Loading...

It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


13 junho 2008

Resenha: O CRIME NÃO COMPENSA

Em 1867, era lançado pela primeira vez, em livro, o romance “Crime e Castigo”, do escritor russo FIÓDOR MIKHÁILOVITCH DOSTOIÉVSKI (30/10/1821 – 28/01/1881). A história foi, originalmente, publicada em folhetim, no jornal “Mensageiro Russo” (da cidade de São Petersburgo), de janeiro a dezembro de 1866. Ela seria publicada ainda, em livro, mais duas vezes, com o autor ainda em vida: em 1870 e 1877. O título do original russo é “PRESTUPLÉNIE I NAKAZÁNIE”. A obra foi composta em pouco tempo, com Dostoiévski afundado em sérias dívidas, viciado em cassinos e vivendo da ajuda de alguns amigos. Para analisar a obra do autor, faz-se necessário conhecer, pouco que seja, sua biografia: Dostoiévski teve um relacionamento tempestuoso com o pai, que foi brutalmente assassinado por mujiques (servos russos), empregados deles. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, escreveu um artigo intitulado “Dostoiévski e o Parricídio”, a respeito do caso. Aliás, Freud considerou “Os Irmãos Karamazov” (última obra do autor) como sendo o maior romance escrito até então. O crime do pai teve sérias repercussões na saúde do escritor: ele passou a ter ataques epiléticos – alguns personagens dele, inclusive, são marcados pelas características da doença – que lhe causavam grandes incômodos. Sua literatura é caracterizada pela introspecção psicológica e pela tentativa de compreensão da força dos instintos nos atos humanos. Em suas obras, há sempre redenção (personagem santo ou que será santificado); sofrimento culpado; mergulho no inferno da dúvida; o tormento daqueles que desafiam Deus e suas leis. Dostoiévski é o grande perturbador da consciência; era capaz de levar a análise à exaustão. Segundo palavras do próprio escritor: “Chamam-me de psicólogo; não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retrato todas as profundezas da alma humana”. Crime e castigo é dividido em seis partes muito bem amarradas, mais um epílogo. A narrativa é nitidamente linear. O enredo é o seguinte: o jovem Rodion Românovitch Raskólnikov (personagem principal), ex-estudante, morador da cidade de São Petersburgo, anda com planos bem excêntricos a lhe rodar a cabeça: para sair da miséria que lhe aflige, planeja dar cabo de uma velha avarenta (Aliéna Ivánovna). Vai a ela com objetos para serem empenhados. A princípio, acha impossível que venha a, efetivamente, matá-la. Certa ocasião, ele leva um embrulho dizendo conter um cinzeiro de prata (que nunca existiu); na verdade, vai até o local para ensaiar o crime; o que já vem fazendo há algum tempo. De repente, surge a oportunidade “perfeita”: a irmã da velha não estaria em casa; portanto, Aliéna estaria sozinha. Com isso em mente, Raskólnikov pôs seu plano em ação: matou a velha. Quando estava preste a roubá-la, surge a irmã que não estaria em casa. Foi “obrigado” a matá-la também. Toda a teoria pensada até então, que servia de justificativa para o crime, foi por água abaixo. O jovem de 23 anos vai torturar-se exaustivamente com uma autojustificativa sem fim. O rapaz envolve-se com a prostituta Sônia, por quem se apaixona; a paixão é recíproca. Quando ele se entrega à polícia – depois de longos diálogos com o inspetor Porfiri – e é condenado à prisão na Sibéria (fato real na vida do escritor), ela resolva “sacrificar” a própria vida para seguí-lo. Crime e castigo é um livro grande: tem mais de 500 páginas; mas, o envolvimento que ele cria compensa o tamanho. A leitura não é fácil: é uma leitura não fluída; os diálogos parecem intermináveis: é custoso saber o que ocorre após cada um. As personagens têm uma espécie de incontinência verbal: pensam e falam muito. No entanto, não se pode dizer que a narrativa é enfadonha, pois é justamente através das palavras e pensamentos das personagens que Dosto tece seus perfis; e não apenas com as descrições. A loucura e a impulsividade de Raskólnikov, por exemplo, envolvem de tal modo que, ao terminar a leitura do capítulo que antecede os assassinatos, o leitor é levado a pensar: “Ai, meu Deus. Ele vai matar a velha!”. O leitor torna-se vítima da tensão, da loucura que, aos poucos, vai dominando Ródia (apelido, do primeiro nome, de Raskólnikov), através do perfil psicológico traçado pelo escritor. Porém, infelizmente, nem todos os leitores captam essa nuance: segundo Diogo Mainardi, em crítica à obra de Dalton Trevisan, veiculada pela revista “Veja” em 23 de novembro de 1994, muitas obras literárias “sofrem com os ataques dos maus leitores”; a obra de Dostoiévski é uma delas. As falas e pensamentos de Ródia vão se mesclando e, às vezes, chega-se a confundir o que está sendo dito e o que está apenas em sua mente. Sua forma de pensar é o que o compromete: em sua teoria de “ordinários e extraordinários”, ao se colocar no papel da pessoa de talento (um “Napoleão”), pessoa provida de dom, ele se permite sobrepujar os obstáculos, para comprovar sua teoria. Ele