue) é tomado por um senhor, nos eua, é localizada a origem, agentes do governo estadunidense são enviados atrás de banner e bla-bla-bla... Vamos ao que interessa: como as pessoas que lêem os meus textos (como se fossem muitas) e me conhecem já sabem, procuro escrever, mais do que críticas, aquilo que me chama a atenção, minhas impressões, à moda de Almir Feijó ("crítico" de cinema/cinéfilo); passemos a elas (as impressões): 1) a fotografia é espetacular (o 35mm continua a arrasar nos close-ups; reparem nas cenas de diálogo entre o coronel e qualquer outra personagem), mas há umas saídas de foco grosseiras em alguns pontos; 2) Edward Norton, como já dito, é um ótimo ator, mas Liv Tylor, de novo???? Quantos e quantos papéis trochas ela vai fazer? "Armaggedom", "Senhor dos Anéis", e agora a doutora Betty Ross???? Tudo bem, ela é bonita e tal e coisa e coisa e tal... pode contracenar bem com o Ben Affleck, mas é só.... Pra senhora Banner ela está muito aquém... 3) e o troféu Framboesa do filme vai para: o coronel (pai de Betty); que carinha ruim... Não convenceu: olhares, posses e falas ruins... 4) o que é aquele predador gigante e superdesenvolvido com qual o Hulk tem de lutar? Nada a ver... Godzilla grotesco e nada convincente. 5) gostei da fidedignidade: esperei o filme inteiro pelo "Hulk esmaga!" e pelos golpes clássicos, e eles vieram; no fim, mas vieram... bom, bom... 6) foi interessante ver a Rocinha filmada por lentes e película gringas de boa qualidade: ela é feia, a pobreza é feia; mas o dinheiro faz coisas incríveis... 7) pontos mais do que positivos para a apresentação do Hulk durante sua transformação, no início do filme: é feito um suspense muito competente, planos detalhes e tal, até a cara inteira dele tomar conta da telona... aplausos pro diretor: boa decupagem... 8) A CG do Hulk está perfeita - embora eu deteste qualquer tipo de efeito eletrônico nas imagens -. 9) o link com o Homem de Ferro é bem interessante: As indústrias Stark podem "dar um jeitnho no problema", segundo fala do próprio Tony Stark/Homem de Ferro (encarnado por Robert D. J. - magnífico ator alcóolatra)... e bla bla bla, acho que é isso. Tinha mais uma centena de coisas pra falar; mas esqueci, ou achei melhor esquecer; hoje já é quinta e a Alemanha tá na final da Eurocopa e isso é o que importa! Tschüss Leute!!!!!!!

Sertão sem Mistério

O filme "Grande Sertão: Veredas", baseado em obra literária do escritor mineiro Guimarães Rosa, foi adaptado em 1965, ainda na "era preto-e-branco" do cinema brasileiro. Traz em seu elenco grandes nomes da cinematografia nacional: Maurício do Valle, Milton Gonçalves e Sonia Clara. A direção é dos irmãos Geraldo e Renato dos Santos Pereira. Infelizmente, esses dois cineastas, estreantes em longas-metragens àquela ocasião, não conseguiram sintetizar de maneira satisfatória as 600 páginas do livro. A obra-prima de nossa literatura foi transformada num bang-bang no sertão; as personagens são inconsistentes; os enquadramentos de câmera primários; a montagem imprecisa. Além de tudo isso, um erro fatal, imperdoável: revela-se o "mistério" em torno de Diadorim e seu envolvimento com Riobaldo logo no primeiro terço do filme, o que transforma a narrativa num melodrama romântico completamente desnecessário. Filme fraco, impreciso e dispensável.

COTAS

A instituição do sistema de cotas, na UFPR, por exemplo, é um completo absurdo. Além de ter sido implantada de maneira ditatorial, ou seja, sem a devida discussão por parte de toda a comunidade acadêmica e sua deliberada aprovação, é ineficaz do ponto-de-vista da inclusão de minorias. Ineficaz porque apesar de colocar na universidade alunos negros e provenientes de escolas públicas não garante, entre outras coisas, um aproveitamento de curso razoável no decorrer da graduação. Essa "entrada pela porta de serviço da universidade" é, pelo contrário, mais um motivo de segregação de minorias que, por causa das cotas, são novamente vistas com maus olhos. É "tapar o sol com a peneira", afirmar: "Não garantiremos uma escola básica de qualidade - o que realmente deveríamos fazer -, o que possibilitaria acesso mais 'facilitado' de todos ao ensino superior, mas sim reservaremos algumas vaguinhas para nossos excluídos. O argumento "com as cotas, estamos corrigindo o problema histórico do preconceito contra os negros" é igualmente raso; uma solução imediatista e banal que extingue qualquer possibilidade de solução dos problemas educacionais brasileiros em curto e médio prazo.
Um bom crítico deve ser: antenado com os fenômenos do mundo e da vida; capaz de aproveitar em seu discurso características de áreas diferentes do conhecimento; capaz de dialogar com a tradição em sua área de atuação - literatura, cinema, política etc. O crítico precisa "encaminhar" o sujeito comum, leigo no assunto, visando o melhor aproveitamento do conteúdo apresentado; tarefa que se realiza quando são esclarecidos os pontos principais da obra. A atuação desse profissional se verifica quando alguns critérios são garantidos no decorrer da análise, tais como: uma interpretação da obra que dialogue com o contexto no qual ela se insere; um esmiuçamento cuidadoso de aspectos estruturais-semióticos da obra; a revelação de características da obra que passariam desapercebidas pelo "consumidor do produto".

25 junho 2008

O que é que leva uma sociedade inteira a endeusar astros e estrelas, personalidades do esporte e demais figurões do mundo atual? O desejo de ser igual a eles, quero dizer, o sonho acordado de viver vidas que não as suas. Envoltos por uma realidade que não as agrada, milhões de pessoas encantam-se com o glamour dos famosos e a eles atribuem as mais elevadas posições. Incrível como essas pessoas não se dão conta de que também podem ser extremamente realizadas com suas próprias existências, ao invés de transferirem suas felicidades à ícones da cultura que, na maioria das vezes e ao contrário do que se pensa, são mais infelizes que o resto da população.

ELES ESTÃO CHEGANDO: DEBATES POLÍTICOS NO BRASIL

No Brasil, debates políticos são muito úteis. Eles servem para fazer com que a população tenha plena consciência da sua falta de consciência [política]. Ao serem televisionados nos garantem um entretenimento incomparável: existe coisa melhor do que esparramar-se no sofá, pipoca no colo, controle remoto na mão, e deliciar-se com os ataques recíprocos de nossos candidatos à eleição? Os debates políticos servem também para gerar e garantir a manutenção de muitos postos de trabalho como, por exemplo, os de diversos repórteres e/ou apresentadores de tv que, inseridos num certo modelo midiático, têm em tais debates uma "novelinha" perene.
Há três boas razões para não beber antes de dirigir. O álcool, substância excitante e desinibidora, provoca alterações no estado normal do indivíduo, o que o leva a superestimar as próprias capacidades. Além disso, o álcool prejudica os reflexos da pessoa, tornando-a muito mais lenta do que o habitual. Outro bom motivo para não combinar bebida e direção é o fato de que, se pego em flagrante delito pelas autoridades competentes, o motorista alcoolizado será preso e terá o automóvel apreendido.
O modelo de educação formal no Brasil está completamente equivocado. O ensino fundamental, por exemplo, encadeia oito anos (agora nove, de acordo com a nova determinação governamental) de repetidas tentativas de introjeção de conhecimentos desinteressantes e inúteis para qualquer um. Informações desnecessárias que não visam a um desenvolvimento saudável do educando, e sim repetem fórmulas, estruturas e doutrinas visando à manutenção do poder social e historicamente estabelecido. No ensino médio a coisa se complica. Legiões de ovelhas começam a preparar-se para a conquista de um lugar ao sol nas pastagens superiores, o que lhes garantiria melhores oportunidades de ascender (ou continuar) no privilegiado posto de elite - cultural, social, econômica. Aqui o que interessa não é a preparaçao para uma vida adulta; mede-se a eficácia do ensino em termos de sucesso individual. O ensino superior é onde uma minoria desemboca em busca de formação profissional especializada. Graduandos demoram-se quatro ou cinco anos nos bancos de uma instituição ouvindo o discurso leviano e legitimado de professores que, em sua maioria, defendem os interesses burgueses de uma sociedade em ruínas. Engolem as considerações de seus mestres e doutores sem nada questionar. Formam-se. Iniciam suas práticas e a seu próprio modo recuperam a cadeia esmagadora de opiniões construídas à base de citações, quando na verdade deveriam pensar por si mesmos: procurando idéias, assumindo-as, sendo empreendedores.

Receita: Caipirinha

Ingredientes: 4 limões galegos 1 litro de vodka açúcar gelo Modo de preparo: Descascar os limões e cortá-los em 4 partes. Num copo grande, amassar os limões com um pouco de açúcar. Acrescentar a vodka. Mexer. Colocar gelo picado sobre a bebida. Adoçar a gosto.

Stalker, de Andrei Tarkovski

O filme Stalker (1979), do cineasta russo Andrei Tarkovski, é um delírio poético-visual pelos caminhos tortuosos da felicidade. Stalker, o personagem principal, é uma espécie de guia, um messias revelador que conduz pessoas pelas áreas proibidas e abandonadas de uma antiga região de batalha: a ZONA. A "viagem" mostrada no filme é realizada por Stalker e mais dois personagens: um professor e pesquisador de física e um escritor. Ao longo da trama são discutidas noções como verdade, realidade e arte. Pontos positivos para a direção: planos longos, movimentos de câmera sutis e closes nos momentos certos. Excelente!

Minha vida de leitor

Minha vida de leitor começou muito cedo: quando muito pequeno (aproximadamente aos cinco anos de idade) já tinha ao meu alcançe vários livros, que minha mãe me disponibilizava. Ainda lembro do primeiro que me chegou às mãos: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Obviamente, àquela ocasião, eu apenas "juntava" as palavras; precisei da ajuda de outras pessoas para compreender o texto. Mas esse foi o ponto de partida; desde então, me tornei um assíduo freqüentador de bibliotecas. Na adolescência, acreditei na máxima "Nada substitui a companhia de um bom e velho livro"; estive extremamente ocupado com autores nacionais e estrangeiros: Machado de Assis, Dostoiévski, Goethe, William Shakespeare, entre outros. Minha paixão pela literatura foi crescendo cada vez mais, o que culminou no meu desejo de cursar a faculdade de letras. Atualmente, eis que aqui estou: recém-formado e pensando em continuar as leituras, dentro da academia, em um nível mais avançado. Por outro lado, na vida prática, continuo um zero-a-esquerda: formado e sem rumo, desempregado. Acho que sou mesmo um desinFORMADO.

AUTO-RETRATO

Nos meus vinte e poucos anos fiz-me artista e é para isso que vivo. Porém, ainda não é disso que vivo. Sou o que sou porque não poderia ser outra coisa; todos os pré-requisitos "estavam" lá: a família desestruturada, o alcoolismo, a visão crítica do mundo, o alto poder de estabelecer associações de idéias, um olhar que procura e exige beleza em tudo que existe. Excêntrico, temperamental e semi-esquizofrênico, vivo num mundo de fantasia. Meus maiores defeitos são o ciúme, o egoísmo e a ansiedade. Pelos pontos positivos constam o otimismo, a coragem e a perseverança. Meus sentimentos e emoções acompanham as oscilações de uma balança: ora tímido, ora sociável. Essa inconstância faz de mim um doidivanas.

17 junho 2008

certa vez numa mesa de bar, entre conhaques e cervejas em plena luz do dia e calor exorbitante, o querido amigo e poeta Jorge Barbosa Filho, me deu de presente o seguinte poema: LUA NOVA Eu não queria ir embora embora te esperasse aqui e de tudo em volta. Esse em volta, traz em si meu silêncio mundo afora a fora a ânsia da demora a demora não adiantou insistir; Jorge se levantou, tomou o gole derradeiro e partiu cambaleando em meio aos carros da Doutor Faivre...

O PASSADO

Meu desejo de ir além Abre uma fenda no tempo Seguro o ar o dia inteiro Enquanto o outono se vai Se minha vida enfim se esvai Próximo o momento derradeiro Faço de mim gesto lisongeiro Na paz benvinda do grande Zen O amarelo me invade a retina Vislumbro a bela dor da partida Soterro em escombros ponteiros partidos Finco raízes nos antigos ladrilhos Tua cor, tua aura, tua nobre fineza Afunila-me o olhar doce estreiteza Fica em minh'alma o cheiro da vida A nostalgia se torna uma amiga querida

DIVERSONAGENS SUSPERSAS

Meu verso, temo, vem do berço. Não versejo porque eu quero, versejo quando converso e converso por conversar. Pra que sirvo senão pra isto, pra ser vinte e pra ser visto, pra ser versa e pra ser vice, pra ser a super-superfície, onde o verbo vem ser mais? Não sirvo pra observar. Verso, persevero e conservo um susto de quem se perde no exato lugar onde está. Onde estará meu verso? Em algum lugar de um lugar, onde o avesso do inverso começa a ver e ficar. Por mais prosas que eu perverta, Não permita Deus que eu perca meu jeito de versejar. in: LEMINSKI, Paulo. Distraídos Venceremos. São Paulo, Brasiliense, 1987.

MONTAGEM SOVIÉTICA

Na década de 1920, importantes transformações abalaram a vida cultural européia; inseridas no processo artístico-ideológico conhecido pelo nome de “modernismo”, várias vertentes/movimentos propuseram novas concepções para o pensamento e a prática do fazer artístico. Assim é que vertentes – ou escolas – surrealistas, dadaístas e construtivistas ganharam campo. O construtivismo foi o meio que artistas russos de esquerda, altamente politizados, escolheram para dar forma à ideologia da qual deliberadamente tomaram partido. Esse novo viés pelo qual se definiram, objetivava um controle substancial – se não, total – do processo artístico por parte de seu artífice; dizia “não!” à inspiração e ao talento inato do artista; centrava no trabalho medido, pesado, extremamente verificado, a responsabilidade por fazer o apreciador da obra se emocionar. Com isso em mente, pode-se afirmar que a Revolução Russa de Outubro de 1917 é o contexto no qual se insere toda uma geração de intelectuais atuantes na transformação política, social e econômica de uma nação, através da arte. O futurismo de Marinetti era o preceito básico com o qual os artistas trabalhavam, ou seja, a apologia da velocidade, do dinamismo, da urbanização, do progresso científico, constituía a base na qual toda uma revolução estética estava calcada. Nas artes plásticas, Malevich desenvolvia o cubo-futurismo, arte abstracionista (não-figurativa) que tinha por objetivo principal a libertação da pintura como meio essencialmente representativo da realidade; Tatlin fazia obras que ultrapassavam as tradicionais esculturas, eram já um misto de várias artes, próximas ao que hoje denominamos “objetos”. Na poesia, Maiakovski, o grande líder das vanguardas do período, visava plasmar uma nova forma poética que incitasse o povo russo a fazer frente no projeto revolucionário. No teatro, Meyerhold, grande diretor de teatro, desenvolvia em suas montagens novas maneiras de interpretar, algo que estivesse mais afinado ao distanciar da simples imitação da vida real. No cinema, Lev Kulechov foi o primeiro a enveredar pelos caminhos do construtivismo. É dele a famosa experiência dos planos justapostos, a base para os trabalhos da montagem de atrações de Sergei Eisenstein. Conta-se que Kulechov filmou e justapôs planos de um homem com planos de um prato de sopa, uma porta de prisão e uma “situação amorosa”. O efeito que isso teria suscitado nos espectadores foi o de, respectivamente, fome, medo e desejo. Ora, esse efeito, que ganhou o nome justamente de “efeito Kulechov”, provaria que o real sentido de um filme não está no conteúdo do plano, na mensagem estática de um quadro, mas sim nas relações estabelecidas entre os planos no decorrer da narrativa. Tanto isso é tido como verdadeiro, que se consideram as proposições a cerca da montagem como a sua maior contribuição ao cinema. Eisenstein é, no cinema, o maior nome da vanguarda russa dos anos 20. Ao contrário da tradição cinematográfica existente até então, o jovem cineasta estabeleceu uma montagem de choque, ao invés da montagem de continuidade. Nos filmes de Eisenstein o que importa não é a continuidade espaço-temporal, a transparência ou a fluidez ininterrupta dos planos, mas sim o encadeamento de planos de modo que faça surgir naqueles que assistem ao filme uma espécie de associação, que eles possam concluir com base na justaposição de dois planos um terceiro, ainda mais impactante; enfim, nas obras do autor, sempre um plano A + um plano B é = a um plano C. Desse modo, o enredo se dá dialeticamente: uma tese é apresentada (A), segue-a uma antítese (B), resultando numa síntese (C), algo que não é um dado material do filme, mas algo que “salta” da tela. Essa montagem de atrações é a base formal de seus três primeiros filmes – A Greve, Encouraçado Potemkin e Outubro –, verdadeiras obras primas do cinema russo, e do cinema mundial. Divergindo um pouco em relação a Eisenstein, outro importante cineasta desenvolveu seu trabalho no período: Dziga Vertov, o autor de “Um Homem com uma Câmera”. Criador do “Cine-Olho”, procurava captar o sentido de modernidade nas imagens cotidianas; assim, filmava “a esmo” imagens da agitação da vida urbana e, posteriormente, através de uma montagem cuidadosa, criava o sentido para aquilo tudo. Valia-se de inúmeros recursos da montagem, tais como fusões, transições e trucagens para atingir seus objetivos, e é certo que, assim como Eisenstein e os demais construtivistas, queria deixar evidente a artificialidade do filme, o seu caráter essencial de “fatura”, coisa construída. Foi justamente acusado pelo próprio Eisenstein de uma certa “estetização vazia” de seus filmes, de que eles eram muito estáticos, de que não permitiam ou não exigiam dos espectadores a reflexão cuidadosa daquilo que lhes chegava aos olhos. Contudo, Vertov preocupou-se demasiadamente com o sentido do que sua câmera atingia, e foi pela montagem e justaposição precisa dos planos que construiu obras completamente não-alienadas, que esperavam muita participação por parte de seu público, bem alinhado aos pressupostos construtivistas. Após o fim da revolução e com a instauração do governo de Stalin, os artistas russos perderam grande parte do direito à experimentação que tinham durante as lutas dos proletários e camponeses. A arte, principalmente o cinema, passou a ser supervisionada e subsidiada pelo Estado, o que fez com que muitos artistas e intelectuais deixassem o país. Maiakovski suicidou-se. Meyerhold foi fuzilado. Apenas Eisenstein, após curto período de “viagens de estudo”, retornou à Rússia e prosseguiu a carreira, ainda com um certo brilho. Eis que chegava ao fim o período genial da vanguarda russa dos anos 20.

EXPRESSIONISMO ALEMÃO

O Expressionismo Alemão foi um movimento cinematográfico do início do século XX, completamente voltado à expressão interior dos sentimentos do artista no momento da realização de sua obra. Esse pressuposto básico dialogou com uma certa tradição cultural e artística alemã proveniente tanto do gótico medieval quanto do Romantismo da geração Sturm und Drang, que teve em Goethe e Schiller seus representantes mais significativos; remetia também ao Simbolismo Francês e à Vanguarda pictórica que levava o mesmo nome (o expressionismo dos pintores Vincent Van Gogh e Edvard Munch, por exemplo). Munch, aliás, pintou o célebre quadro “O Grito”, imagem emblemática do expressionismo. Com o início da primeira grande guerra, a Alemanha, que até então havia encontrado dificuldades para estabelecer uma indústria de cinema consistente, ao ver-se isolada do circuito internacional, pode desenvolver sua produção de maneira a refletir hiperbolicamente seus medos e suas angústias, exorcizando e até “prevendo”, segundo leitura posterior do crítico Siegfried Kracauer, a ascensão de Hitler e os absurdos da segunda guerra. O expressionismo tentou focalizar o lado obscuro da alma humana em filmes como O Estudante de Praga, de Stellan Rye (1913), O Golem, de Paul Weneger (1920), Rua sem Alegria, de Pabst (1925), O Castelo Vögelod, (1921), A Última Gargalhada, (1924) e Fausto, (1927), estes últimos de Murnau. Os atores mais requisitados nesses trabalhos foram: Emil Jannings, Conrad Veidt, Werner Krauss, entre outros. A nova escola, de certo modo, retomou as propostas ideológicas e estéticas pelas quais se vinha construindo antes da guerra; assim é que, em 1919-20, vem à tona “O Gabinete do Doutor Caligari”, de Robert Wiene, filme inaugural do movimento. Muito afeito a uma completa revolução da cenografia cinematográfica, pode-se afirmar que pela primeira vez na história do cinema alemão os intelectuais, crítica e público interessaram-se verdadeiramente pelo “produto” cinematográfico enquanto obra de arte, produto cultural, pois foram “tomados” pelas distorções plásticas contidas na obra. A temática foi mais um dos elementos inovadores: a história traz um médico louco – Caligari – que manipula o jovem Cesare através da hipnose. Após a chegada dos dois a uma pequena cidade, começam a desaparecer algumas pessoas que pouco mais tarde são encontradas sem vida. A namorada de um dos personagens é seqüestrada, o que o impulsiona a investigar o caso. No final, esse rapaz é dado por louco pelo doutor, que na verdade é o verdadeiro louco e o responsável pelos crimes. Desse modo, esse e outros filmes expressionistas filiam-se ao realismo fantástico, de acordo com histórias de escritores como Edgar Allan Poe e Franz Kafka. Repetidas vezes, aparecem monstros e criaturas irreais, como em Nosferatu, de Murnau. O terceiro fator fundamental que se pode apreender nos filmes expressionistas é a particularidade de suas estruturas narrativas: muitas vezes elas eram feitas de forma oblíqua, o que não permite precisar, por parte do espectador, suas reais intenções ou estabelecer uma moral da história; além disso, não se permitia que os letreiros dos filmes aparecessem desordenadamente, de qualquer modo; ao contrário, eram milimetricamente calculados, visando efeitos estéticos específicos. Com base nesses dados, pode-se concluir que o Expressionismo Alemão foi a expressão de experiências interiores. Tudo o que consta daqueles filmes, lá está posto não em prol de uma narratividade objetiva, que possui na história e no modo de contá-la seu conceito mais importante; o que interessa no expressionismo é exatamente o “retrato” da subjetividade, o subtexto que paira atrás da superficialidade das situações, a essência escondida pela qual as coisas vêm a se manifestar exteriormente. Com seus cenários labirínticos e tortuosos, enredos fantásticos de monstros e assombrações, personagens exageradamente maquiados, grandes contrastes entre claros e escuros, procurava penetrar no mundo das sombras. Foi uma dramaturgia da hipérbole na qual o irreal se tornou realidade. Uma arte abstrata que não visava representar a realidade do homem - seja ela política, econômica ou social -, mas que, por outro lado, procurava exprimir o lado oculto da alma humana.

PRIMEIRO CINEMA

Flávia Cesarino Costa, pesquisadora da área do chamado Primeiro Cinema, constrói uma interessante historiografia do período acima citado. A autora considera relevante para atingir os objetivos a que almeja, ou seja, desmistificar o caráter “menor” atribuído aos primeiros filmes, proceder a uma nova conceituação desse cinema. Para tanto, vale-se do termo inglês early cinema para designá-lo, escolha essa que acaba por retirar o sentido de evolução de um cinema “primitivo” para um cinema “clássico”. Flávia começa por apresentar o contexto no qual a atividade cinematográfica teria tido origem: as exposições universais (particularmente a de Paris, em 1900), os vaudeviles, as feiras, os museus de cera etc. Ela salienta que o cinema, quando surgiu, foi visto apenas como mais uma novidade para a diversão, como entretenimento, e não como uma arte ou algo assim. Uma séria de máquinas para captar imagens haviam sido inventadas e construídas naqueles tempos de final de século XIX: Thomas Edison havia construído o quinetoscópio e o quinetógrafo, havia também o mutoscópio e as lanternas mágicas. A briga corria feia entre Edison e os Irmãos Lumière, que forneciam com exclusividade seus cinematógrafos, suprimentos de filmes e operadores das máquinas (homens que além de instalarem, exibirem e muitas vezes comentarem os filmes para o público, também serviam de cinegrafistas para multiplicar o catálogo de suas atrações). O principal cliente dos Lumière eram vaudeviles, lugares que exibiam variados números e que detiveram a hegemonia do divertimento barato entre os anos de 1895 e 1900. Além dos Vaudeviles, exibidores itinerantes (showmen) levavam as imagens das “atualidades” para lugares afastados dos grandes centros urbanos. É preciso salientar a diferença substancial existente entre o Primeiro Cinema e o Cinema Clássico: enquanto este buscava uma consistência mimética (imitação da realidade), aquele tinha como marca principal uma grande quantidade de sincretismo (o caráter artificial dos filmes coexistia com uma pequena intenção de realismo); com o passar do tempo e desenvolvimento da prática cinematográfica, com a sua aproximação cada vez mais rápida em produtos economicamente rentáveis, foi ocorrendo uma convivência dialética entre espetáculo e narrativa. Outro fato curioso é o de que parecia haver um caráter tal de efemeridade naqueles primeiros filmes, um quê de espanto, comicidade e absurdo, que, vistos pelos olhos de agora, com os filtros de nossa cultura, talvez não nos damos conta daquilo que as pessoas pensavam e sentiam quando da interação com eles. Por exemplo: aquelas obras deixam-nos com muito mais noção da irrepetibilidade de uma situação do que fazem as obras a elas posteriores. O “assassinato do momento” , como chama a autora, é mais aparente nelas; o estranhamento parece ser maior. Uma das características mais marcantes dos filmes do Primeiro Cinema foi a não-possibilidade de apresentarem enredos completamente inéditos, devido ao fato da linguagem cinematográfica ser ainda pouco desenvolvida; e, quando o faziam, era de três maneiras: o assunto do filme já era bem conhecido do público; havia uma apresentação preliminar do filme, realizada por um conferencista ou pelo exibidor; eram narrativas extremamente simples, como piadas ou alguns dos filmes de Georges Méliès. Como o cinema era novidade e também a única mídia capaz de transmitir a sensação de velocidade, foi natural o interesse das pessoas pelas imagens de trens e automóveis em movimento, o que, de certo modo, justifica os filmes de perseguição, verdadeiros exemplos do cinema de atração realizado na época. Entre 1906 e 1915, foram os Nickelodeons (armazéns ou depósitos que do dia para a noite transformaram-se em cinemas improvisados) que apresentavam, e então como atração exclusiva devido a seu sucesso, os filmes. Os empresários, visando atrair a classe média, promoveram verdadeira “reforma” nestes locais, antes destinados ao proletariado. Foi preciso algum tempo para que se passasse da completa “aculturação” das massas para um estado no qual todos partilhassem de uma linguagem comum, em outras palavras, foi preciso treinar as percepções visuais do público freqüentador desses lugares. Os Nickelodeons, que eram a diversão mais barata do momento (custavam 5 centavos de dólar – um níquel), deram início a uma massificação ou a uma ”civilização” dos gostos no que se refere a temáticas e estética, sempre em consonância com as aspirações burguesas dominantes. Entre 1913 e 1915 surgiram os longas-metragens, um passo a mais na consolidação de uma indústria do cinema, que naquele momento dividia suas atuações em setores: uma produção, uma exibição e uma distribuição que não mais vendia os filmes, e sim os alugava. É precisamente nesse contexto que, em 1914, ocorre a completa narrativização: os filmes como formas perfeitamente inteligíveis sem a necessidade de explicação externa. Abandona-se o esquema dos filmes de perseguição em prol da montagem paralela, que permitia mostrar acontecimentos simultâneos. David Wark Griffith, marco no estudo da história do cinema, fez a proeza de integrar o cinema à cultura dominante. Por volta de 1908,1909, começou a sistematizar uma “gramática” da linguagem cinematográfica, que consistia em novas maneiras de fazer filmes. Moldava-se uma estética mais refinada para atrair as classes “mais respeitáveis”. Foi desse modo que, ainda seguindo as palavras de Flávia Costa, o cinema “domesticou-se”, passou do simples espetáculo dos primeiros anos à narração, ao veículo de contação de histórias, moral e ideologicamente voltadas a perpetuação da classe média. - COSTA, Flávia Cesarino. ”O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação”. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.

KOYAANISQATSI

Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio e fotografado por Ron Fricke, é uma obra completamente avessa ao clássico cinema hollywoodiano; ao invés de uma obra narrativa - que visa esconder os meios pela qual é construída, tendendo ao invisível -, apresenta-se como uma sucessão ininterrupta de imagens que procuram, como o nome do filme (palavra da tribo Hopi) atesta, fazer pensar a respeito de “uma vida fora de equilíbrio”. Apresenta-se e desenvolve-se exclusivamente por meio de imagens, ou seja, a contemplação, o encadeamento de “situações” é o que veicula a mensagem pretendida. Sem diálogos – a moda dos filmes do chamado Primeiro Cinema – baseia-se integralmente na visualidade. Dado, como dito, à contemplação, o filme é um deslumbre visual; de maneira semelhante aos videoclipes da então incipiente estética mtv (àquela época começando suas atividades nos EUA), é incrível a capacidade de comunicação desse filme não-tradicional. Máquinas, equipamentos e aparelhos transitam diante de nossos olhos no que, inicialmente, parece ser uma apologia da modernidade, da tecnologia, assim como no clássico russo “Um Homem com uma Câmera”. Contudo, o espectador atento não se engana: tudo o que nos é apresentado em Koyaanisqatsi visa à reflexão de seu público; é conduzido magistralmente de modo a suscitar debates em torno de nosso mundo extremamente tecnológico e, por isso mesmo, completamente escravo de suas facilidades. O mote da obra é a discussão da vida urbana em suas mais diversas acepções. No tempo do filme (de 1976 a 1983 – a última data seu ano de lançamento) e atualmente a grande maioria da população mundial vivia/vive entrincheirada nas grandes cidades, levando ou buscando a estabilidade financeira, o conforto por ela propiciado, o esgotamento de suas forças em prol de uma pseudo-felicidade. A tecnologia nos permite (no trabalho, no estudo, no lazer etc) um aceleramento de nossas respostas corretas, ou mesmo quando erramos, uma retomada mais rápida em sua direção, o que se traduz acertadamente na palavra “produtividade”. A vida é corrida, o ritmo frenético. O controle remoto, por exemplo, tornou-se para nós um catalisador indispensável. Parece que ninguém mais tem tempo para nada; então por que alguém pode se dar ao luxo de levantar e apertar o botão pra trocar de canal? Na obra, há uma espécie de “treinamento do olhar”, quero dizer, nos é apresentada uma realidade imagética que invariavelmente permeia o nosso cotidiano, mas que nós nem sempre nos damos conta, que nem sempre é devidamente apreendida por nós; as imagens que permeiam nosso mundo e a nós são comuns, são também construídas por nós. O aparecimento de marcas tradicionais (Coca-cola, por exemplo), no filme, não é por acaso, porém insere-se no debate da construção cultural da realidade, na qual muito do que existe e nos facilita a vida é pensado pelo homem, e plasmado em laboratórios. O filme possui, além da já citada contemplação das belas imagens de tecnologia, uma trilha sonora magnífica. As músicas, compostas por Philip Glass, foram pensadas em associação com as imagens, o sonoro completa o visual. O dinamismo musical dá o tempo do corte, o que proporciona um ritmo vibrante ao filme. Uma trilha recorrente procura marcar bem a mecanicidade e estagnação provenientes do progresso industrial, na verdade nocivo à evolução humana.

16 junho 2008

A Construção de um Sertão e suas Veredas

“Sertão, o senhor sabe, é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado”. Eis o que, entre milhares de outros aspectos, salta aos olhos à primeira leitura de Grande Sertão: Veredas, romance do escritor mineiro Guimarães Rosa. Na obra, um grande sertão é construído: sertão de jagunços, a cavalo, fortemente armados, sempre em busca de pouso após entrar em combate numa pugna sangrenta; sertão de inúmeros buritizais. Os jagunços do sertão, alguns dos homens mais terríveis, sertanejos, vêm e vão pelas imensidões do sertão, arrastando esporas, trazendo armas, buscando rumos novos em seus destinos. Gente que se conhece tão bem e por quem tanta estima se tem: o Caruncho: só de se olhar para ele se vê o vulto da guerra; Jerebives: sempre com histórias de demônios. Homem temente e bravo; Titão Passos: segundo em chefe. O negro nobre. Pai e mãe dele tinham sido escravos; Ricardão: bom no tiro e na montada. Sombra fiel do outro; Hermógenes: flagelo com frieza. Homem sem anjo da guarda; Alaribe: com seu jeito ligeiro, capaz de abrir num dia quinze léguas e cavalos guiar; Joaquim Beiju: quase menino. Dizia que nunca tinha conhecido mãe nem pai, nem dos outros; Sô Candelário: o amigo mais velho de Joca Ramiro. Compreendor de tudo e senhor de muito respeito; e é claro, Reinaldo: que também era Diadorim. Sabendo deste é que se sabe a vida de Riobaldo, o protagonista. A guerra ia a seis léguas do Guaituí; por lá o coronel Alarico Totonho vinha fazendo os piores desmandos, as maiores crueldades. Boa terra no lado direito do Rio das Velhas. Terras de rapaz que o coronel invadiu e arrasou com tudo. “Aquele homem, o Alarico, está querendo ser dono do sertão inteiro”. Mas Joca Ramiro restituiu as terras ao rapaz, e deixou por lá um punhado de homens bens armados pra dar proteção. Agora era ficar preparado pra guerra que ia estourar enorme por ali afora. Foi assim que Riobaldo conheceu o jagunçado. No outro dia aquele bando partiu e, nas semanas seguintes, dizendo que Joca Ramiro era um chefe forçado e que muitos não nascem assim. Dono de glórias. Mas Riobaldo não pensava em Joca Ramiro; pensava em todos, mas primeiro naquele moço que o perturbava. Aquela madrugada dobrada inteira; depois dos trens ajuntados saiu de lá e, montado em seu cavalo, abriu aquele sertão. Mediu o mundo. Arremessou a cavalo, galopou demais e ganhou o sertão. Razão porquê fez? Sabe ou não sabe. Se viu em seu Gerais, furou o sertão... Sertão é isso: o senhor empurra pra trás, mas ele de repente volta a rodear o senhor pelos lados. Sertão, desses teus vazios, daí em longe os brejos vão virando rios. Buritizais vêm com eles. Buritis em séries, séries. Sertão que o rio do Chico, o São Francisco, o rio chefe, atravessa. Esses Gerais enormes, não se têm onde acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isso é assim desde o raiar da aurora. O senhor tonteia, tem medo de tudo. Dos tamanhos. A alma dele. Sertão é o sozinho dentro da gente. É onde o pensamento se forma mais forte que o poder do lugar. E ele é muito perigoso. O sertão: onde tanto boi berra, berra. Sertão velho de idades, da ternura. Sertão que vem e que volta. Do sol e das noites. Dos pássaros, dos bichos. Dos ventos que voam as imensidões por sobre a terra. O sertão e suas ciladas, suas sombras, seus sustos. E buritizais... Como afirma Riobaldo: “Sou homem pobre, o senhor sabe, mas tive escola. Mestre Lucas me ensinou as boas letras. Assim deixei a fazenda de meu padrinho, por guiar a vida de minha própria cabeça, então alguém me informou no caminho ‘alguém está encomendando um professor, boa paga’ e avancei, o sertão se abrindo por debaixo entre as pernas de meu cavalo, até que um dia esbarrei num sitiozinho cujo dono eu conhecia. Buritizal, ó... os buritizais, e um encontro com Zé Bebelo”. Zé Bebelo, de seu lado: “No sertão, nunca se sente de costas pra uma porta. É perigoso, fique sempre de outra banda. No sertão reunem-se homens, em comando de guerra, pra sair por aí às vezes para acabar com jagunço, até o último, limpar o sertão dessa jagunçada brava. Essa gente de Joca Ramiro é daninha, uma vergonha pra civilização do Estado. Depois de liquidar esses vils, entro direito na política. Deputado do sertão. Segredo e coragem, segredo. No sertão tomam-se terras dos outros. Com os jagunços é só no pau-picado”. O espaço é o sertão; junto dele a sina e desejo do jagunço: andar vivendo a própria sorte, com lutas e guerras. A vida é outra da gente do sertão: nada de políticas, tudo de políticas. Ainda há muito fazendeiro graúdo com agregados valentes, turma de cabras no trabuco e na carabina escopetada. Uma carabina, um trabuco, é presente para um homem de coragem. No sertão, amigo se prova na incerteza. A carabina atira certeiro, mas atrai chumbo também. Eis que Riobaldo briga com Zé Bebelo e se junta ao bando de Joca Ramiro; a guerra entre Joca Ramiro e Zé Bebelo se desenrola no sertão monstruoso. O sertão é grande demais, há lugar pra viver mais um bando nele. Há muita fazenda nele, muitas armas e uma jagunçada leal. “A gente fica rica, cheia de poderes, cheia de poderes”. Porém, apenas um bando sai vitorioso, a fim de ocupar o vazio tremendo da extensão sertaneja. Sertão mítico de redemoinho, no qual o capeta anda solto pelas bandas, tendo corpo de homem ele aparece. Aqui o pacto – ou “paucto” - com o diabo, à meia-noite, numa encruzilhada, é algo “comum”. Diz-se que o Judas é “positivo pactário”. No sertão, quando venta é que vai aparecer o coisa-ruim, o satanás, demônio. Venta e venta muito no Sucuruiú. Riobaldo, que é terrível como Urutu branco, revira os sertões. Ao rodar por ali, com os jagunços, trazendo glória e justiça em território dos Gerais, ao catar os Judas, nem que o sertão se vire pelo avesso. O sertão, da obra Grande sertão: veredas, é notadamente o sertão de Minas Gerais limites com o estado de Goiás. O sertão tomado por jagunços, cangaceiros, homens de muita valia. Vida de perigos, de ameaças: é o que existe no sertão. O destino no sertão está sempre traçado, e é o destino da vingança. No galope, cada um engole as suas palavras, mão de homem e as suas armas, jagunços “investem” no perder do sertão. Nos mares de calor, passam feito flecha, feito faca, feito fogo, indo caçar Judas assassino. No sertão, em tudo há perigo: viver entre jagunços, vingança, ódio são más companhias. Às vezes, no sertão, não dá vento nenhum, só calor e caminha-se sempre nas distâncias. Gente vai e vem sobre o rastro dos outros. Por matar, para acabar com a raça deles, por perseguir nos caminhos dos Chapadões. Os Judas correm longe. Sempre e sempre. Sertão só. Sertão é grande, não tem fim. Cabe num grito, num fôlego até... Aí se esbarra em outra paragem: sempre um lugar perdido nas planuras. Vai-se com cuidado, rezando boa ladainha. No sertão é calor, poeira e tristeza. No sertão a vida é perigosa: morrem-se companheiros, matam-se os traidores, os vivos têm de viver por si só. No sertão desespera-se pelos lestes e oestes, em guerras e andanças. Às vezes perto dos buritis de palmas abertas, longe da guerra, longe dos mil perigos. O sertão chama pra guerrear, é a sina. Contudo, em meio ao árido sertão, há a paz dos buritis. Lá no fundo do sertão, esses Gerais das lonjuras. - ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas.

15 junho 2008

CARTA DO DESESPERO N.º 3

Por que você falou que eu vivo uma fantasia? Isso doeu mais que a carteira vazia roubada pelos bandidos. Não sou mais nenhum menino pra me açoitar com desatinos. Tua birra me deixa muito descontente. Se não tenho nem documentos, não é de estranhar que me arranjo com bem menos do que tenho. Eu nunca quis o seu dinheiro, sua idiota. Embora muito tenha apreciado o seu dom hospitaleiro. Mas devo partir. Se aqui ficar partirei a sua cara. De risos fáceis. Simpatia dúbia. Olhar manipulador. Já não dava mais: os problemas falhas na comunicação tornaram-se insolúveis como um café solúvel. Eis o seu maior problema: você é muito volúvel. Irrita-se com os cadarços desamarrados. Aquele dia em que me tacou o telefone sem fio resume todo o drama. O símbolo de nossa falta de diálogo. Sorte sua não ter me acertado e ele não ter fio. Ficaria tentado a enforcá-la no aparelho. E em seguida, discaria pro CVV.

CARTA DO DESESPERO N.º 2

Não consigo entender por que você não aceita minhas opiniões. Com uma boa recorência tenho provado que estou certo em minhas idéias - ao menos na grande maioria. Uso de mil argumentos, reflito e faço com que você acompanhe explanações detalhadas; concluimos juntos que o caminho que proponho é o correto, mas mesmo assim você insiste em rejeitar o que digo. O que é isso: birra, ignorância, a muito alardeada vingança feminina sobre a escórria do machario? Ou serão apenas reflexos indisfarçáveis de um gênio indomável? Admito que adoro gênios, especialmente aquele do Alladin. Einstein. Goethe. Da Vince. Contudo, essas manifestações pulsantes de irritabilidade, imediatismo e indecisão definitivamente não me atiçam o interesse. Do lado de cá, nós, os artistas: criaturas extremamente sensíveis, porém ariscas. Bichinhos que "metem-o-rabo-entre-as-pernas" quando devem fazê-lo. No entanto, feras raivosas que não exitam diante da defesa dos pontos-de-vista que julgam verdadeiros. É possível superá-los, sem dúvida. Possuem a humildade necessária pra debaterem (uma hora, uma semana, uma vida inteira) qualquer questão e de jogarem a toalha quando "dominados". Apenas exigem que isso seja feito pela coragem, astúcia e, é claro, inteligência. Do contrário, exigem RESPEITO. OUVIDOS ABERTOS. QUE CUMPRAM OS SEUS DESEJOS - plenamente justificáveis. Se não puderem com isso, então é que não os amam. Ou até amam, mas os afastam um pouco mais a cada momento. Continuam falando, falando, falando, falando, falando, falando, falando e falando, tomando suas qualidades por defeitos (a megalomania, o extremismo, a acidez dos pensamentos). Mas o porquê?, ah, o porquê? Não lhes dizem! Passam zíperes super bonders nas bocas. Recusam-se. Afirmam que é paranóia. Pois que assim seja. Que se danem os seus infelizes artistas. E vocês que calem a boca.

14 junho 2008

HOJE DIA CHEIO

hoje a vida vai tumultuada, várias coisas pra fazer; dia de Vanessas e aniversários ilustres: 1) Show da Vanessa da Mata, logo mais às 18:30h (acho) no Guairão. Estarei lá, quem vai? Abaixo segue a lindíssima canção "Zé", do álbum "Essa Boneca tem Manual". você dita o meu coração o que ele não quer aprender, Zé você quer que o meu coração siga a tua receita só não quero que aceite o jeito que eu te dou de mulher não e aproveite o resto o tempo dá jeito mesmo que tenha a minha oração o que você dispensa, Zé você faz com que o meu coração siga a tua beleza só vá lembrar a tardinha quando nos conhecemos, Zé havia uma beleza ali ou era criatividade minha? vá lembrar a tardinha quando nos conhecemos, Zé havia uma beleza ali ou era criatividade minha? quando andava pela rua cor de sol amarelo ouro me fitava e eu me avermelhando o som de jardim de sonho Zé, era seis da tarde dia e escuridão tinha tons e no alarme roubando o meu coração hortelã, alecrim e jasmim Ave Maria cantando ela tão satisfeita por mim e eu num galho de sol que nem passarinho, que nem passarinho desvanecida de amor cor de carmim 2) às 21hs no Teatro Fernando Montenegro, a peça "Analice em busca do homem perfeito" (é isso?)... No elenco, Vanessa Pampolini - (desculpe, mas como disse, não poderei ir hj).... hj, última apresentação antes do"tour" nacional da companhia... quem puder ir, não perca... mais informações no blog da Vanessa, link ao lado nos "parceiros piromaníacos".... 3) 14 de jun - aniversário da velha... Dona Elisa Regina, minha mãe, com mais um ano de vida... ou um há menos, depende do ponto de vista.... parabéns mãe... festa logo mais, às 21hs + ou -, no bar botafogo, com roda de samba... av. manoel ribas, perto da igreja... apareçam!!!!!! 4) Dalton Trevisan é o outro aniversariante do dia.... 83 aninhos de vida.... e muitos de obra.... abaixo, posto texto meu, mais um sob influência do mestre.... DALTÔNICO Curitiba. Sul do Brasil. O frio aqui é pressuposto. Intrínseco, ele vem com o corpo. Emoldura espaços, permeia as relações. Não é como me disse um dia. Não seguimos a arte aristotélica: “todos os homens são filhos de Deus. Nós, curitibanos, somos homens, portanto filhos de Deus”. Não, não... não me fale nestes termos. Aqui não! Ultimamente eu ando meio down, eu ando meio Dalton. Vejo muitas coisas, mas não consigo discerní-las. Defendo grandes teses sobre as coisas mais fugazes. Meu daltonismo dura vinte e poucos anos e dele não abro mão. Nem por você, nem por ninguém. Nenhum dos meus sonhos. Mas tudo bem, confesso enfim o que realmente quer ouvir... Hoje saí a sua procura (era isso o que tanto queria ouvir?). Segui seu rastro, seu cheiro, seu brilho por toda a cidade. Nada. Não te vi. Vi apenas calçadas irregulares, caminhos de petit-pavé. Desenhos. Luares. Peguei a Rua Quinze e me perdi na multidão. Pessoas poucas, muitos fantasmas absortos na escuridão. Entrei em bares, cafés e sebos, me empurraram “O Vampiro de Curitiba” (e eu novamente o comprei). Li meia página e o abandonei... Continuei a não ter o que procurava: seus seios na minha mão. Quebrei esquinas, passagens. Trombei trabalhadores com latas, procurei até dentro de garrafas, mas lá também não estava. Ao fim da noite dei-me conta, em lugar algum estaria. A não ser em minha alma, o calabouço de agonia. Finalmente a contra gosto, peguei o rumo de casa. Descobri da pior forma que nunca mais eu te veria. Acho que fadado estou, até o fim de meus dias, a vagar sozinho, pobre e doente pelas ruas de alguma cidade fria. Mas talvez nada disso importe; faço agora parte do mundo das damas, dos cafetões e das messalinas. Com meu olhar distorcido apego-me apenas àquelas antigas chagas, ruptura, feridas. Levei a auto-análise à exaustão, sendo liberto de meu transe apenas pelo assalto: levaram-me a carteira; nela sua foto, na qual fumava aquele Carlton. Desse modo é que afirmo: essa aqui a minha Curitiba; não mais a de Dalton. por hj é só...té...

13 junho 2008

S IMPLES M E N T E P A L CO ES PA ÇO DE U M A M E N T E S IMPLES
POEMA CONCRETO É A BARRIGA DO POBRE DOENDO DE FOME

ESPERANÇA

Caro eleitor, Vote 69 A esperança pra uma nova nação. Coligação cnbb, oab, tse, ldb, pcc, abl, fdp.
Um vão de qualquer parte de uma cozinha de qualquer lugar do mundo faz pensar menos que o saldo final na conta bancária. Viver traz prioridades. O aluguel. A comida. O sexo no motel. Urgências tão irremediáveis que só louco pra não ver. As sextas-feiras são feitas por quem não tem absolutamente o que fazer. Dia ingrato. Dedicamos metade da existência a satisfazer os seus caprichos. Desígnios. Fortes evidências de que o mundo está perdido. Simples rascunhos transformam-se em grandes livros. Chacais. Bússolas do destino. Castiçais de prata que imperam sobre o áureo mar.

CARTA DO DESESPERO

Há um bom tempo você me faz ranger os dentes. Não agüento mais tuas cobranças, a falta de tato nos assuntos corriqueiros, o modo como me trata feito um prisioneiro, os decibels a mais na tua fala. Jamais deixei alguém mandar em minha vida. E acredite: você não será a primeira! Tua eterna carência, a atenção extremada que de mim exige, os oceanos que derrama diariamente fazem meu estômago doente revirar cada vez mais. Não, não sou nenhum cretino insensível ou inescrupuloso, apenas sinto a coleira apertar cada vez mais em meu pescoço. Ela sufoca, tortura, tira o foco daquilo que realmente interessa. A paz. O trabalho. Mesmo o amor. Por que é tão difícil compreender que o caminho para o coração é o das idéias? A arte. A beleza. Alguns são conhecidos pela diplomacia, o modo como resolvem conflitos, por serem os reis da vida social. Outros simplesmente fogem ao menor sinal de pressão. E não o fazem por serem fracos; simplesmente entendem que o conflito não será solucionado de forma satisfatória, pois o ser humano é paradoxal, complicado, equivocado por natureza. Ninguém gosta de ter os pés e as mãos atados. É forte o homem que, embaixo de 18 anos de inseguranças, se vê soterrado? Ser constantemente coibido naquilo que te toca, a tua paixão, aquela coisa que faz o teu coração bater mais forte é injusto, cruel, errado. Se é certo o que dizem, que os sonhos não envelhecem, não será a pedra o primeiro empecilho a ser removido do sapato? A idéia é reta, o raciocínio claro: nada pode opor-se à vontade do homem que está justamente onde deveria estar, no seu habitat natural, no local onde se sente seguro no mundo. Feliz, enfim. Não é possível reduzir um homem de bem – um homem de verdade – a nada. Se ele sabe quem é, de onde vem e para onde vai, só existe uma coisa em sua cabeça: o sucesso, em todos os aspectos. O resto é nada!

LENINE E EU

Hoje saí para ver o sol. Voltei à minha infância e, novamente criança, não tinha a mínima sensação de segurança. Muitas pessoas passaram por mim, ninguém que eu conhecesse de verdade. Mas pouco importa. Todos querem me fazer mal. Não há nada pior do que ser sozinho. Sozinho e doente. É triste constatar que a família não me diz muita coisa. Todos eles – assim como eu e todos sobre a terra; ainda está por nascer o super-homem de Nietzsche – são uns fracos. Mesmo a mãe, aquela que quer o melhor para suas crias, também é falha, ela não tem todas as respostas. Não sei o que fazer da minha vida. Tudo o que digo, escrevo, faço me parece equivocado. Por mais que eu queira, parece estar sempre faltando algo no meu desempenho, por exemplo. Intitulo-me artista, intelectual, filho de alguém, namorado de alguém, boêmio convicto, amante da beleza e com isso me entristeço. Considero-me uma fraude. Em tudo um mentiroso. Luto com palavras, embora tenha sido avisado para que não o fizesse. Crio mundos fictícios, imaginários com dados tão reais, coisas que a mim ou aos meus chegados acontecem. E continuo triste. Solitário. O que há de tão espetacular na vida de um ser humano? Seriam as suas inevitáveis idiossincrasias, a infinidade de seus pontos-de-vista? Como sempre, não sei. Conheço pessoas com pensamentos tão rasos, quero dizer, vidas que poderiam ser plenas, mas são apenas medíocres, pequenas. Senhoras, senhores, me recuso a ser pequeno. Já há tantos consumidores satisfeitos empurrando seus carrinhos cheios no supermercado – que não é lugar para ser feliz! – que eu não farei a menor diferença no comércio. Do mesmo modo, o músico de boteco não faz cócegas na indústria fonográfica. Mas, existe coisa mais bonita do que a vida de um músico de barzinho? Toda noite ele chega com o violão debaixo do braço, senta no banquinho, afina as cordas e solta a voz... e emociona a platéia. Transforma todo o barulho, o ruído do mundo, em harmonia. Melodia. Canção. Faz com que a imensa confusão transforme-se em paz. Enfim, ao caos primordial a ordem subjaz. Certa vez ouvi Lenine dizer que só era músico, porque fazer cinema é muito caro. Devo dizer que só faço cinema, porque não tenho o talento de Lenine!
11 de setembro. Seriam esses dois algarismos assim dispostos as próprias torres do WTC? Davi já sabia: quanto mais alta a coisa, maior é o seu tombo. E eis que os dois grandes Golias desabaram sobre as próprias pernas. Nova York ajoelhou-se. A Big Apple foi mordido. Já são poucos os turistas trajando a tradicional I ♥ NY. Pássaros mais pesados que o céu fizeram-nos lembrar que as torres apenas o arranhavam: deste modo jamais veremos Deus. Nem George Lucas conseguiu. Se Osama é o lado negro da força, isso já não sei. Certamente porém, ele foi criança, já teve esperança, mesmo antes de acreditar em guerra “santa” provavelmente olhava para cima e sonhava em ser astronauta. Sobre o mesmo tema, segue música minha de 2002, U.S.A. E ABUSA: Onze de setembro O símbolo do capitalismo ruiu Que luz é essa? Vem descendo lá do céu Brilha mais que a luz do sol Vem trazendo a esperança Será o Binbin essa luz que ninguém viu? Por que cortar a madeira? Se pode vender a castanha No desenvolvimento sustentável Da floresta A internacionalização da Amazônia É discutida por muitos E defendida pelos nossos amigos (Amigos?) os norte-americanos que não quiseram assinar o protocolo de Kioto pra não mexer... em sua economia! Pra que mexer em sua economia? Só! (Só?) pra salvar o planeta! Mas não se preocupem Eles disseram que vão cuidar Das grandes áreas verdes De suas florestas tropicais É... como se eles as tivessem! Usa... usa e abusa U.S.A. e seus abusos Mandaram a ONU pra desarmar Depois invadiram pra assaltar E levar todo o petróleo De onde já foi a Babilônia (Babylon, Babylon) Levaram um pau na guerra do Vietnã Então criaram um Rambo só pra amenizar A humilhação dos assassinos da humanidade Do genocídio dos índios Cherokees À suas indústrias poluentes Também criaram todo o seu modismo Disseminado para o mundo Através da indústria cinematográfica (A sua Holywood) Que confunde dinheiro com atitude Usa... usa e abusa U.S.A. e seus abusos Não se deve abaixar a cabeça Pois não é com altas torres Que vão nos dominar Pois o concreto também seca E sua glória ao pó Acaba por voltar E nem com bombas nucleares Poderão nos ameaçar Pois se elas forem detonadas Não só a nós, pobres, mas a todos Destruirá Então não me venham com a ALCA Ou a base de Alcântara São abusos à soberania nacional Abusos que mal aparecem no jornal Usa... usa e abusa U.S.A. e seus abusos Fora ao american way of life Fora ao consumismo, ao capitalismo Ao imperialismo, ao neoliberalismo Fora aos estrangeirismos nas vitrines das lojas Chega de nos usar Chega de sermos tratados como marionetes Viva a nossa cultura O país de todos nós Enquanto ainda podem Usem, usem e abusem Enquanto o povo não se toca! Usa e abusa...
[...] Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar. Estendeu os olhos para fora, até onde o mar e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável [...]. “A Cartomante”, Machado de Assis.
O pai alcoólatra chama o filho pequeno pra perto da janela e mostra a chuva de granizo. Vê filho, aqui tá chovendo gelo. Em outro lugar deve tá chovendo vodka, em outro açúcar e em outro limão!
Os três velhinhos para os jovens que passam rápido: _ Ei, voltem aqui. Aonde vocês vão tão apressados?
É VREDADE QUE PDOEMOS LER FARSES EBMARAHLADAS?
Nomes antigos de conhecidas ruas curitibanas: Rua da Entrada = Rua Emiliano Perneta Rua do Fogo = Rua São Francisco Rua do Comércio = Rua Mal. Deodoro Rua do Jogo da Bola = Rua Dr. Muricy Ed. Moreira Garcez = 1º prédio de Ctba (8 andares, estilo francês).
A decadente elite curitibana não vê a hora que chegue o frio para poder tirar do armário os seus elegantérrimos casacos europeus cheirando a naftalina e já um pouco embolorados.
Todos os anos, dias 12 e 13 de junho, as solteironas de plantão fazem fila na Igreja Bom Jesus, atrás da fatia de bolo premiada por Santo Antônio.

APENAS MAIS UM DIA EM CURITIBA

Surtei de vez. No Marco Zero de Curitiba, entrei na fila do sopão. Por alguns minutos estive na pele de um morador de rua. Na Riachuelo, uma mulher de programa ofereceu o seu negócio. Continuei descendo. Na Santos Andrade encontrei um amigo que estava indo ao B.B. King no Guaíra. Ele havia comprado o ingresso mais barato: iria assistir ao show das escadarias do prédio histórico da Federal. Mais abaixo, vi escrito num muro: “Requião tem razão, Requião é homê bão!”. Decidi tomar uma gelada. Mais um bar, da mesma cidade. A fria e doce Curitiba. Ou amarga? Depende o dia. No player, uma música pop sulista. Jovens-drogadinhos-mimados-classe-média-alta disfarçam suas insignificâncias conversando alto, regados a muita bebida. Quantos minutos guardados dentro da mesma garrafa? Passa um bom tempo e eles ali comemorando (ou bebemorando?) suas vidas vazias. Quatro deles saem voando num carro pilotado pelo mais novo deles: apenas 15 anos. Em pouco tempo, 140 Km/h parados numa esquina qualquer. Eu, por minha vez, pego o lotação... Por que me irrito tanto com estas pessoas que ao mesmo tempo amo e odeio? Pessoas igualmente lindas e feias. Nos ônibus encardidos pelos quais nos locomovemos, nunca não tem uma criança chorando. E comendo. E bebendo. Refrigerantes marcas diabo. E duas ou três fungando e tossindo em nossas faces. Noutro canto da cidade, Oil Man canta Elvis num bar da moda. Noutro, a Boca Maldita continua exalando todo seu conservadorismo. Tradição. Adequação. No McDonalds, patricinhas e playboyzinhos deliciam-se com seus hambúrgueres de bichinhos. Alface com gosto de papel. Adolescentes suburbanos jogam sabão-em-pó na fonte da Cruz Machado. Os soldadinhos de chumbo, aparelho repressor do estado, lhes descem a borracha. Põem fogo em mendigo do Largo da Ordem (lago enterrado da ordem?). Na Boca do Lixo, mais prostitutas. No Snooker da Osório, garotos de programa. Na Rua das Flores, os anarcopunks: “Você gosta de poesia? Quer dar uma olhada nos adesivos?”. Nas noites frias de Curitiba, os pelados da Praça Dezenove ficam desprotegidos. Aproveitam para ligar as muitas fontes, chafarizes. Assim é um ou outro menino de rua mais ousado que resolve tomar banho. Por que não tiram os pobres das ruas? Assaltos. Seqüestros. Assassinatos. Enfim: aqui tudo em ordem, no seu devido lugar. Devo ficar? Não!! Prefiro pôr o bondinho nos trilhos, passar por cima da ponte-preta, ir-me embora e deixar no passado mais um dia de Curitiba.

CURITIBA QUE É O MEU QUINTAL

O circular centro que dobra a esquina da Cândido Lopes. A poesia urbana que emana de Curitiba. Curitiba que é o meu quintal. Celeiro cultural? Todas as cidades o são. Os porteiros com seus trajes engomados. Pra que tanto respeito? O ritmo zumbi de teus trabalhadores. Aqui não se vê yellow cabs. Teus cabs são orange. Laranjas mecânicas em bandeira dois. O povo que, antes das oito, pára pra comer pastel ao lado da Catedral. Colesterol é doença de velhos. Colesterol é doença de gordos. Colesterol congela com o frio. Teus ídolos do Bourbon podem cuspir na multidão. Não se fala da Curitiba que conheço: a Curitiba da canalhice, dos meninos de rua, do mau-humor, da depressão; curitiba de muito pinhão. Pleonasmo? Vocação pra Trevisan? Pra agradar tua burguesia, te falta uma canção ao estilo New York, New York. Uma Curitiba, Curitiba. Ao invés de Frank Sinatra, ela seria cantada por Roberto Carlos. Não o patético de todo especial de fim-de-ano; mas o seu clone, do Edifício Tijucas.

SAUSSUREANA

Essa noite Saussure me sussurrou no ouvido: “Não creia no que dizem, não lhes dê ouvidos”. O suíço estava doido, saturado dos alunos. Disse haverem confundido tudo: sumido com o original, publicado absurdos. “Não é que são safados?, acabaram com meu Curso. Tais palavras não são minhas!”, já berrava o pobre homem com cólera quase secular. “Grande gênio, pai desta ciência? Isso não é meu, não mereço este trono!”. Por meu lado, sob o travesseiro a cabeça, associações, langue, parole, tudo rodando, deixando-me quase louco. Até que quando, veio-me à idéia aquele clarão, potente relâmpago: “Possenti”. Forte aguardente, Seu Sírio é Saussure! Triste sombra em pleno outono: se Caetano roça a língua de Camões, Ferdinand acaba com meu sono! In: antes do COMEÇO depois DO FIM

SUBSOLO

Elevador parado. 11.º andar. Risco de queda. Desespero geral. - Nós vamos morrer!!!!! – grita a loira desesperada. - Meu Deus, nos ajude! – suplica o homem engravatado. (Em desastre de avião e queda de elevador não existe ateu). - Calma pessoal! – retruca o velho barbudo. O elevador volta a funcionar. Desce macio, até que... nova pane. Pára no 1.º andar. - Ufa! – respira aliviada a loira, antes exaltada. Agora pode cair, estamos quase no chão mesmo! Boca santa! Não é que realmente o elevador despenca?É só fumaça e poeira quando chega ao S4.

INVASÃO DE PRIVACIDADE

É revoltante o “estado de sítio” no qual temos de viver. Todos os dias nos deparamos com situações que envolvem algum tipo de vigilância sobre nossas atividades; em todos os lugares vê-se o aviso de “sorria, você está sendo filmado”. Posso imaginar o sorriso maroto de quem assiste aos vídeos, enquanto diz, se homem, “essa aí é gostosinha!”, e se mulher, “mas que cabelo horrível!”. É triste, extremamente triste ter de viver sob constante invasão de privacidade! Proliferam-se casos como o recente assassinato de uma mulher em plena Rua XV de Novembro (coração da cidade de Curitiba), às dez horas da manhã de um sábado, por reagir a um assalto. Porém, essa rua é “recheada” de câmeras: será que elas trazem mesmo alguma espécie de segurança? Essas câmeras espalhadas pela cidade servem para, supostamente, coibir a ação de possíveis delinqüentes, nestes tempos de total insegurança. Não chegam a apresentar um desempenho satisfatório, pois além de constranger o “cidadão-de-bem”, são motivo de gozação por parte dos assaltantes, que com um simples disparo de suas pistolas danificam o equipamento, quando não fazem pose diante dele. O fato é que se perdeu totalmente o respeito pelas liberdades individuais inerentes a toda e qualquer pessoa: é necessário um dispositivo eletrônico e a intromissão direta de terceiros para nos deixar menos receosos. “Big Brothers” e cia. vigiam 24 horas por dia os seus participantes. Fico aborrecido quando os hóspedes de tais programas deixam, sucessivamente, seus cativeiros. Gostaria do fundo do coração que pessoas tão fúteis como essas não saíssem daquelas casas e permanecessem para sempre longe do convívio da sociedade. Filmam até o que acontece nos banheiros dessas casas. O que sempre me pergunto é como é que existe gente que se interessa tanto pelas vidas vazias de pessoas que elas sequer conhecem. As câmeras estão por toda parte: ruas, lojas, edifícios, casas, ... O que acontece é que a sociedade em que vivemos necessita profundamente sentir-se segura; só que não é capaz de perceber que isso não se dará através do controle dos movimentos alheios ocorrido nos mais variados ambientes; o que realmente precisamos construir é uma sociedade mais justa, igualitária, solidária e democrática na qual nenhuma pessoa precise ser vigiada.

