Loading...

It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


03 julho 2008

STANISLAVSKI E A BUSCA POR AUTENTICIDADE

O ator e diretor teatral russo Constantin Stanislavski tornou-se referência no que diz respeito à interpretação ao criar um método que, desde que devidamente seguido, proporcionaria ao ator um desenvolvimento significativo na experiência de dar vida a outros espíritos humanos. O método consistia em compor o papel da personagem “de fora para dentro”, ou seja, primeiro no que se refere às características exteriores de um indivíduo (fisionomia, gestual, movimentos etc) e depois ao que habita em seu interior (a essência, a memória emocional, o próprio “eu sou”). Para tanto um ator, quando da ocasião da composição de sua personagem, deveria permitir-se improvisar certo período de tempo – ainda nos ensaios de um espetáculo – visando a estabelecer modos convincentes de andar, sentar, entre outras ações, que possam realmente condizer com suas personagens; em outras palavras, buscando a verossimilhança, sem a qual não há vida no palco – e sim apenas teatralidade, convencionalismo, interpretações estereotipadas. Stanislavski chegou ao método após, numa fase inicial, perfazer o caminho contrário, no qual vislumbrava na composição “de dentro para fora” a melhor maneira de conhecer (sentir) o que o papel exige. Tal pensamento, descrito na primeira parte de “A criação de um papel”, livro que encerra sua célebre trilogia para a formação do ator, foi abandonado posteriormente para dar lugar ao estabelecimento da partitura de representação em via inversa. Eis que Stanislavski, por volta de 1930, encontra no diálogo entre professor e aluno a forma para dar vazão aos ideais didáticos que há muito lhe perturbavam o espírito: em contato com diversas personagens fictícias, entre as quais uma em especial – o aluno Kóstia -, e por intermédio do professor Tortsov, o autor pôde lançar mão de artifícios muito esclarecedores como, por exemplo, perguntas e respostas em torno dos problemas inerentes à interpretação, questões essas que colocam em pauta a importância de uma verdadeira imersão física e psicológica por parte do ator, ao invés de só superficialmente “vestir” suas personagens. A já citada trilogia da interpretação, uma espécie de manual do ator, extremamente útil para encenadores de teatro e mesmo de cinema, é composta pelas obras: “A preparação do ator”, “A construção da personagem” e “A criação de um papel”. Esse último livro, dividido em três partes, apresenta as reflexões de Stanislavski sobre o exercício de atuação por intermédio do desenvolvimento de papéis pertencentes a três peças famosas: a comédia “A descrença de ter espírito”, de Griboyedov; a tragédia “Otelo”, de William Shakespeare e “O Inspetor Geral”, de Gogol. As orientações para o desenvolvimento das habilidades pertencentes à profissão de ator, que se fazem acompanhar quando da leitura das obras do diretor russo, deixam claro o nível de esmiuçamento do pensamento de Stanislavski: há descrições detalhadíssimas, repetitivas, mesmo enfadonhas em certos pontos; o que, por outro lado, não diminui o valor de seu trabalho: instrutivo, desbravador, sempre em busca da melhor maneira de obter uma presença de palco verdadeira. O que realmente importava, para Stanislavski, era parecer verdadeiro. Como dito, o ator deveria ser capaz de vestir física e psicologicamente a sua personagem, de fazer com que seu ser servisse de morada a outro, que outra vida existisse por seu intermédio. Para tanto, algumas estratégias foram por ele apontadas: em cada ação, em cada palavra que o texto do dramaturgo encerra, deveria haver um objetivo, ou melhor, segundo suas próprias palavras, deveriam nelas descobrir e/ou criar um superobjetivo. Ele deveria guiá-lo, conduzi-lo naturalmente à representação, através da ação direta, a efetiva realização dos atos anteriormente planejados na fase de composição da partitura para o papel. O realismo, ou “naturalismo espiritual”, foi o alvo que orientou a prática e a teoria de Stanislavski. A busca pela autenticidade, conseguida através da encarnação total de um papel - e não apenas através da simples caracterização exterior -, foi o que o moveu e instigou, o que o fez procurar maneiras de realizar algo há muito almejado: a recriação da vida através da arte. Sem preocupações com o clichê que decorre de tal concepção, afirmo que sua cabeça estava permeada pela máxima: “a vida imita a arte e a arte imita a vida”; que mesmo “a arte do palco deve ser repleta de vida”, e não um mero exercício que proporciona trabalho, sustento (embora seja bem difícil viver de arte; ao menos neste país) e afago no ego dos profissionais com ele envolvidos. Pelo contrário, é necessário ser autêntico, estar em cena “de corpo e alma”, com os sentidos a postos e inteiros, de posse da imaginação, podendo sempre contar com o esperado funcionamento da memória emotiva, consciente do presente, com o passado construído e com perspectivas de futuro. Enfim, o ator é o canal que dá vazão à plena manifestação de uma natureza fenomenal: criadora/recriadora de beleza e significação, em que certa porção do potencial do mundo fica engendrado nas teias de um autor, o dramaturgo; assim é que o ator, para Stanislavski, é um ser sensível, astuto, prudente, múltiplo e profundo. REFERÊNCIAS - COSTA, Iná Camargo. Stanislavski na cena americana. www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142002000300008. acesso em: 1.º/07/2008.- STANISLAVSKI, Constantin. A criação de um papel. – 8.ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

2 comentários:

  1. Amei o Texto!!! Foi de imensa importancia ao estudo q realizo a respeito de Stanislaviski

    ResponderExcluir