não se importa com os “seres ordinários”, tanto que, diante deles, se entrega por suas atitudes: ele é torturado pela culpa, quase em delírio, logo após despertar da enfermidade que o acometia há dias; cria circunstâncias para ser entregue à polícia, o que aliás, ele quer. São essas várias ações, observadas pelos “seres ordinários”, que o levam a ser incriminado no final. Raskólnikov pensa em voz alta, fala sozinho pelas ruas, gesticula sozinho, expressa seus pensamentos em expressões; suas atitudes e discursos o entregam. Entregam seu crime e sua loucura: o narrador o declara louco, ao dizer, por exemplo, “riu estranhamente”; outras personagens o acusam ao longo do livro; ele mesmo acha que está louco. Em seus pensamentos obsessivos antes de cometer o crime, ele diz para si mesmo: “É a doença que gera o crime ou é o próprio crime, por sua natureza específica, que é de certa forma sempre acompanhado de algo como uma doença?”. Aliás, só a descrição de como a loucura se desenvolve no personagem, já vale livro. Outro momento fabuloso é o jogo psicológico de verdades e mentiras travado entre Raskólnikov e o inspetor Porfiri Pietróvitch. O diálogo engana o leitor, que a certa altura da narrativa já não sabe mais o que o inspetor sabe ou não; se está sendo bom ou sarcástico; se sabe tudo e finge não saber, ou não sabe nada e é um tolo que não quer crer. Raskólnikov se entrega à polícia por causa de sua culpa: pelo tormento causado por Porfiri e por sua própria mente. Dostoiévski faz uma dura crítica à sociedade russa da metade do século XIX. Através do personagem niilista e engomado, Piotr Pietróvitch Lújin, critica a burguesia e suas posses, que menospreza os pobres e quer apenas se impor diante dos mais fracos. Aliás, o niilismo está sempre presente em algum de seus personagens, como afirma Harold Bloom, no livro “Como e Por Que Ler”; personagens estes, nesse sentido, comparáveis aos de Shakespeare. É em defesa dos pobres, que foram deixados à margem depois da reforma do Estado, que se estabelece uma forte crítica social. Para Dosto, a miséria cria situações nas quais certos tipos de comportamentos se tornam aceitáveis. Mostra-se o sentimento de impotência das pessoas diante das injustiças. Através de uma galeria de personagens pobres que enlouquecem, parece perguntar: a pobreza enlouquece? Ou no caso de Raskólnikov: o meio leva o homem ao crime? O autor também reflete se é o ambiente que enlouquece, quando diz: “Petersburgo é uma cidade de semi-loucos”, nas palavras de Svidrigáilov. Mas são apenas suposições e críticas a uma grande cidade, no fundo a um grande país, que abandonou seus pobres e camponeses e está mais preocupado com reformas burocráticas e assistencialismo barato, do que com reformas realmente estruturais. “A filantropia ajuda, mas não acaba com os problemas”, diz Liebiesiátnikov. Dosto critica, mas não perde a fé nas pessoas. Mesmo na vileza de Svidrigáilov há um lado bom. As pessoas não são completamente boas, nem completamente más. Mesmo diante de toda pobreza, ainda existe orgulho, como Catierina tenta passar; e mesmo diante de todos os sofrimentos e infortúnios, há pessoas de coração puro, que se doam em prol do próximo, como as personagens Sônia e Dúnia (irmã de Ródia). Raskólnikov e sua irmã são as duas faces de uma mesma pessoa, pois o comportamento dos dois é muito semelhante, como afirma a mãe. Ródia se arrepende do crime e volta a encontrar a paz e o prazer de viver. Esse é o final: a resignação (que ocorre apenas no epílogo do livro); o reencontro com Deus. Há o arrependimento sincero; o renascimento de um homem e o seu amor pela vida, baseado na máxima, “o amor tudo salva”. Talvez os leitores sintam-se surpreendidos ao transpor a última página: o final não é seco, nem cético, pessimista ou niilista; é um final quase religioso. Provavelmente, isso decepciona muita gente; mas, era de se esperar um final sarcástico, talvez doloroso? Não. Ele só poderia dar no que deu: o tempo todo se dá pistas disso – a mulher redentora; o sacrifício da irmã; etc. Com a resignação de Rskólnikov, Dostoiévski aponta suas crenças (ou descrenças): ele sonhava com a volta a um cristianismo quase utópico, em que existiriam pessoas dispostas a se sacrificar pelo bem de outras – Sônia em relação à Ródia, por exemplo. O livro é maravilhoso; Dostoiévski escreve maravilhosamente bem. O final é muito bonito: além da certeza de que o crime não compensa (embora tenha sido ele que levou à redenção), tem-se a revelação de que o que salva o homem é o amor; poucos encontram o amor verdadeiro em vida... ; o resto vive a loucura que lhes resta! Essa beleza só encontra comparação, na obra do autor, em alguns contos e livros pequenos, como “Uma Criatura Dócil” ou “Noites Brancas”, provavelmente sua obra mais bela. - CRIME E CASTIGO. Coleção a obra-prima de cada autor. Série Ouro. Ed. Martin Claret. São Paulo-SP. Outono de 2005. Tradução: Ivan Petrovitch e Irina Wisnik Ribeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário