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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


22 novembro 2008

NOUVELLE VAGUE

Pode-se dizer que as origens do movimento cinematográfico conhecido por Nouvelle Vague remetem ao pós-guerra francês e à figura de Henri Langlois, programador da Cinemateca de Paris. Dotado de um gosto notadamente eclético, no que se refere à filmes, Langlois projetava clássicos (principalmente os americanos) dos mais variados gêneros, com isso oferecendo aos jovens que transitavam em torno da sala situada na rua Troyon, inicialmente, e na Avenue de Messine, mais a diante. Embora não tenha sido realizador ou crítico, teve papel fundamental na formação dos futuros cineastas, que o defenderam da tentativa infrutífera por parte dos governantes franceses de afastá-lo da direção da Cinemateca – alegaram desvio dos padrões esperados para a função -, quando do Maio de 68. A geração de jovens intelectuais que se formou nas salas de projeção parisienses, cujo crítico mais célebre é André Bazin, como forma de oposição à “qualidade francesa”, em visão afinada com os clássicos americanos que enfim chegavam ao país (as remessas de filmes haviam sido interrompidas, por causa da guerra), passaram a buscar nesses filmes marcas de estilo que, segundo eles, certos diretores da “usina dos sonhos” (leia-se “Holywood”) conseguiam imprimir em suas obras; mesmo inseridos naquele rígido sistema de produção. Eis, pois, que procederam ao exame dos filmes de Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, William Wyler, Elia Kazan, entre outros, dentre os quais Hitchcock foi o preferido. Os jovens críticos franceses, dos quais os nomes mais importantes são Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Claude Chabrol, os turcos, como foram chamados, tendo por veículo a reista Cahiers du Cinema, viram na já citada “marca de estilo” o ponto de partida para a instituição de um novo modelo estético a se contrapor ao cinema tradicional francês: “A política dos autores”. Nele, além do cinema americano “autoral”, também o neo-realismo italiano foi reconhecido e nele se baseou; Roberto Rossellini, diretor de “Roma, Cidade Aberta”, “Alemanha, Ano Zero” e “Viagem à Itália”, entre outros títulos conhecidos do movimento italiano, foi por eles retomado em suas principais características, como o despojamento da câmera, a filmagem em locações, a absorção do acaso na narrativa etc. Após breve período produzindo curtas-metragens, os jovens da Cahiers estrearam seus primeiros longas, dos quais Os Incompreendidos (1959), de Truffaut, e Acossado (1960), de Godard, são os exemplos mais notórios. Realizados ao estilo neo-realista (em locações, com não-atores e/ou atores amadores, luz natural), os dois filmes foram sucessos de público – cada um vendeu cerca de 400 mil ingressos -, que a essa altura já não agüentava mais as velhas caras do cinema tradicional. Acossado, por exemplo, valeu-se do rosto de Belmondo, não conhecido até o momento, para dar vida a Michel, protagonista do filme. Michel é um ladrão que planeja roubar um carro para poder fugir com a namorada americana para a Itália; é perseguido pela polícia durante todo o filme, e sempre escapa; é o típico malandro golpista. Realizado com poucos recursos, o que mais chama à atenção é o “deslizamento” da câmera pelos cenários, o que acaba por nos apresentar uma incrível fluidez narrativa; há artifícios ousados que criam um distanciamento em relação à impressão de realidade como, por exemplo, os jump-cuts, que se tornariam característicos dos filmes de Godard. A Nouvelle Vague, em última análise, foi um turbilhão, um sopro de renovação no tradicional cinema francês e mesmo mundial, na medida em que se contrapunha técnica e esteticamente aos preceitos do cinema clássico narrativo; turbilhão que veio e abalou as estruturas, influenciou realizadores os mais diversos (veja o caso do Cinema Novo ou Cinema Marginal, por exemplo), e desestruturou-se progressivamente no seio do próprio núcleo de jovens críticos/realizadores que lhe deu origem. - MANEVY, Alfredo. Nouvelle Vague. In: MASCARELLO, Fernando (org.) História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.

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