Loading...

It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


06 novembro 2008

“MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS”: DO TEXTO À TELA

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, um filme baseado na obra de Machado de Assis. Ao verme que primeiro roeu as frias carnes de meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas. Memórias Póstumas Brás Cubas Abreviaturas: BC – Brás Cubas LN – Lobo Neves QB – Quincas Borba O presente trabalho visa seguir a transposição do texto “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o filme homônimo. Para tanto, será utilizado como método de trabalho a via inversa, ou seja, a partir da descrição pontual (cena a cena) da obra cinematográfica, procurar-se-á discutir a narrativa machadiana. Vamos a ela. O filme inicia-se com a tampa do caixão sendo fechada; então o enterro no cemitério. Os raciocínios do narrador Brás Cubas (Reginaldo Faria) são exatamente iguais aos do começo do livro. Assistimos à chuva no enterro. Diz-se que morreu aos 64 anos. FADE TO BLACK. FUSÕES. Quadros (pinturas) que representam o Rio de Janeiro da época. O narrador diz: morri há mais de cem anos, no Rio de Janeiro. O filme dá um salto temporal de cem anos, atualiza a história. Diz que morreu de uma idéia, uma invenção sublime, o Emplasto Brás Cubas; e que morreu, “fisicamente”, de uma pneumonia. Vemos Virgília. Há então a suspensão da narrativa, igual ao que se dá no livro: você, espectador, que já se remexe aí na poltrona, tenha calma... Daí seguem-se representações bastante teatrais, como quando Brás Cubas se vê transformado na “Suma Teológica”. BC montado num hipopótamo. O frio, neve. O cenário também é bem teatral, há um predomínio da cor branca. E continua a nevar. Imagens que passam, fumaça, então volta ao enfermo na cama; Virgília (Viétia Rocha) está em frente a ele. 20 de outubro de 1805 nasceu BC. Doutor Vilaça (Walmor Chagas) glosa. O filme trás uma direção de arte pomposa, através da qual tenta conservar o humor do romance. Todos os principais episódios do romance estão lá, condensados: Vilaça recitando os poemas, o menino Brás Cubas (Alfredo Silva) esperando a sobremesa, Vilaça cortejando a moça no jardim. BC vê o beijo dos dois e sai correndo contar pra todo mundo. O Vilaça beijou a Dona Eusébia (Débora Duboc). Novamente o narrador, Brás Cubas, volta à cena, pra dar mais um salto na história. Aqui, entretanto, detemo-nos um pouco mais, pois há duas passagens interessantes do romance não reproduzidas em tela: 1) a descrição do menino BC na escola e o que os alunos faziam do pobre professor, além da primeira citação a Quincas Borba: [...] Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras. [...]. [...] Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. [...]. (Cap. 13). Há um movimento interessante da câmera: parece que o narrador é “erguido” pelo quadro. O referido salto na narrativa se dá através do famoso quadro da Independência do Brasil, o Dia do Fico. Passamos às ruas. Vemos homens com tochas. Ao fundo, na trilha sonora, além dos limites da diegese, temos instrumental do Hino da Independência: ...ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. E na rua, novamente aparece o narrador BC, justamente quando surge na história, Marcela (Sônia Braga), sua primeira paixão. Linda Marcela... Os presentes que BC dá a Marcela são mostrados: eles estão deitados na cama, ela olha no espelho a coroa que ele deu. Interpretações bem fracas, teatrais. Passamos ao barco, e em seguida, a Portugal. Lá vai o calouro Brás Cubas (Petrônio Gontijo). Nas cenas da universidade de Coimbra a fotografia é mais amarelada. BC se forma na universidade, bacharel em direito. Vemos BC num burrico passeando pela Europa. Conhece vários países, várias mulheres. São