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16 dezembro 2008

A DIVERSIDADE DE FALAS E ATOS NO ROMANCE “A REPÚBLICA DOS BUGRES”, DE RUY TAPIOCA

O romance de estréia do escritor baiano Ruy Tapioca apresenta-nos uma narrativa que compreende a chegada da família real ao Brasil (1808) à Proclamação da República (1889), contada de modo “não-oficial”, ou seja, aquela trama “secreta” na qual repousariam as verdades históricas. Tal opção pela “verdade histórica” já se faz presente de imediato, logo no início do romance, que começa com um conceito de Honoré de Balzac: "Há duas histórias – a história oficial, mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, uma estória vergonhosa". Sua opção, como dito, é pela segunda, a secreta, a vergonhosa. Vencedor do Prêmio Guimarães Rosa do Governo do Estado de Minas Gerais, o romance de Ruy Tapioca impressiona tanto pela seriedade da pesquisa dos fatos históricos que o embasam, quanto pela riqueza da linguagem e a segurança com que a narrativa foi construída. Trata-se de um romance histórico, em tom picaresco, na visão das classes subalternas, dos excluídos, representados por um suposto filho bastardo de Dom João VI, que se torna mestre-escola, e um filho de escravos, que chega a ser capelão do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai. A partir de uma ampla pesquisa bibliográfica e de linguagem, Ruy Tapioca construiu uma estória divertida, muitas vezes hilariante, que se impõe como crítica social ao Brasil de ontem e hoje. Foram dois anos de pesquisa em 58 livros de história e em dicionários de iorubá e português medieval, pinçando expressões de época, e mesmo palavrões. Depois desse período de pesquisa, o autor passou mais um ano e meio lapidando o texto que, no resultado final, parece ter saltado das crônicas da época. Assim, personagens reais como Dom Pedro II, o líder negro Dom Oba, Machado de Assis e o padre Luiz Gonçalves dos Santos, mais conhecido como Padre Perereca, se somam a personagens fictícias. A engenhosa trama é contada por duas personagens: Quincas, o filho bastardo de Dom João VI, e Jacinto Venâncio, ex-escravo que vira padre. Misturados a ponto de ser difícil dizer quem é quem, desfilam por um Rio de Janeiro reconstituído em seus mínimos detalhes. Há também a figura de outro negro: o escravo Anacleto (pai de Jacinto Venâncio), que vê no filho a esperança de mudar a situação dos negros no país, pois ele aprendeu a fala dos brancos, é letrado, e poderá promover a mudança a partir do núcleo do meio social dominante. O interessante de fato nesse romance é a multiplicidade de formas pelas quais as personagens se expressam verbalmente: Anacleto possui seu modo característico de falar, enquanto representante do escravo estrangeiro; Jacinto fala igual aos brancos, já que nasceu em terras brasileiras e tem um padrinho que lhe ensinou o português “nobre”; os portugueses falam um outro português etc. Compare-se, por exemplo, a diferença de vocabulário entre pai e filho: “_ Fio, tuma cuidado módi num ranhá os taco da sala cum as pátula, sinão vai sobrá chibatada pra nóis.” - Anacleto. “_ Valha-me São Benedito! [...] E por que vocês não reagiam? Por que não se rebelavam?” – Jacinto Venâncio. Enquanto Anacleto (velho escravo) apresenta várias marcas de oralidade, tuma, módi, ranhá, cum, pátula etc – habilmente reproduzidas na modalidade escrita da língua -, Jacinto se expressa através de uma linguagem marcadamente erudita, correta para um filho de escravo. Note-se ainda a fala de um dos tenentes portugueses, na relação com os dois negros: “_ Tu, aí, ó negrinho biltre, anda cá! — gritou, dedo balofo apontado para Jacinto Venâncio. — Leva esta jarra de vinho, agora mesmo, para a sala do trono! Avia-te!” - Tenente. E a seqüência da narrativa é surpreendente, na medida em que exemplifica a particularidade das relações existentes na sociedade escravista da época, ainda, sobretudo, no que se refere à diferença nas falas das personagens: [...] “Jacinto não se fez de rogado: nariz empinado, apanhou a jarra, cheia de vinho, das mãos do tenente. Este, ao reparar Anacleto raspando o chão, de quatro, traseiro voltado para a porta, não resistiu e aplicou-lhe vigoroso pontapé nos fundilhos: "Levanta esse rabo, negro sujo! Não estás a perceber um oficial português no recinto?". Ato contínuo, puxou o jaquetão do uniforme por debaixo do cinturão e afastou-se da sala, ruidosamente, batendo o solado das sapatorras nas tábuas do piso. O negrinho pousou a jarra de vinho no soalho e foi ajudar o pai, caído de bruços, esparramado sobre a sujeira das velas”. [...]. A fala de Anacleto é a costumeira: _ “Num foi nada, fio, dexa istá qui num foi nada. Vá acumpri cum as órdis do nhonhô oficiá, vá, fio!”. Mas Jacinto “responde” de maneira mais matreira: “Jacinto Venâncio caminhou em direção à jarra de vinho pousada sobre o piso, olhou para os lados, tirou o pinto para fora e urinou dentro do vasilhame, sob o olhar apavorado de Anacleto”. Esses e muitos outros exemplos nos permitem apreender que as relações entre oficiais, escravos e negros libertos era demasiado complicada. A singularidade com que são registradas no romance essas diferentes variantes da língua transforma “A República dos Bugres” num rico documento a cerca da multiplicidade cultural formadora da atual população brasileira. - TAPIOCA, Ruy. A república dos bugres. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. (trechos citados: pág. 44-49).

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