SOCIEDADE DOS POETAS DE BOTEQUIM

O amigo paulista, mineiro, carioca que me desculpe, mas aqui é que a coisa não é séria. A vida em Curitiba é uma grande conversa de boteco. A chuva de Curitiba é mais molhada que a chuva de qualquer outro lugar. Nós, curitibanos, somos mais chatos que dez vezes o maior chato que já existiu. Olhe você, aqui a vida acontecendo, e nós fechados em nosso canto com medo dos sentimentos. Os homens bebendo, as mulheres comprando, ambos desfilando pelos diversos shoppings; à procura do amor nas ruas, sabendo que nunca o acharemos, pois somos todos muito chatos e exigentes, já que mantemos a certeza de que é muito difícil encontrar alguém que realmente presta. Ninguém está à nossa altura: somos senhores e senhoras elegantes, cultos, eloqüentes, respeitáveis, cordiais, todos sócios do Santa Mônica.

LUIZ LOCO

Do quarto emergem sussurros e gemidos. Na geladeira apenas água e bananas. Sobre ela os óculos ray-ban de dez reais. O primeiro próxima no aguardo de sua vez. É na verdade numa destas ruas pouco movimentadas, por onde boas senhoras a caminho da igreja não se atrevem passar. Na porta do apartamento, nada de anormal. Espiadela dentro, luz rubra provocante nos olhos. Morena doida dança sensual. Preço de quem se valoriza: “uma vermelhinha”. Uma luna por dia? Já no meio da farra, a sempre presente intenção de tomar nos braços a puta. Luiz Loco desde antes, desde casa nelas já pensava. O dinheirinho suado separado na carteira: oitenta conto. Primeiro fazer a desforra no som de Almirante. Depois, comprar amor. Melhor: alugá-lo. Dizer que é realmente tarado, não se diz. No PC, pasta nomeada “sacanagem”. Os colegas o conhecem, embora ninguém o tenha em alto apreço. Gostam sim é de suas aventuras. Divertem-se de sua feiúra. Riem-se de sua falta de jeito. Incapacidade de arranjar mulher. Eduardão Batata é o primeiro a topar o negócio. Paulinho Morsa, pra provar que é macho, fechou a expedição. Afinal quem está pagando é o camarada... Então lá foram os três provar da coisa. Meio ébrios, errantes, chegam cantando pela rua. Justamente ali, onde os malacos de plantão percebem até passo de centopéia. Mas ninguém mexeu com eles. Parece haver algo que os protege por estes caminhos tortuosos da juventude. Já no ap., Paulinho sangra. Eduzão tira o corpo fora e rouba a luna. Não é que o único a se divertir é o Loco? Da sala escutam: “vou escancarar, encapuzar e depois vou pôr pra dentro!”. Dito e feito: em pouco tempo sorriso nos lábios, a pequena vagina feita pé-de-cabra, o copo cheio de leite, pênis em flor.

DECIDIDO

Como invejo Dostoiévski: ele não teve problemas com celular. Nem mesmo Raul, o profeta de dez mil anos. Pessoas felizes. Não tiveram aos seus encalços namoradas pertubentas mães preocupadas chefes importunantes toda a raça de credores. Viveram felizes tomando seus licores... Cervejas. Vodkas. Tinham à frente apenas o feltro verde da jogatina e a música rolando a seu bel-prazer. Sem chance cansarem dessa vida! Mas aqui, sul do Brasil, aquela mesma Curitiba – batida rodada recorrente -, a realidade é outra. Os coitados dos pobres empregados mal conseguem a alforria diária das 18 horas, já recebem torpedos mensagens chamadas. “Eta mulher chorona”; o jeito é atender, dizer: “Estou a caminho, já estou na XV”. É o que fazem: desbaratinam, ganham tempo. Mas é real que vão embora. Formam filas nas praças – a Santos Andrade, a Carlos Gomes, a Rui Barbosa, a Tiradentes – e se mandam. Desesperam-se direto pra casa, porém acabam trombando os conhecidos... “Ei, vamô lá no Bar do Paulo?!” A pedido tão sentido, não resistimos: “Tá bom, mas só uma... “ Uma nada, béra a rolê! Sobriedade às favas! Das sete, ficamos lá até as nove (o Paulo é assim meio chato mesmo, fecha cedo). Dalí é certo, a casa é o destino! Estamos quase chegando, pé direito dentro do portão, os vizinhos gritam: “Ei Chico, chega mais, assume aqui o violão”. Não há Cristo que resista. Lá vamos nós, tomá uma baiúca!! Desce aqui, empina ali, faz a mistura, tubão na mão, o conúbio etílico refrescante com limão. Lá pelas duas da matina chego em casa. Cautelosamente pé ante pé, os joelhos estralando. A mulher nem percebe; o anjo suspirando no berço, esperando seu momento de atuar no mundo cão. Deito ao lado da princesa, as barrigas competindo: muito chope. Em breve novo anjo. Na seqüência, dia seguinte, decido vou mudar. Às quatro da tarde peço licença ao chefe, compro flores, passo perfuminho, sou todo dengo, todo amores... Pego táxi – o luxo do mês -, chego na esquina da residência às quatro e quarenta e cinco. O plano? Voar pra casa, mais rápido que uma bala: minha mulher não merece desgosto. Já no rumo certo, decido fazer surpresa: comprar queijo e presunto. Preparar café. Um lanchão assim-assim. Na mercearia, os freezeres cheios de cerveja à espera dos trabalhadores. Com as idéias tudo abaixo. Sou mesmo um bêbado, alí me acabo. Esse é o meu fim.

CURITIBA

A capital universitária, ecológica, social, ou do teatro? In: antes do COMEÇO depois DO FIM

COLISSEU

Poeta? Não!! Doidão. Leminski viveu. Dalton, talvez, seja eu. Dona Helena Kolody ainda vive aqui. Neste céu de brigadeiro. Neste coração amargo e sincero, do lugar que cultivo e espero venha a ser grande Colisseu. Então talvez eu possa ser Nero e botar fogo nesta Curitiba fodida. Neste pardieiro de ateus, de cada vez menos patrícios mais plebeus, neste caos, neste lodo. Lugar ermo perdido entre a fumaça (dos viciados) BREU. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

SCHWARZWALD

Todo bebê recém-nascido é igual Einsbein do bar do alemão In: antes do COMEÇO depois DO FIM

DESALENTO

Não me digam que estou errado, não me digam nada. Melhor: não falem nada. Vossas verbalizações não correspondem à verdade, não acrescentam nada. Calem-se. Envolvam-se, revistam-se de silêncio. Enrolem-se como fetos, rastejem no chão. Não abram as bocas, nem pensem. Não, não..., pensem sim. Reflitam e respondam: vamos pra onde? A cada inverno engordamos um pouco mais. Ladrões que somos roubamos de outras fontes nossas necessidades. Assim a cada dia nos tornamos mais circulares. Em que mundo vivemos, não é mesmo, meu companheiro? Sempre correndo. Um dia chegará o tempo em que esqueceremos até de... respirar. E enfim, morreremos. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

CONSUMISMO

A noite é tão bela E gosto tanto dela Pena seja tão violenta. Atrás de cada esquina Olhos em minha nuca Que dói Qual sentido de aranha. Um mundo manchado de vermelho. Vermelho mais forte que a escuridão Da noite. Os viciados consomem drogas As drogas os consomem. E eles apenas consomem os bens Que os bons senhores consomem, Pois também são consumidores. Este é o erro dos homens, senhores, Este é o nosso erro: O consumismo. É ele que cava o foço, Abre a cova Mata, Destrói Corrompe. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

MALUCO BELEZA

Paulo Coelho tornou-se rico sem precisar ser engenheiro. Foi amigo do Raul, sobreviveu aos sanatórios e à década de setenta. Hoje é senhor respeitável, maluco da literatura. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

E AGORA, DRUMMOND?

No meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho Não é, Drummond, que pixaram tua estátua? Nunca tem uma pedra por perto quando a gente precisa! In: antes do COMEÇO depois DO FIM

Mc NORDESTE

Na segunda-feira coma Mc Nordeste: é um pão com calango, farinha, rapadura, água suja e gergelim. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

VENTURA?

Espertozóides Chatequese Universiotário Escragiário Ilusão de ética In: antes do COMEÇO depois DO FIM

PAPOULA

A papoula é uma erva papaverácea de cujas flores se obtém o ópio. Mas se fosse mulher teria os cabelos curtos, os olhinhos inquietos, a boca sedutora: viciante à mesma razão. Chamar-se-ia então Paola, nos encontraríamos na mesa de um bar ou numa das esquinas da fria Curitiba. Daí seriam abraços e beijos, eu emprestaria meu casaco e até dançaríamos (se um dos dois soubesse). Mas falaríamos de coisas sérias, discutiríamos e partiria - ai, meu coração - no odioso veículo laranja. Dia seguinte viria a abstinência que, de certo modo, soa à advertência: “Não faça isso, não a procure mais, o amor é droga!” Sei que é preciso deixá-la - psicodelicamente - bater as brancas asas e voar, não se deve aprisioná-la, que pressionada escapa. É maluquinha e precisa ser levada na medida certa. Enfim, sei que é preciso deixá-la - forçosamente - LIBERTA! In: antes do COMEÇO depois DO FIM
Eu, o poeta, eu-lírico desta aventura chamarei os meus amigos e iremos todos bebemorar. Hey HO, Let’s GO BAR! Seu Zé, desce mais uma aí!, A moça aqui já começou a cantar, O Camara não demora a chegar, Doidão na porta negocia a encomenda. Cada um na sua, mas todos no mesmo lugar! Uma, bem Polyana, segura a pazinha do sorvete como fazem as boas moças. Outra, melancólica, desentende-se novamente com mais um de seus revoltosos cachos. Uma terceira, impaciente, propõe extensões irrecusáveis. Mas aqui tá tão bom!, a jogatina come solta, engorduram-se os dedos de pimenta e de molhinho. Ah... vida boa: paga-se à prazo, vive-se à vista, desenvolve-se bem. Isso é que é estar com a faca e o queijo, a mostarda, a maionese e o catchup na mão! In: antes do COMEÇO depois DO FIM
Você é mais bonita que as Flores do Jardim Mais bonita que a alegria, a paz, o amor Você é mais bonita que a Vênus de Milo Mais bonita que um colar de diamantes Você é mais bonita que uma família unida Mais bonita que o Sol, a Lua e o Mar Você é mais bonita que um bar da moda Você é mais bonita que o mais belo trottoir Você é mais bonita que a velha envolta em manto Mais bonita que o dez na prova de geometria Mais bonita que a Nona Sinfonia E que a oito certeira lá no canto Você é mais bonita que a final da NBA Mais bonita que a aliança com o rei É mais bonita que o Jimi esmerilhando É mais bonita que as montanhas da Alemanha. Você é mais bonita que uma noite na Pedreira Mais bonita que amizade verdadeira Mais bonita que um feriado prolongado É mais bonita que a Marilyn de biquíni Você só não é mais bonita que um filme de Fellini. In: antes do COMEÇO depois DO FIM

HERANÇA

Teus avôs eram alcoólatras Teu pai era alcoólatra Quem é você pra quebrar Com essa tradição familiar In: antes do COMEÇO depois DO FIM
VAMÔ LÁ EM CASA OUVIR OS THE BEATLES? In: antes do COMEÇO depois DO FIM
TENTE OUTRA VEZ Quando você nasce você não tem vez Quando cê é criança você não tem vez Na adolescência Aqueles bailes, esperas, angústias, você não teve vez. Adulto, um dia após o outro, sempre resolvendo problemas sabe-se lá de quem. Melhor 3ª idade definitivamente cem vezes sem vez Quem sabe da próxima vez. In: antes do COMEÇO depois DO FIM
Meus poemas Armadilhas Teias que armo na mesa. Que a mim me vêm Como que a certeza De sempre fazer o bem. In: antes do COMEÇO depois DO FIM
“[...] O poema não é a expressão do que se viveu ou experimentou. Se eu sinto um cheiro de jasmim na noite e escrevo um poema sobre esse fato, o que faço não é expressar tal experiência, mas, na verdade, usá-la para inventar uma coisa que não existia antes: o poema, o qual se somará a todas as galáxias, planetas, cometas, oceanos e tudo o mais que exista no universo.” (GULLAR, Ferreira. Folha de s. Paulo, São Paulo, 19 jun. 2005. Ilustrada, p. 10).
“Se a obra de arte proviesse da intenção de fazê-la, podia ser produto da vontade. Como não provém, só pode ser, essencialmente, produto do instinto; pois que instinto e vontade são as únicas duas qualidades que operam. A obra de arte é, portanto, uma produção do instinto. O drama, sendo primariamente uma obra de arte, é-o também.” (PESSOA, Fernando. Idéias Estéticas/Da Arte: Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 231).