mostradas imagens de algumas delas sobre a imagem principal de BC, pensativo. E eis que ele recebe a carta do pai, informando que a mãe está muito doente. Nisso, aparecem na mesma cena em que ele lê a carta, a voz e a imagem da mãe, a voz e a imagem do pai (Stepan Nercessian). Artifício muito pobre, diga-se de passagem, recurso televisivo. Novamente a passagem se dá através das imagens de quadros, que trazem sempre ao fundo a representação do Pão de Açúcar. FUSÕES. Detalhes dos quadros, não mais eles inteiros. Pinturas e mais pinturas. Novamente no Brasil. BC está aos pés da cama da mãe, que está enferma. Passamos à fazenda, na Tijuca. E eis que entra em cena, novamente, o narrador. O narrador fala diretamente para a tela, “conversa” com o espectador; algo similar, guardadas as devidas proporções, das conversas do autor/narrador nos textos escritos. Encontra Dona Eusébia; ela o leva a casa dela; quer saber como foi a vida dele em Lisboa; aparece a filha de Dona Eusébia, a Eugênia (Milena Toscano). A menina entra e ele não vê que ela é coxa, mas já escutamos o som dos passos mancos da moça: cuidado bastante louvável na construção da narrativa. Uma borboleta preta entra na sala onde se encontram, pousa em Dona Eusébia. Ela percebe os olhares de BC sobre a filha. No dia seguinte, percebemos – e isso antes do próprio Brás Cubas – que a moça manca um pouco. Não vamos além, pois ela trás uma saia que lhe cobre inteiramente os pés, mas algo já nos é plantado no espírito. Ele enfim percebe e acaba sendo indelicado: pergunta se ela machucou o pé. Ela é direta, responde: Sou coxa, de nascença! Então passa a mancar mais; um exagero, que se pode chamar de overacting. Surge uma borboleta azul, BC a apanha e a liberta. O pai de Brás reaparece e o intima a voltar ao Rio, com o intuito de lhe arranjar uma posição de deputado e um casamento. E eis que fala de Virgília, a noiva que tem pra BC. E novamente, o narrador entra; voltamos àquela cena que ficara suspensa, congelada desde o começo, com Virgília à beira da cama do enfermo BC. O BC, narrador, entra pela porta da sala de jantar, quando o jovem BC e o pai estão conversando sobre a volta daquele ao Rio, depois passa pela cena do leito, onde encontramos Virgília, jovem, em frente ao espelho se arrumando, BC sai pela porta desse cômodo, CORTE, e voltamos à cena da casa da Tijuca, onde temos pai e filho (BC jovem e o pai) tomando café; BC narrador entra pela mesma porta que ele havia entrado antes desses movimentos todos – quatro cenas atrás -, a cena do café estava “congelada”; o pai de Brás mantinha suspensa a xícara de café,; assim que o narrador entra retoma-se a ação: baixa a xícara, continuam o diálogo e o narrador sai pela porta pela qual acabou de entrar. Há bastante tons de amarelo na fotografia e na própria direção de arte. Brás não volta ao Rio de Janeiro, e vai atrás da menina coxa. Dá um beijo em Eugênia. Volta o narrador Brás Cubas, que novamente fala com o espectador. E lá atrás da cena, atrás desse narrador, vemos o jovem BC e Eugênia passeando, vendo a propriedade da Tijuca. O narrador fica refletindo e novamente conclui: ela era bonita... mas coxa! BC vai embora da Tijuca. E voltamos a Virgília, praquela mesma imagem dela em frente ao espelho, está risonha e tudo mais. Note bem, leitor, “risonha”. Aqui emendamos a reflexão do narrador do original: [...] Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? [...]. (Cap. 149). O pai de BC o apresenta à família de Virgília. Ela entra em cena, no baile; volta a trilha sonora instrumental, um piano; Virgília e Brás Cubas ficam a se olhar. FADE TO BLACK. FADE FROM BLACK. Agora, sobre a trilha, temos uma parte cantada. Um beijo acontece entre os dois e ouvimos a voz do narrador, mas agora ele não aparece em cena (VOZ OFF do narrador). FADE TO BLACK. FADE FROM BLACK. Voltamos à rua e vemos Brás Cubas vagando. Cai a tampa de seu relógio no chão. Ele entra no primeiro estabelecimento que encontra e lá reencontra Marcela, a espanhola. Plano DETALHE naquele colar com os cinco rubis, que ele havia dado a ela. Ela o reconhece imediatamente. Está adoentada. Ele tenta se retirar, mas ela puxa o relógio de suas mãos, chama seu ajudante, o Cosme, e lhe entrega para que possa consertar. Vemos o negro sair com o relógio, BC se senta, Marcela diz que sentiu saudades dele, ele diz que também sentiu, e aquele blá-blá-blá todo. Cosme volta, BC paga pelo serviço; há um PRIMEIRO PLANO nele, depois ela, um sorriso dela, e o narrador volta em VOZ OFF. Interessantes os movimentos que ocorrem do lado de fora da “relojoaria” de Marcela: primeiramente, vemos o negro sair pra consertar o relógio. Lá fora um outro negro briga com um burrico, que parece empacado ali; no plano que tem o negrinho voltando com o relógio consertado, vemos aquele mesmo negro que estava brigando já em cima daquele burrico, ele o conseguiu dominar; e no momento final, quando vemos BC sair com o relógio consertado, temos novamente o negro brigando com o burrico, que foge, enquanto o negro lhe persegue. E daí passamos a uma festa. A voz OFF do narrador. E eis que aparece o Lobo Neves (Otávio Müeller), futuro marido de Virgília. É ele quem rouba Virgília de Brás Cubas e a posição de deputado. A tosse do pai de Brás Cubas (querendo indicar que Lobo Neves está conversando com virgília e Brás está ali deixado de lado) não é correspondida pelo pai da moça, ele não dá a mínima. Corta-se para a cena de Lobo Neves conversando com Virgília. A tosse exagerada, bem teatral, continua ao fundo. Ele continua tossindo, mais e mais, mesmo ao chegarem em casa (Brás e o pai). Ele está desgostoso da vida: Isso foi acontecer a um Cubas! Um Cubas. Um Cubas. É a origem da enfermidade que o levará à morte. Repete várias vezes, em várias cenas (à cama, à mesa), e continua tossindo: Um Cubas. Um Cubas. Um Cubas. Várias cenas rápidas que encadeiam essa enfermidade do pai de BC. E volta a voz OFF do narrador. Morre o pai de BC, passa-se ao seu velório. Várias senhoras e senhores de preto. O narrador, em OFF, reflete. O filme é muito didático. Quando o narrador está refletindo a respeito da função do nariz, há um movimento de câmera, uma PANORÁMICA leve, que vai exemplificando o que o narrador diz: serve para segurar os óculos, e aparece um homem de óculos; vemos uma mulher “vesgeando” ao tentar olhar o próprio nariz. Corta para o narrador, que aparece em cena, numa sala que permite ver onde está ocorrendo o velório e ele continua suas reflexões. A narrativa segue didática, tudo ali está explicadinho: vemos um homem sentado e olhando a ponta do próprio nariz e esse homem flutua. Depois da divagação, retorna-se à sala do velório, onde vemos várias pessoas estrábicas, olhando para o próprio nariz. O que exemplifica, claro, a reflexão do próprio Brás Cubas, que também passa a olhar para a ponta do próprio nariz. Acaba por concluir que o nariz é o equilíbrio do ser humano. Vemos BC à escrivaninha, escrevendo, pela câmera que vem se movendo atrás dele. A voz OFF do narrador. Vemos BC na rua, novamente, cortejando várias mulheres, cumprimentando-as, retirando o chapéu para depois recolocá-lo na cabeça. Volta à escrivaninha, escrevendo. INSERTS da cena do casamento de Lobo Neves e Virgília. Voz OFF do narrador. Escrivaninha. Olha para a ponta do nariz. Reflete. Temos novamente aquele artifício “televisivo” da projeção, desta vez na parede em frente à escrivaninha, de várias imagens, desenhos, como se fossem sombras. E a trilha sonora instrumental segue rolando. Aqui seria o ponto no qual BC se percebe apaixonado por Vigília – o que não fica claro no filme -, em meio aos pensamentos, qual acontece no romance: [...] De certo tempo em diante não ouvi coisa nenhuma, porque o meu pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direção da casa de Virgília. Aí achou ao peitoril de uma janela o pensamento de Virgília, saudaram-se e ficaram de palestra. Nós a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os dois vadios ali postos, a repetirem o velho diálogo de Adão e Eva. [...]