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Têm dias em que a noite é foda.


06 novembro 2008

FILM NOIR

Ao tratarmos daquilo que se costuma chamar “Film Noir” é primordial salientar a irregularidade no uso desse termo. Embora qualquer cinéfilo nos afirme “o film noir é aquele tipo de filme escuro, de crime, com detetives e loiras fatais...”, acadêmica e/ou criticamente constata-se que, enquanto gênero, o Noir não existe. Ora, mas se há uma espécie de culto em torno desses filmes, o uso recorrente da nomenclatura e obras que se revestem sob tal signo, torna-se complicado negar-lhe a existência. De fato, estamos na presença de tema controverso, talvez igual à própria atmosfera que as obras nos apresentam: fotografia contrastada (reminiscências de Expressionismo Alemão), sombras bem delineadas, fumaça e confusão. Se nos é complicado definir o Noir, talvez mais fácil seja o acompanhamento de seu percurso histórico-existencial: surge por volta de 1940, e se estende até meados da década seguinte. O termo foi cunhado na França, no período pós-guerra, onde chegaram alguns filmes americanos com a estética. A adoção do termo se deu paralelamente à Política dos Autores - criação dos críticos franceses da cahiers du cinema -, devido à propagação ocorrida na Europa, e do relativo prestígio que se atribuiu aos filmes sob essa égide. Embora seja recorrentemente contestada, principalmente pela vertente acadêmica daqueles que debatem o Noir, a propagação da estética e sua relevância aparecem, mesmo nos argumentos que a princípio se pretendem seus detratores: é o caso de Vernet, que afirmando a não existência desse gênero, diz ser um objeto de beleza, ou seja, lhe atribui o estatuto de obra de arte. Infelizmente, para complicar ainda mais as coisas, qualquer sistematização do conceito que se pretenda elaborar poderá ser barrada pelo argumento de que o Noir pode ser confundido com outros gêneros: o filme policial, o triller e o filme de espionagem, por exemplo. Seus principais elementos técnico-estéticos são o uso de flashbacks, tramas complicadas (o que ajuda a desorientação do público), cortes bruscos de grandes closes para planos gerais em plongée, narração over do protagonista masculino, uso de lentes grande-angulares, a profusão de espelhos, escadas, janelas, ambientação urbana e noturna etc. Com o estabelecimento das principais características que se costumam atribuir àquilo que se designa por Film Noir, ao invés de “clarear” algumas áreas escuras, surgem ainda mais controvérsias: verifica-se, por exemplo, a quase impossibilidade de se seguir essa espécie de “fórmula do filme Noir”, porque poucos deles possuem todas, se quando muitas dessas características, o que promove uma movimentação de mão-dupla entre os filmes essencialmente Noir (os que apresentam vários pontos relacionáveis à estética) e os filmes Noir “marginais” (com alguma aproximação em direção daqueles). Há, também, toda uma tradição que procura apreender o Noir através de relações metafóricas. A femme fatale, tema recorrente na História da Arte, seria a representação, pelo ponto-de-vista masculino, do processo de liberação feminina iniciado no período do pós-guerra. Ainda do ponto-de-vista masculino (aliás, os protagonistas são quase que exclusivamente homens), as narrativas podem ser entendidas, ainda metaforicamente, como uma “crise de confiança na masculinadade”. No final da década de 70, finalmente, surge uma série de escritos (acadêmicos e cinefílicos) que se prupunham analisar o fenômeno (eis a palavra-chave para o entendimento do Noir). Com base nisso, pode-se afirmar que a constituição do Noir se deu a posteriori: definiu-se, com base naquelas características já citadas, o corpus dos filmes pertencentes ao fenômeno; relacionou-se a recorrência da aparição de tais características aos textos que lhes seguiram; e, por fim, ampliou-se ou diminuiu-se o corpus, ora englobando obras com algum ponto em comum com os da “tradição”, ora excluindo-se todos aqueles que pouco tinham a ver com o Noir. Mais ou menos por essa época, entramos em contato com algo um pouco mais distante: o Neo-Noir, ou seja, a retomada da consciência do fenômeno a partir das produções mais recentes, que podem ser entendidas, mesmo que superficialmente, como dedicadas à representação da crise de identidade masculina. - MASCARELLO, Fernando. Film Noir. In: MASCARELLO, Fernando (org.) História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006.

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