ZÉ BUFÃO

Toma uma béra e já vira macho. Fica no grau e cresce na hora. Esse era Zé Bufão. Quanto mais bebia, mais tremida ficava a letra. E olha que nem escrever ele sabia. Sabia apenas é marcar o X na pindura do bareco. Como um santo, religioso, era profissional: todo dia marcava ponto na mesa armada na calçada. Em frente ao bar, bebia todas. Certa vez, chegou a esgotar 17 garrafas de cerva sozinho. Um beberrão! Outro vício seu, como não podia deixar de ser, era mulher. Virava o zolho de tão louco perseguido que era da bendita criatura. Flertava que era uma beleza: piscava os dois olhos na confusão da pescada inicial. E mesmo assim, fisgava. Na maioria das vezes piranha, de quando em vez um peixinho, mas não é que quando com muita sorte na rede caía uma sereia? Mas não era sorte, definitivamente. Era paixão. Entrega. Absorto que era, procurava o bicho mulher na pugna diária da selva.

MANIFESTO TEATRO POP

A espécie de teatro que passo a propor baseia-se essencialmente na intercalação entre o ato cênico propriamente dito – a representação, ou mese em scène – e músicas que, consideradas em meio às atuações, são significantes no decorrer do enredo. Aparecem de modo similar às trilhas sonoras dos filmes: criam os climas necessários à ambientação e desenvolvimento das histórias, e de certo modo, mesmo como passagens ou explicações em determinados contextos. Constam impreterivelmente no início e término dos espetáculos, visando respectivamente a uma apresentação e a um desfecho da trama. Esta postura surge do fato constatado de a música, em nosso país, ser uma das manifestações artísticas de apelo mais popular de que dispomos. Dito isso, visa-se não apenas o já conhecido caráter sinestésico desencadeado pelas canções, mas também, o propósito de talvez despertarem um interesse maior e por conseqüência o acesso mais facilitado do grande público ao teatro. Por tratar-se de músicas conhecidas, daí decorre a expressão “pop” no alto da página. Há a tentativa – contudo não primordial – de aproximação com as antigas tragédias gregas, no que diz respeito à constituição de trágico naquelas peças, pois nessa constam alguns dos artifícios essenciais para a obtenção do efeito trágico, a saber: 1) o fato do herói (protagonista) ou o seu mundo ilusório de segurança ter de sofrer uma queda considerável, ou seja, haver um encadeamento de acontecimentos sofríveis que mudem a situação em que se encontra; 2) que essas ações façam parte do próprio mundo dos espectadores, para que, através delas, eles se comovam e reflitam, tudo isso devido à inquietação em suas almas provocada pelas sensações dramatizadas. Em outras palavras, visa-se a catarse (a purgação ou purificação; a liberação de pensamentos, idéias etc. que estavam inconscientes, reprimidas, seguindo-se alívio emocional); 3) a necessidade do herói estar consciente do infortúnio a que se sujeitará; 4) e, por último, o caráter irreconciliável das agruras sofridas pela personagem (não poder evitá-las de maneira alguma). Há a tentativa de estabelecimento de uma ALMA BRASILEIRA, o que se verifica na caracterização das realidades sociais, econômicas e políticas dos roteiros e, mesmo nas alusões à história do Brasil. Visto que Shakespeare analisou e eternizou a alma inglesa de sua época; Brecht, a alemã; etc etc... pretende-se fazer o mesmo com a alma brasileira, trabalho já iniciado, no teatro, com autores como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Dias Gomes, Chico Buarque, Ariano Suassuna, entre outros. É certo que aqui somos cidadãos do mundo; queremos conhecê-lo e entendê-lo, a nosso modo. Queremos sair e ver tudo. Rodar mundo. Mas, antes de tudo, antes de conhecer o mundo, devemos conhecer nosso país. E antes de conhecer nosso país, devemos conhecer nossa região. E ates de nossa região, o nosso estado. E antes dele, nossa cidade. Ainda antes, nosso bairro. E antes, as ruas. Antes, as casas, os quintais, os cômodos. Mas, em primeiro lugar, antes de tudo isso, devemos conhecer a nossa Alma. Conhecer a nós mesmos! No que diz respeito às personagens, é importante dar as características que lhes são comuns: trata-se na maioria de personagens verborrágicos e loucos, porque além de falarem muito, falam sozinhos. E falam muito em longos solilóquios. Expressam-se através de uma linguagem coloquial cuidada, até certo ponto, na qual em certas ocasiões são permitidas algumas espécies de solecismos gramaticais, como por exemplo, o uso de pronome oblíquo átono em começo de frase. Há, além disso, personagens ditos “protáticos”, ou seja, aqueles que aparecem pouco e que, de certa forma, preenchem algum espaço, algum tipo de buraco no enredo. In “As Prisões de Pedro”. Cesar Felipe Pereira. 2006.
“_ Escute! Escute! – interrompi. _ Perdoe que lhe diga uma coisa... Veja bem, não há outro remédio; amanhã terei de voltar ao mesmo lugar. Sou um sonhador, mal conheço a vida real, e um momento como este é tão raro de ser conseguido por mim, que me seria absolutamente impossível não continuar a evocá-lo sempre em meus sonhos. Esta noite será toda passada sonhando com a senhora. Mas que lhe digo? Esta noite, toda a semana, o ano inteiro! Não terei outro remédio senão vir postar-me amanhã aqui, neste lugar em que estamos, à mesma hora, e serei feliz recordando nosso encontro de hoje. Já tenho carinho por este lugar. Como este, já tenho mais dois ou três em Petersburgo, que me são queridos. Às vezes, cheguei a derramar lágrimas como a senhora a pouco, quando de súbito me assaltava uma recordação... Talvez esta noite, no cais, a senhora chorasse, simplesmente, por isso, por estar recordando alguma coisa... Perdoe; já voltei a falar disso. Talvez a senhora tivesse sido, ali, esplendidamente feliz...”. “NOITES BRANCAS”, Dosto, Ed. Martin Claret, pg. 20, 21.

Resenha: O CRIME NÃO COMPENSA

Em 1867, era lançado pela primeira vez, em livro, o romance “Crime e Castigo”, do escritor russo FIÓDOR MIKHÁILOVITCH DOSTOIÉVSKI (30/10/1821 – 28/01/1881). A história foi, originalmente, publicada em folhetim, no jornal “Mensageiro Russo” (da cidade de São Petersburgo), de janeiro a dezembro de 1866. Ela seria publicada ainda, em livro, mais duas vezes, com o autor ainda em vida: em 1870 e 1877. O título do original russo é “PRESTUPLÉNIE I NAKAZÁNIE”. A obra foi composta em pouco tempo, com Dostoiévski afundado em sérias dívidas, viciado em cassinos e vivendo da ajuda de alguns amigos. Para analisar a obra do autor, faz-se necessário conhecer, pouco que seja, sua biografia: Dostoiévski teve um relacionamento tempestuoso com o pai, que foi brutalmente assassinado por mujiques (servos russos), empregados deles. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, escreveu um artigo intitulado “Dostoiévski e o Parricídio”, a respeito do caso. Aliás, Freud considerou “Os Irmãos Karamazov” (última obra do autor) como sendo o maior romance escrito até então. O crime do pai teve sérias repercussões na saúde do escritor: ele passou a ter ataques epiléticos – alguns personagens dele, inclusive, são marcados pelas características da doença – que lhe causavam grandes incômodos. Sua literatura é caracterizada pela introspecção psicológica e pela tentativa de compreensão da força dos instintos nos atos humanos. Em suas obras, há sempre redenção (personagem santo ou que será santificado); sofrimento culpado; mergulho no inferno da dúvida; o tormento daqueles que desafiam Deus e suas leis. Dostoiévski é o grande perturbador da consciência; era capaz de levar a análise à exaustão. Segundo palavras do próprio escritor: “Chamam-me de psicólogo; não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retrato todas as profundezas da alma humana”. Crime e castigo é dividido em seis partes muito bem amarradas, mais um epílogo. A narrativa é nitidamente linear. O enredo é o seguinte: o jovem Rodion Românovitch Raskólnikov (personagem principal), ex-estudante, morador da cidade de São Petersburgo, anda com planos bem excêntricos a lhe rodar a cabeça: para sair da miséria que lhe aflige, planeja dar cabo de uma velha avarenta (Aliéna Ivánovna). Vai a ela com objetos para serem empenhados. A princípio, acha impossível que venha a, efetivamente, matá-la. Certa ocasião, ele leva um embrulho dizendo conter um cinzeiro de prata (que nunca existiu); na verdade, vai até o local para ensaiar o crime; o que já vem fazendo há algum tempo. De repente, surge a oportunidade “perfeita”: a irmã da velha não estaria em casa; portanto, Aliéna estaria sozinha. Com isso em mente, Raskólnikov pôs seu plano em ação: matou a velha. Quando estava preste a roubá-la, surge a irmã que não estaria em casa. Foi “obrigado” a matá-la também. Toda a teoria pensada até então, que servia de justificativa para o crime, foi por água abaixo. O jovem de 23 anos vai torturar-se exaustivamente com uma autojustificativa sem fim. O rapaz envolve-se com a prostituta Sônia, por quem se apaixona; a paixão é recíproca. Quando ele se entrega à polícia – depois de longos diálogos com o inspetor Porfiri – e é condenado à prisão na Sibéria (fato real na vida do escritor), ela resolva “sacrificar” a própria vida para seguí-lo. Crime e castigo é um livro grande: tem mais de 500 páginas; mas, o envolvimento que ele cria compensa o tamanho. A leitura não é fácil: é uma leitura não fluída; os diálogos parecem intermináveis: é custoso saber o que ocorre após cada um. As personagens têm uma espécie de incontinência verbal: pensam e falam muito. No entanto, não se pode dizer que a narrativa é enfadonha, pois é justamente através das palavras e pensamentos das personagens que Dosto tece seus perfis; e não apenas com as descrições. A loucura e a impulsividade de Raskólnikov, por exemplo, envolvem de tal modo que, ao terminar a leitura do capítulo que antecede os assassinatos, o leitor é levado a pensar: “Ai, meu Deus. Ele vai matar a velha!”. O leitor torna-se vítima da tensão, da loucura que, aos poucos, vai dominando Ródia (apelido, do primeiro nome, de Raskólnikov), através do perfil psicológico traçado pelo escritor. Porém, infelizmente, nem todos os leitores captam essa nuance: segundo Diogo Mainardi, em crítica à obra de Dalton Trevisan, veiculada pela revista “Veja” em 23 de novembro de 1994, muitas obras literárias “sofrem com os ataques dos maus leitores”; a obra de Dostoiévski é uma delas. As falas e pensamentos de Ródia vão se mesclando e, às vezes, chega-se a confundir o que está sendo dito e o que está apenas em sua mente. Sua forma de pensar é o que o compromete: em sua teoria de “ordinários e extraordinários”, ao se colocar no papel da pessoa de talento (um “Napoleão”), pessoa provida de dom, ele se permite sobrepujar os obstáculos, para comprovar sua teoria. Ele não se importa com os “seres ordinários”, tanto que, diante deles, se entrega por suas atitudes: ele é torturado pela culpa, quase em delírio, logo após despertar da enfermidade que o acometia há dias; cria circunstâncias para ser entregue à polícia, o que aliás, ele quer. São essas várias ações, observadas pelos “seres ordinários”, que o levam a ser incriminado no final. Raskólnikov pensa em voz alta, fala sozinho pelas ruas, gesticula sozinho, expressa seus pensamentos em expressões; suas atitudes e discursos o entregam. Entregam seu crime e sua loucura: o narrador o declara louco, ao dizer, por exemplo, “riu estranhamente”; outras personagens o acusam ao longo do livro; ele mesmo acha que está louco. Em seus pensamentos obsessivos antes de cometer o crime, ele diz para si mesmo: “É a doença que gera o crime ou é o próprio crime, por sua natureza específica, que é de certa forma sempre acompanhado de algo como uma doença?”. Aliás, só a descrição de como a loucura se desenvolve no personagem, já vale livro. Outro momento fabuloso é o jogo psicológico de verdades e mentiras travado entre Raskólnikov e o inspetor Porfiri Pietróvitch. O diálogo engana o leitor, que a certa altura da narrativa já não sabe mais o que o inspetor sabe ou não; se está sendo bom ou sarcástico; se sabe tudo e finge não saber, ou não sabe nada e é um tolo que não quer crer. Raskólnikov se entrega à polícia por causa de sua culpa: pelo tormento causado por Porfiri e por sua própria mente. Dostoiévski faz uma dura crítica à sociedade russa da metade do século XIX. Através do personagem niilista e engomado, Piotr Pietróvitch Lújin, critica a burguesia e suas posses, que menospreza os pobres e quer apenas se impor diante dos mais fracos. Aliás, o niilismo está sempre presente em algum de seus personagens, como afirma Harold Bloom, no livro “Como e Por Que Ler”; personagens estes, nesse sentido, comparáveis aos de Shakespeare. É em defesa dos pobres, que foram deixados à margem depois da reforma do Estado, que se estabelece uma forte crítica social. Para Dosto, a miséria cria situações nas quais certos tipos de comportamentos se tornam aceitáveis. Mostra-se o sentimento de impotência das pessoas diante das injustiças. Através de uma galeria de personagens pobres que enlouquecem, parece perguntar: a pobreza enlouquece? Ou no caso de Raskólnikov: o meio leva o homem ao crime? O autor também reflete se é o ambiente que enlouquece, quando diz: “Petersburgo é uma cidade de semi-loucos”, nas palavras de Svidrigáilov. Mas são apenas suposições e críticas a uma grande cidade, no fundo a um grande país, que abandonou seus pobres e camponeses e está mais preocupado com reformas burocráticas e assistencialismo barato, do que com reformas realmente estruturais. “A filantropia ajuda, mas não acaba com os problemas”, diz Liebiesiátnikov. Dosto critica, mas não perde a fé nas pessoas. Mesmo na vileza de Svidrigáilov há um lado bom. As pessoas não são completamente boas, nem completamente más. Mesmo diante de toda pobreza, ainda existe orgulho, como Catierina tenta passar; e mesmo diante de todos os sofrimentos e infortúnios, há pessoas de coração puro, que se doam em prol do próximo, como as personagens Sônia e Dúnia (irmã de Ródia). Raskólnikov e sua irmã são as duas faces de uma mesma pessoa, pois o comportamento dos dois é muito semelhante, como afirma a mãe. Ródia se arrepende do crime e volta a encontrar a paz e o prazer de viver. Esse é o final: a resignação (que ocorre apenas no epílogo do livro); o reencontro com Deus. Há o arrependimento sincero; o renascimento de um homem e o seu amor pela vida, baseado na máxima, “o amor tudo salva”. Talvez os leitores sintam-se surpreendidos ao transpor a última página: o final não é seco, nem cético, pessimista ou niilista; é um final quase religioso. Provavelmente, isso decepciona muita gente; mas, era de se esperar um final sarcástico, talvez doloroso? Não. Ele só poderia dar no que deu: o tempo todo se dá pistas disso – a mulher redentora; o sacrifício da irmã; etc. Com a resignação de Rskólnikov, Dostoiévski aponta suas crenças (ou descrenças): ele sonhava com a volta a um cristianismo quase utópico, em que existiriam pessoas dispostas a se sacrificar pelo bem de outras – Sônia em relação à Ródia, por exemplo. O livro é maravilhoso; Dostoiévski escreve maravilhosamente bem. O final é muito bonito: além da certeza de que o crime não compensa (embora tenha sido ele que levou à redenção), tem-se a revelação de que o que salva o homem é o amor; poucos encontram o amor verdadeiro em vida... ; o resto vive a loucura que lhes resta! Essa beleza só encontra comparação, na obra do autor, em alguns contos e livros pequenos, como “Uma Criatura Dócil” ou “Noites Brancas”, provavelmente sua obra mais bela. - CRIME E CASTIGO. Coleção a obra-prima de cada autor. Série Ouro. Ed. Martin Claret. São Paulo-SP. Outono de 2005. Tradução: Ivan Petrovitch e Irina Wisnik Ribeiro.

