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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


06 novembro 2008

NEO-REALISMO ITALIANO

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Itália encontrava-se arrasada moralmente no que se refere ao modo de vida de sua população: trabalhadores urbanos não conseguiam emprego, trabalhadores rurais deslocavam-se para as cidades, a reforma agrária não ocorreu, o fascismo controlava um país em ruínas, enfim, toda uma série de infortúnios acometia a sociedade italiana da época. Nesse panorama infeliz, a possibilidade de revolução emergia como uma promessa esperançosa de renovação daqueles ares pesados; Tal empreitada ficou a cargo dos intelectuais de esquerda (principalmente os comunistas do PCI – partido comunista italiano), desgostosos com a situação político-social de seu país. Contudo, esses intelectuais não souberam traduzir a nova cultura que visava a tomada de consciência do povo, no que se refere à reflexão de sua condição, em práticas satisfatórias que realmente ousassem transformar a realidade. Em meio a toda essa agitação política, novas maneiras de se fazer cinema começam a despontar, com o intuito de responder às necessidades de transformação de uma sociedade em frangalhos. Contudo, tal modificação se deu de maneira mais vagarosa da que ocorreu com a literatura e com as artes visuais, que rapidamente se alinharam à nova concepção artístico-ideológica que se originava. Nas eleições de 1948, a Democracia Cristã (DC) vence com folga e provoca novo retrocesso no desenvolvimento daquilo que surgia no cinema italiano: o neo-realismo. Embora existam discordâncias por parte dos estudiosos da área, há um certo consenso ao apontar os grandes nomes do “movimento”; seriam eles: Roberto Rossellini (segundo Fellini, o único “verdadeiramente” neo-realista), Vittorio De Sica e Luchino Visconti. Esses três realizadores produziram algumas obras cujas características básicas, mais ou menos recorrentes, que se lhes atribuem constituir-se-íam os pontos em que repousam essa ideologia. Por exemplo, o predomínio de filmagens em exteriores, nas ruas, com paisagens naturais; o emprego de atores não-profissionais (ou não-atores, gente do povo); a ausência de gravações de diálogos (os filmes eram dublados posteriormente); o uso de dialetos ao invés do italiano “oficial”; a tentativa de captura do real, mesmo que recriado. Podemos destacar como filmes essencialmente neo-realistas: Roma, Cidade Aberta (1945), Paisá (1946), Alemanha, Ano Zero (1948) de Rossellini, Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio de Sica, e A Terra Treme (1948), de Luchino Visconti. Há alguns pontos de mistificação sobre o que foi o neo-realismo: por exemplo, no que tange à utilização de não-atores, muitos esquecem de dizer que também foram utilizados atores consagrados (Ana Magnani e Aldo Fabrizi, por exemplo), e que nem tudo o que se acredita rodado em locações (externas) realmente o foi, pois alguns dos “cenários” foram reconstruídos em estúdio mantendo-se a impressão de realidade que se propunha conferir. Nisso, o cineasta e crítico brasileiro Alex Viany foi certeiro ao definir que o que importa era a intenção de reproduzir aquele momento histórico e de fazer com que o espectador refletisse a cerca de sua própria realidade. Desse modo procurou-se discutir o que acontecia (ou não acontecia) em meio àquela nação que se pretendia reconstruir da melhor maneira possível, através da lúcida tomada de consciência do povo – sobretudo das classes trabalhadoras -, o que, evidentemente, não foi visto com bons olhos pelos fascistas, num primeiro momento, e pelos católicos, logo em seguida. Estes últimos aplicaram uma série de barreiras ao produto com o “rótulo neo-realista” (censura, cortes, não financiamento das produções, desrespeito às leis de proteção ao filme nacional, facilitação de inserção do filme estrangeiro etc), o que ajudou a capitular com o período/proposta – note-se que os primeiros filmes neo-realistas tiveram boa aceitação por parte do público. Após o “turbilhão” neo-realista (compreendido entre 1945-48, ou até 1952 numa visão mais abrangente), outra “onda” se seguiu: a princípio, o “cinema crítico” (realista), expressão cunhada por Guido Aristarco com base nas reflexões do húngaro Lukács – expressão essa que foi criticada por referir-se a uma suposta superação do neo-realismo; e então, um “realismo subjetivo” – em oposição ao “realismo objetivo”, a proposta neo-realista propriamente dita -, mais intimista, que teve por nomes mais significativos Federico Fellini e Michelangelo Antonioni. - FABRIS, Mariarosaria. Neo-realismo italiano. In: MASCARELLO, Fernando (org.) História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.

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