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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


05 agosto 2008

Aí vem "CORAÇÃO SOLITÁRIO"

CORAÇÃO SOLITÁRIO, curta-metragem de ficção, em digital, é um ensaio artístico/científico com imagens poéticas. A narrativa intercala a história de solidão (ou “histórias de solidão”), que contém quatro grandes temperos – amor, traição, violência e envelhecimento -, com imagens contemplativas que seguem o raciocínio de “Um Homem com uma Câmera”, de Vertov. O filme tem como referencial a cidade de Curitiba, e traz como mote central a máxima nietzscheana: “Não ouse roubar a minha solidão, se você não for capaz de me oferecer real companhia”. Partindo do pressuposto de que a solidão é uma constante universal da condição humana, ou seja, que a condição essencial do ser humano é estar só, e tendo em mente as diversas “estratégias” das quais as pessoas lançam mão para tentar escapar ou ao menos diminuir os sofrimentos dessa constatação melancólica, procurar-se-á com o futuro filme discutir algumas questões em torno do tema. Homens e mulheres vivem constantemente em busca do parceiro ideal, insatisfeitos que são com a própria realidade. Não se dão conta que apenas o que podem ter é o real, e tudo que dele provém: conflitos, desagrados, dissabores. Outras pessoas, mais práticas, buscam apenas parceiros, quero dizer, quaisquer parceiros, para que de certo modo possam preencher superficialmente alguma espécie de vazio existencial que lhes consome o espírito. Ora, se a hipótese inicial estiver correta (a condição essencial do ser humano é estar só), tal empreitada estará, inevitavelmente, fadada ao fracasso. A construção do filme procurará relacionar algumas características técnicas à idéia de solidão: 1) trata-se de uma história iniciada no ano de 1958. O passado por si só já traz consigo uma carga emocional carregada de melancolia; em relação aquilo que passou e não existe mais; a um tempo que afirma-se era muito melhor que o de hoje; uma nostalgia exacerbada por parte de quem o viveu. 2) A fotografia do filme é outro ponto a ser considerado: nas cenas do passado, imagens em preto-e-branco compõem a atmosfera melancólica, “cinza”, que de certo modo capta o clima da capital paranaense; já as cenas relativas ao presente são quase monocromáticas, pois há uma predominância substancial da cor branca. 3) Além de a história começar – e de certo modo acontecer – no passado (este tempo absolutamente memorável) e de ser narrada em p&b e branco dominante, outro fator importante é a relação entre frio e solidão que se procura estabelecer. Para que esse efeito ocorra, é importante que a captação das imagens ocorra durante o inverno curitibano (ou em dias de muito frio, mesmo não sendo no inverno), que embora enfraquecido pelo aquecimento global e outras coisas do tipo, ainda nos reserva algumas surpresas. Será necessário “captar” a sensação térmica no universo construído pela narrativa: as folhas das árvores balançando agitadamente, as roupas pesadas das personagens, os vidros embaçados de alguns ambientes etc...
4) A “cidade vazia”: O filme inteiro terá por espaços um vazio muito grande. São apresentadas, por exemplo, imagens do centro da cidade em dia de domingo: as ruas vazias, as lojas fechadas, apenas pombas nas praças. Apenas em poucos momentos – como em uma cena na qual o personagem principal entra numa festa e se sente oprimido socialmente, tímido naquele lugar; e numa variação, na cena final, o quadro contará com diversos personagens.
5) Como se não bastassem o passado, as escolhas fotográficas e o frio, o fato de ninguém conversar com ninguém acrescenta um toque a mais na realização dos objetivos da obra, que nesse aspecto, dialoga com as obras do chamado “Primeiro Cinema”. Trata-se, portanto, de um filme mudo. Não há diálogos. 6) O instrumental: Por último, mas não menos importante, uma trilha sonora recorrente pontuando a “levada” do enredo: triste, obviamente. Um violão solo “acompanhando” os desdobramentos da trama. Em certa altura, vocalizações. No fim, a trilha original cantada “à capela” sobre as vocalizações que aparecem um pouco antes. As locações são predominantemente externas, o que vem a corroborar com um projeto cinematográfico nacional que dialogue com as idéias do neo-realismo, e a trama apresenta ponto-de-vista/foco narrativo dinâmico: ora o personagem masculino, ora uma personagem feminina. O personagem principal (NICO), é um jovem de 20 e poucos anos de idade, que se enrola em complicações amorosas com duas moças: uma loira e uma morena. Após uma série de acontecimentos, peregrina sozinho e bêbado pelas ruas da cidade em busca de alguma coisa – ou vaga a esmo mesmo. TÊRE é outra personagem bastante importante da história: ela é, “nos dias de hoje”, uma senhora solitária, pobre e doente que guarda lembranças e segredos do passado.
As bases nas quais repousam a justificativa do projeto são basicamente duas: Primeiro, a verificação do modo como as pessoas encaram a solidão, a constatação de – segundo Belchior – a solidão das pessoas dessas capitais... A solidão a dois que existe nos relacionamentos humanos. O diálogo em torno da questão que as pessoas só se relacionam (e o modo pelo qual o fazem) para não ficarem a maior parte do tempo sozinhas, ou para não se darem conta disso. O que não resolve o problema, porque mesmo juntas, lado a lado, duas pessoas são únicas, impenetráveis, absolutas e... solitárias.Além disso, visa-se o “treinamento do olhar”: enquadrar importantes obras arquitetônicas, ruas e espaços da cidade pelos quais nós, moradores deste lugar que muito nos é familiar, passamos diariamente e nem nos damos conta. O treinamento do olhar é um viés importante da obra, e também mais um dos elementos que legitimam o grande uso de externas.
Fotos das locações: Regiane Bressan
Texto: Cesar Felipe Pereira

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