DESMUNDO, de Alain Fresnot, 2003

A personagem vivida pela atriz Simone Spoladore é uma das órfãs enviadas pela rainha de Portugal com o intuito de desposarem os primeiros colonizadores no Brasil. Ela é obrigada a casar-se com Francisco Albuquerque, personagem vivido por Osmar Prado, e a viver em seu engenho de açúcar. É aproximadamente 1570. A sensível jovem portuguesa pede um tempo ao marido para que possa vir a cumprir suas “obrigações” matrimoniais. Contudo, ele a estupra, numa das cenas mais revoltantes do filme. Ela se vê obrigada a fugir, e chega próximo aos navios que a levariam de volta a Portugal, mas alí novamente tentam estuprá-la. Isso apenas não ocorre, porque seu marido nota sua falta e chega ao local no exato momento do ocorrido. Francisco mata três tripulantes do navio que tentavam fazer mal a sua esposa. Diante do fato de ela ter tentado fugir, ele passa a acorrentá-la num pequeno cômodo da casa, onde a única companhia da pobre jovem é uma índia que lhe leva medicamentos para curar-lhe os ferimentos produzidos pelas correntes que lhe prendem os pés. Mesmo sob a ameaça que se voltar a fugir irá ser morta pelo marido, a jovem novamente o tenta: disfarça-se de homem e acaba por cair nos braços daquele por quem se apaixona de verdade, personagem também português interpretado por Caco Ciocler. O aspecto que mais chama a atenção no filme é o português arcaico das falas e, por esta causa, a necessidade de ter de valer-se de legendas para poder compreender integralmente o que é dito. O filme tem em vista se aproximar bastante da realidade da época: o Brasil colônia. É uma obra historicamente importante, obrigatória a todos nós brasileiros que gostaríamos de conhecer um pouco mais a respeito da gênese de nossa cultura.

Ensaio: A POESIA ÍMPAR DE AUGUSTO DOS ANJOS

Muita luz já se fez a respeito da singularidade da poesia de Augusto dos Anjos. De fato, parece haver algo em torno de seu nome que, quando simplesmente pronunciado, suscita uma série de conceitos devidamente internalizados por aqueles que dele tratam. Seria improvável deixar de lado idéias como, por exemplo, a morte, a transformação da matéria, o pessimismo, que permeiam toda a obra do autor. Augusto dos Anjos publicou apenas um livro: “Eu”, composto por pouco mais de 50 poemas que combinam elementos parnasianos (o trabalho formal constituído em sonetos; o rigor da rima), simbolistas (musicalidade) e expressionistas (deformações e hipérboles expressivas). A obra, de 1912, escapa à simples categorização literária, não vindo a filiar-se a nenhuma escola. Agrega em torno de si a efervescência das vanguardas européias e é uma mescla de todas as tendências da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Enfim, surge em meio a um contexto histórico conturbado. Entre outras coisas, ocorreram a libertação dos escravos, o advento da República, as revoltas rural (Canudos) e urbana (Rio de Janeiro), a decadência da antiga estrutura latifundiária e a urbanização de grandes centros, os movimentos grevistas e anarquistas em São Paulo, as possibilidades de uma grande guerra e as incertezas em face do futuro da humanidade. Do ponto de vista estrito da poesia, a obra desse autor é tradicionalmente estudada dentro de um período eclético, a Belle Époque, em que a máxima predominante foi o olhar para o passado, a influência das escolas anteriores, pois em seu cerne convivem pacificamente o simbolismo, o parnasianismo e alguns traços do romantismo, e verifica-se uma predominância de neoparnasianismo. A única novidade foi justamente a sua poesia, o livro “Eu”. A. dos Anjos opera milagres ao unir ciência e arte; é original ao aliar cientificismo com linguagem poética. A voz do eu lírico é em jargão científico, clínico, biológico, e é por causa dos termos técnicos que emprega considerada uma linguagem difícil, densa, até mesmo hermética. É desse modo que manifesta a podridão, a estarrecedora verdade de que tudo o quanto é vivo um dia perecerá. Assim se dá a recorrência temática da morte e as visões escatológicas: cadáveres, vermes, túmulos, escarros, sangue de vísceras dilaceradas, espectros, fantasmas, até mesmo duendes, além de outras criaturas sinistras. Permeiam os poemas um grande número de símbolos e alegorias, percebendo-se em cada um deles, em cada imagem de sentimentos dissimulados – já que o real é ocultado em metáforas -, um fragmento de realidade que nos abrasa o mundo interior. Dor e sofrimento, mágoas e tormento transparecem em mensagens angustiantes, sentimentos esses que não passam e não passarão, pois falta ao eu lírico uma espécie de resignação cristã ou de conformidade filosófica. Desse drama emocional que apenas transparece em linguagem evasiva, fica o sentimento de descrença perante a vida. Nas diversas camadas de entendimento que constrói, afirma e reafirma que somos todos desajustados, excluídos dos felizes mundos pintados por outros poetas, e que a única salvação seria abstrair, afastar-se da realidade. Já que não há solução no raciocínio frio e racionalista, rebela-se contra a natureza; nega Deus, mas alguém teria de responder pelos infortúnios de seu destino. Acaba por encontrar a sua musa justamente na dor, a dor consciente de que a vida é pueril, efêmera, finita, e é assim que acaba por reduzir o homem à simples matéria, um aglomerado de moléculas. A morte é o fim de tudo, mas para os que crêem há ainda uma esperança; mas não para ele, que não admite a vida espiritual. E porque a visão da morte não o deixa em sossego, luta por fugir, refugia-se no abstrato mundo das idéias, aí seu porto-seguro. Enfim, é torturado pela consciência, sofre a si mesmo e sofre também o sofrimento de toda a humanidade, o sofrimento do mundo. É a voz de uma existência absurda e paradoxal, na qual sempre um novo dia é, ao mesmo tempo, um dia a menos; enquanto cresce, também aos poucos, definha, imerso na contagem regressiva que o leva daqui, o presente, para o fim da vida. À concepção de animais racionais não prescinde a consciência, portadora da certeza de que o fim chegará, e contra ele não há como lutar. Será comido, devorado pelos vermes; o corpo, fiel invólucro que envolve, sustenta e condiciona, será reduzido a pó, ou “apenas cabelos”, como no poema “Psicologia de um vencido”. Enfim, a matéria é mostrada em decomposição, putrefata. É desse modo que, ainda nesse poema, se considera um vencido, inconformado com a idéia de um dia ser roído pelos vermes. É certo que há poemas também a tratar de amor – “A ilha de Cipango”, “A árvore da Serra” -, contudo, também neles não deixam de constar desventuras, visões sombrias e sofrimentos inexeqüíveis. É uma alma outrora apaixonada, que agora sofre atormentada e vaga solitária, perseguida por visões alucinadoras. Pessimista, angustiante, tétrico. Por esses motivos aqui explicitados e também outros mais, o livro “Eu” foi tomado por exótico no momento em que apareceu na literatura brasileira. Tanto é que o tipo de poesia que propunha foi taxado por alguns de seus críticos (João Lélis; Álvaro de Carvalho), muitos inclusive conterrâneos do próprio poeta, como de importância duvidosa, por constituir um modelo original, porém sem seguidores, assim mesmo como ocorreu em outros países, com autores como Rimbaud e Edgar Allan Poe. Ora, exigir que toda produção intelectual se enquadre nos cânones estabelecidos e vigentes em determinada época é, no mínimo, negar o caráter libertador e revolucionário de tudo o que se reveste sob o signo “arte”, é retirar do artista o poder criativo, é negar-lhe mesmo a essência do fazer artístico. Em tempos – como chamados – pré-modernistas, uma fase marcadamente transitória, fazer tal afirmação (a de que este tipo de poesia é de importância menor, pois não gerou seguidores) é realmente contraditória. Sabido é que a vida é o material do artista e, além disso, um ponto-de-vista; assim como são deiferentes as pessoas, também o são seus ambientes, seus sentimentos, suas mentes. Exigir que Augusto repetisse ao menos temática ou linguagem, já devidamente consagradas, seria retroceder, partir em direção contrária. Distinguir-se dos contemporâneos, certamente, não foi escolha do autor, era apenas o modo como produzia, e como pensava. Nas palavras do próprio Augusto: “Eu hoje só vivo para a desgraça”. Desgraça: o drama mais doloroso de sua consciência. Além disso, críticos não devem, não podem exigir, moldar ou apontar caminhos para a produção cultural de um dado momento; seu trabalho é outro. Devem sim procurar interpretar, analisar com minúcias as diversas variantes que constem das obras que lhes cheguem às mãos. Variantes! Se o que querem são constantes, que trabalhem apenas com a maior delas: a mudança. “Eu” é um livro único, representativo e importante e, se seu mundo ficcional é constituído pr monstros, cemitérios, alucinações, mórbidas visões, é porque assim o quis o seu autor; um artista igualmente único, de plena posse de sua capacidade criativa e com vontade de causar espanto. E assim como a morte, contra a vontade não há quem possa! P.S.: Hoje Augusto dos Anjos é cânone. “Eu” é o livro de poemas mais lido/reeditado no Brasil. - ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 36ª. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985. - GULLAR, Ferreira. “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”. In: ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia; com um estudo crítico de Ferreira Gullar. Rio de Jeniro: Paz e Terra, 1978. - INFANTE, Ulisses. Curso de literatura de língua portuguesa. São Paulo: Scipione, 2001. - NICOLA, José de. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione, 1998.