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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


03 dezembro 2008

O DESESPERO DE VERONIKA VOSS, de Reiner Werner Fassbinder

Inicialmente, vemos a personagem Veronika Voss relembrando alguns momentos de sua carreira como atriz. Depois, do lado de fora do cinema, ela na chuva. A impressão que primeiro nos vem é de que ela é perturbada. Na seqüência, na cena do bonde, as pessoas ficam olhando para ela e ela não quer se sentar, diz que falariam com ela, que a reconheceriam. O peso da fama pesa sobre suas costas. No encontro no café, com Robert (um jornalista esportivo que conhecera num dia de chuva e que lhe ofereceu proteção), ela reclama da luz; pede para que apaguem as luzes e acendam algumas velas. Ela fuma compulsivamente, parece nervosa; certamente é compulsiva. Pede 300 marcos ao Robert e diz que quando quer alguma coisa precisa conseguir. Ele dá o dinheiro; ela compra um broche. Ela tem um comportamento muito estranho, por sinal. Isso fica comprovado por ela devolver o broche e exigir o dinheiro de volta, situação que ficará clara mais adiante. Robert vai atrás da Dr.ª Marianne Katz, neurologista, para saber mais de Veronika, por quem está atraído, pois V. V. desapareceu e é cliente dela. À primeira vista, nos parece que V. V. é mantida em cárcere privado na clínica da doutora; impressão essa que, de certo modo, se mostrará parcialmente correta mais adiante. Veronika não consegue papéis no cinema há mais de três anos. Vemos também o envolvimento na história da namorada de Robert, que começa a ficar ciumenta por causa da senhora Voss. Veronika, claramente, vive de seu passado, do tempo em que brilhava no cinema. Ela parece maluca, cria uma série de situações: pergunta se Robert tem carro e diz que quer passar a noite com ele. Ele abandona a namorada e vai. Veronika lhe diz que gosta de seduzir homens indefesos. Nesse ponto, a narrativa pula para o passado: Veronika está junto ao marido roteirista – aliás, durante todo o filme ela se apresenta como “casada”; mais à frente descobriremos, pela boca desse roteirista, que eles se encontram separados; ele e Robert bebem e “choram” juntos a condição na qual Veronika se encontra atualmente. Dessa seqüência no passado, destacamos a fala de Veronika ao marido, àquela época: Quando uma atriz interpreta um papel em que quer agradar um homem ela precisa ser todas as mulheres do mundo em uma. Voltamos ao “presente”; o flashback tratava-se de um sonho de Veronika. Ela está tendo pesadelos e Robert vai ajudá-la. Ela grita; briga com Robert falando que ele quebrou o vaso, pergunta o que ele está fazendo na casa dela. Cai. Diz que não o conhece. Diz que está passando mal, sentindo dores e que precisa ir ao médico logo. Ela é apegada ao passado: diz a Robert que ele precisa comprar um vaso igual e colocá-lo no mesmo lugar, na casa dela. Certamente, ela vive do que foi, e não do que é. Descobrimos que tudo isso era só um plano para que ele a levasse ao consultório da médica, Dr.ª Marianne, que na verdade é onde ela mora. Ela o envolve, o seduz e faz dele o que bem quer. Ele é apenas um joguete nas mãos dela. Ela toma bebidas alcoólicas e comprimidos ao mesmo tempo; é nitidamente dependente de remédios. Na clínica, fazem-na vomitar os comprimidos. Robert fica obcecado pela mulher; chega a dormir na frente da clínica. A neurologista diz que ela tem distúrbios nervosos; que a casa em que veronika e Robert foram é dela. Aí é que percebemos, finalmente, o que sucede: V. V. é uma viciada. Recebe contrato para uma filmagem de dois dias, mas não é mais a grande atriz que pensava ser; não consegue se concentrar, diz ter orgulho, e que não usaria as lágrimas de glicerina para poder chorar em cena, mas o diretor a obriga a usá-las. Robert está lá acompanhando as gravações. Depois desse fracasso profissional, descobrimos que a médica é quem vende a droga para ela; trata-se de morfina. Robert promete ajudá-la; reafirma que é “o guarda-chuva e a proteção” dela, como aconteceu lá na cena do início, na qual os dois personagens se encontram na chuva. Dr.ª Katz extorque os pacientes, por causa da morfina, como ocorre ao casal de velhos (os Treibel), que acabam por lhe dar a casa com as obras de arte. A doutora fica também com a casa de Veronika. Robert e a namorada – apesar da traição ela continuou ao lado dele – descobrem o tráfico de morfina feito por Marianne. Isso rende a morte da companheira de Robert, pelo pessoal da clínica. Ela é atropelada e eles trocam a receita para morfina, que ela recebera da doutora e carregava na bolsa, por outra, de um calmante leve. Assim, quando Robert acusa o esquema, não há quaisquer provas. Quando a polícia interroga V. V., ela mente, por causa da morfina que ela obtém da médica. Armam uma grande festa para Veronika, e planejam o suicídio dela, devido à abstinência de morfina. Então, V. V. é deixada sozinha, trancada no quarto, e se enche de comprimidos. O jornal que Robert lê na redação traz a seguinte manchete: Estrela da UFA toma overdose de barbitúricos. Robert acaba por não publicar nada da história sobre a clínica que servia de fachada para tráfico de morfina; ele simplesmente aceita a situação e vai embora. Continua sua vida. Com base nisso, podemos concluir que Veronika Voss é uma personagem carente, depressiva, dependente química, que costuma intercalar momentos de lucidez com crises alucinatórias; ela parece vestir a “máscara” de atriz em todos os momentos de contato social; ela interpreta a si mesma, no papel de grande atriz do cinema.

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