. (Cap. 54). Outra passagem de tempo, dessa vez falada pelo narrador em voz OFF. O jovem BC revê virgília e o marido, que acabam de retornar de São Paulo. Ele acha que ela está mudada. Uma semana depois eles se encontram num baile. Vemos BC cumprimentar o casal. A fotografia segue amarelada. BC e Virgília valsam três vezes pelo salão, e então param. Novamente BC caminha pela rua, e volta o narrador, o velho Brás Cubas, que no caso joga aquela moeda que o BC jovem encontra no chão, no caminho para casa. Bastante interessante essa interação/interferência do narrador Brás Cubas na história. Vemos um beijo de Virgília e BC ao portão da casa dela. LN chega em casa no momento em que os dois estão conversando. Vemos BC esganá-lo. Tudo bem teatral, é claro, o que dá o efeito cômico desejado. Volta o narrador, que separa os dois: outra “intromissão” interessante. Os dois ficam olhando para ele e voltamos à mesma cena, ou seja, LN entrando na sala. Desta vez, BC o cumprimenta e fica tudo por isso mesmo. Na seqüência, passamos à rua com o narrador, que nos mostra a casinha que servirá de encontro aos amantes. Ali, na frente dessa casa, está aquela senhora, Dona Plácida (Nilda Spencer), que os ajudará a fazê-lo, ao se passar pela suposta dona da casa. Vemos, então, os dois se amando ao fundo do quadro, que se encontra embaçado, e em PRIMEIRO PLANO, o narrador BC olhando diretamente para o espectador (para a tela), se divertindo com a situação, num misto de vergonha e orgulho do que está acontecendo lá atrás. Está para dizer alguma coisa, mas acaba não dizendo nada. Digamos por ele, ou melhor, colemos de Machado: [...] Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque entre uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer. [...] (Cap. 6). Depois, passamos a voz OFF do narrador e vemos BC numa externa, sentado num banco. Aparece o mendigo Quincas Borba (Marcos Caruso) puxando um cachorro consigo. Muito interessante a aparição do Quincas Borba, mal-trajado, carregando um cachorro e o diálogo que sucede entre ele e BC. QB rouba o relógio, aquele mesmo de outro momento, e vemos BC dar por sua falta. Volta a voz OFF. Há um paralelo interessante nessa passagem e na descrição de QB, feita nas páginas do livro: [...] E alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente. [...]. (Cap. 59). LN conta pra BC que talvez tenha que assumir a presidência de uma província no norte; Virgília está presente na sala. LN anuncia publicamente que Brás será o secretário. Aparece um plano DETALHE do Jornal do Comércio; temos um ZOOM nele; traz a notícia da nomeação de LN. O quadro abre e vemos BC lendo esse jornal. Virgília conta para BC que LN vai recusar a nomeação. Vemos a cena do porquê dessa recusa, LN diz que é por causa do dia 13 – dia em que foi publicada a nomeação -, maluquice/superstição da personagem. Volta ao dois; BC ri muito da história e volta a voz OFF do narrador. Os dois estão no alto de uma montanha; a narração do velho Brás Cubas permanece em OFF: tudo o que ele narra – os dois no alto da montanha, descendo os vales – é mostrado em imagens; novamente um recurso pobre, didático. Virgília desmaia; descobre-se que está grávida. BC fica todo animado com a notícia, e Virgília parece não gostar. Mas o embrião acaba morrendo precocemente. Não houve filho algum. Aliás, momento oportuno para dizer que o filho único de Virgília e LN, Nhonhô, constante do romance, em momento algum aparece ou é citado na adaptação fílmica. BC consola LN, quando ele, na verdade, também deveria ser consolado. LN percebe alguma coisa, talvez uma tristeza exagerada, uma grande consternação por parte de BC. E novamente isso fica bastante visível para o espectador. Outra mulher aparece na vida de BC, Nhá-Loló (Ana Abott), apelido carinhoso para Eulália. Mais uma daquelas festas. Neste filme há um grande uso de movimentos de câmera, do tipo DOLLY IN e DOLLY OUT (travellings: aproximações ou recuos frontais). A câmera é, também, sempre pouco angulada; apenas na cena do teatro/ópera temos essa opção estética. Em quase todo o restante, geralmente, são câmeras NORMAIS, retas. Nessa cena (a ópera), onde constam BC, Nhá-Loló, e várias outras figuras importantes da história, ai sim, temos várias angulações, como PLONGÉES e CONTRÉ-PLONGÉES. As reflexões de BC sobre a nudez humana são contadas no filme através da própria nudez dos atores/personagens, parcial, das pessoas na ópera. Interessante. Novamente é teatral, é claro, mas engraçado; aparece, por exemplo, LN tapando os seios da esposa com as mãos. Nessa passagem, duas faltas: primeiro, o ciúme de BC em relação a Virgília; e também a falta de uma das mais tradicionais características machadianas: a sua fascinação pelos braços femininos, o que, obviamente, não está ausente na obra original: [...] Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magníficos braços nus, - os braços que eram meus, só meus, - fascinando os olhos de todos, com o vestido soberbo que havia de ter, o colo de leite, os cabelos postos em bandós, à maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os olhos dela... Via-a assim, e doía-me que a vissem outros. Depois, começava a despi-la, a pôr de lado as jóias e sedas, a despenteá-la com as minhas mãos sôfregas e lascivas, a torná-la, - não sei se mais bela, se mais natural, - a torná-la minha, somente minha, unicamente minha. [...]. (Cap. 64). Segue-se outra citação, embora deslocada, que contradiz as reflexões do narrador, no que se refere à nudez humana (no romance ela consta do momento em que conhece Nhá-Loló, jantam juntos, e ele admira a beleza da moça: [...] Ao contemplá-lo, cobrindo casta e redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta sutil, a saber, que a natureza previu a vestidura humana, condição necessária ao desenvolvimento da nossa espécie. A nudez habitual, dada a multiplicação das obras e dos cuidados do indivíduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vestuário, negaceando a natureza, aguça e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilização. Abençoado uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlânticos! [...]. (Cap. 98). Só aqui fala-se o nome de Dona Plácida, a suposta dona daquela casinha na qual os amantes se encontravam. Aparece a primeira discussão entre os dois, Virgília e BC; vemos Dona Plácida ao fundo. Volta o narrador BC, que desta vez aparece através de um movimento de câmera, um DOLLY OUT angulado. Interessante: planos DETALHE de Virgília batendo os pés no chão, cruzando os braços. O narrador diz: aproximei-me e beijei a testa de Virgília. Nisso, vemos ao fundo, o jovem BC se aproximando dela. Há um corte. A câmera mostra um plano MÉDIO lateral dos dois, e quem beija a testa dela é o velho BC, o narrador, e nisso ele fala que ela recua como se fosse o beijo de um defunto. Muito interessante, cinematograficamente. Vemos Dona Plácida, dessa vez, num plano mais próximo, ela abre parte da porta de casa, e o narrador, a voz em OFF, fala que ela está vendo o LN chegar. Ela fecha a porta e corre para avisar os dois enamorados. Nesse momento ela fala: Ih, Nossa Senhora, aí vem o marido de Nhá-Nhá! Narrações em OFF. É nítida a desconfiança de LN, que entra na casa e fica procurando alguma coisa. Virgília contorna a situação, claro, e vai embora com o marido. BC sai do quarto em que estava escondido e Dona Plácida tem que segurá-lo pra que não faça nada, não vá atrás dos dois. É fato que Virgília e BC viviam um estado de mentira, o qual mantinham por medo da mudança e/ou simples comodidade, e até mesmo porque, de certo modo, a própria sociedade lhes permitia: [...] A veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas... [...]. (Cap. 87). E chega a carta do Quincas Borba para o Brás Cubas e o embrulho, que guarda um relógio; não o mesmo que lhe fora roubado, mas outro. Corte. QB está agora bem trajado, em visita ao BC. Quincas explica para o BC a criação da sua filosofia: Ao vencedor, as batatas! Voltamos a um DETALHE de jornal. Novamente ZOOM IN no jornal: outra nomeação de LN. E novamente abre para o Brás lendo a notícia. Agora a data é “31”. Plano DETALHE do jornal: o numero 31 é trocado pelo número 13, numa animação. Virgília e BC despedem-se; ela vai ficar fora por uns dois anos, com o marido. Planos mostrando as pernas de BC, o narrador fala em OFF, caminhando por várias ruas da cidade. Vemos o calçamento, chão de pedras, e apenas as pernas, às vezes só os pés calçados de BC. Muitos e muitos planos de pernas, pés, caminhadas, passando em várias ruas, descendo, subindo, descendo escadas, subindo escadas, até a câmera levantar num TILT UP e mostrar BC chegado em casa, onde QB vai lhe expor sua filosofia do Humanitismo. Aqui, novamente, uma ausência: o momento de deleite de BC ao saborear um belo (e caro) jantar. No romance, as pernas, sem que ele se dê conta do caminho, o levam a um restaurante: [...] Eram, e naquela manhã parece que o diabo do homem adivinhara a nossa catástrofe. Jamais o engenho e a arte lhe foram tão propícios. Que requinte de temperos! Que ternura de carnes! Que rebuscado de formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. Não guardei a conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! Era-me preciso enterrar magnificamente os meus amores. Eles lá iam, mar em fora, no espaço e no tempo, e eu ficava-me ali numa ponta de mesa, com os meus quarenta e tantos anos, tão vadios e tão vazios; ficava-me para os não ver nunca mais, porque ela poderia tornar e tornou, mas o eflúvio da manhã quem é que o pediu ao crepúsculo da tarde? [...]. (Cap. 115). Cena da briga de galos, na qual o pai de Nhá-Loló acaba não resistindo e participa. E o beijo ocorre: BC e Nhá-Loló. FADE TO BLACK. FADE FROM BLACK. E eis que temos o narrador BC, o velho, falando novamente ao espectador, de dentro de um cemitério. Eulália, Nhá-Loló, morreu aos 19 anos de idade, na primeira epidemia de febre amarela. Planos DETALHE de anjos, pintados dentro de uma igreja. FUSÕES. E o narrador em OFF. Animação, desenho da figura da morte. FADE TO BLACK longo. FADE FROM BLACK. BC velho passa, a partir de agora, a assumir a história. Ele está numa festa – um baile em 1865 - e revê Virgília. FADE TO BLACK. FADE FROM BLACK. SLOW de Virgília passando pelos salões e BC acompanhando essa movimentação. Agora temos dois BC velhos: um narrador, falando diretamente para a câmera, com a cara branca (tem pó de arroz no rosto), embaixo das escadas por onde passa Virgília, e o protagonista da ação (o mesmo ator), no alto dessas escadas, ao fundo, observando Virgília “desfilar”. Disso passamos às cenas das pessoas valsando; BC mesmo encontra-se valsando com uma moça. A trilha sonora se faz presente. O passado é rememorado, com melancolia: [...] Não busca no olhar de hoje a mesma saudação do olhar de ontem, quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e pé veloz. Tempora mutantur (os tempos mudam). Compreende que este turbilhão é assim mesmo, leva as folhas do mato e os farrapos do caminho, sem exceção nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, não inveja, mas lastima as que lhe tomaram o carro, porque também elas hão de ser apeadas pelo estribeiro OBLIVION (esquecimento). Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido. [...]. (Cap. 135). Temos novamente, após àquele baile, BC e QB conversando. Eles agora mais envelhecidos (BC já se encontra com 60 anos). E vemos BC na Câmara; tornara-se deputado. Ali reencontra LN. BC filia-se a uma ordem “secreta”; ele é mostrado ajudando os pobres e os enfermos. FADE TO BLACK. FADE FROM BLACK. Novamente o narrador, presente em cena, dizendo que reencontrou Virgília, na ocasião da morte do LN. Mostra-se a cena da morte do LN, que ocorreu em pleno exercício na Câmara, discursando na Tribuna. QB retorna, diz que queimou os manuscritos de sua obra filosófica, traz o olhar mais “amalucado”. Expõe suas novas idéias ao amigo. Passagens através de várias FUSÕES, numa espécie de arte performática de Quincas Borba. O narrador em OFF nos diz que ele morreu pouco tempo depois na casa de BC. FADE TO BLACK. No filme, não aparecem indicações, como se dá no livro, de que BC estivesse louco – sabemos que não estava; o louco era o próprio QB, e daí decorre a representação em forma de “arte performática”, citada acima. Podemos citar o narrador BC do romance para descrever QB do filme: A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido, mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos, tal objeção ficava sem valor. E vede se há algum fundamento na crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas. (Cap. 153). FADE FROM BLACK. Várias imagens do Emplasto Brás Cubas: folhetos ou coisa assim, que passam rápido pela tela. Dê adeus à melancolia, Emplasto Brás Cubas. Imagens e mais imagens: quadros (pinturas) de pessoas, em vários estilos diferentes (escolas/movimentos artísticos). Temos quadros, por exemplo, de Tarsila do Amaral na fase modernista, o que representaria um anacronismo, caso a narrativa fílmica não tivesse sido avançada em cem anos. E o áudio prossegue: Contra melancolia use Brás Cubas, o emplasto divino. E voltamos àquela reflexão sobre a “idéia fixa”. Aquela idéia se tornou uma idéia tão fixa, que eu resolvi abrir a janela para arejar e peguei uma pneumonia. É disso que ele acabou morrendo. Voltamos ao início da história: BC no seu leito e Virgília chegando, vestida de preto. Novamente reflexões do narrador BC, presente na cena, e vemos ao fundo Virgília à beira da cama do enfermo. E então, as reflexões finais de Brás Cubas: que saiu quite com a vida... Mas não, teve um saldo positivo: Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. [...] Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. [...]. (Cap. 160). E o narrador curva-se diante da câmera, para os espectadores, igual é feito no teatro, e desaparece. Virgília chora e sai de cena cabisbaixa. FADE TO BLACK. CRÉDITOS FINAIS. Pode-se dizer que a adaptação é, resguardadas as devidas proporções (omissões, na maioria das vezes), bastante fiel ao original. Segue proporcionalmente de perto o desenvolvimento da narrativa, e nos brinda com um interessante espetáculo cinematográfico ao manter o inteligente humor machadiano. REFERÊNCIAS: - ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. - Filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Roteiro, direção, montagem, produção: André Klotzel; Diálogos: José Roberto Torero. Filmado em Salvador, Rio de Janeiro, Três Rios, São José do Barreiro, Parati, Campinas, São Paulo e Coimbra (Portugal), 2000.

Um comentário:

  1. muito bom me ajudou a fazer meu trabalho trabalho exelente

    ResponderExcluir