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Têm dias em que a noite é foda.


13 junho 2008

Resenha: MATURIDADE INTERROMPIDA

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, do mestre alemão Johann Wolfgang Von Goethe, é um livro capital na história da literatura universal. Texto iniciador da prosa moderna, do romance romântico na Alemanha, é uma obre prima sob todos os aspectos que se analise, sejam eles referentes aos elementos ficcionais da obra (tempo, espaço, foco narrativo etc) ou a tudo o que ocorreu ao seu redor (a polêmica onda de suicídios “motivada” por ela, por exemplo). Ao tratar deste livro, parece-me impossível não levantar as informações biográficas de seu autor, as relações da obra com a realidade – algo um tanto rejeitado por muitos daqueles que procedem à crítica literária – e percorrer os caminhos que o levaram a escrevê-la, pois a história de Werther é, até certo ponto, a história do próprio Goethe. Participando de um Círculo de Amigos na cidade de Wetzlar, Goethe apaixona-se pela mulher de um certo camarada, também do grupo, paixão essa que não fez questão de esconder. Nesse mesmo círculo de amigos, um rapaz, chamado Karl Wilhelm Jerusalém, acaba apaixonando-se por outra mulher, a esposa do secretário Herd. De pleno acordo com a rigidez da época, o recato, a retidão de caráter e mesmo a inocência dessas mulheres, os sentimentos dos dois jovens não foram correspondidos. Goethe, após algum tempo insistindo para que seus esforços surtissem efeito – por muitas vezes chegando a ser indiscreto junto ao casal -, acabou por desistir e partiu em busca de outras paragens; já o pobre Jerusalém suisidou-se por não conseguir ver seus desejos realizados. Eis a história (verídica) que serve de pano de fundo para o enredo da obra. O livro é dividido em duas partes: na primeira, Werther é Goethe; na segunda é Goethe mais Jerusalém. A mulher pela qual o autor apaixona-se chamava-se Carlota (Charlotte) Buff – no romance, a paixão de Werther também chama-se Carlota -, mulher de Johann Kestner. Kestner, na história, é Alberto, sujeito que por infelicidade do destino emprestou (na realidade e na ficção) as pistolas para o suicídio de Jerusalém/Werther. O romance é constituído por cartas – escritas por Werther e quase todas tendo como destinatário o amigo Guilherme – selecionadas e organizadas por um suposto editor, que interfere e guia a narrativa no início (na apresentação) e quando do final da segunda parte (após o suicídio de Werther), além de fazer apontamentos através de notas de rodapé. Não aparecem as respostas dos correspondentes em forma de carta, algo que era comum nos romances deste tipo (em cartas) da época, como por exemplo, em “Nova Heloísa”, de Rousseau ou “Pamela”, de Richardson. Werther é um jovem sonhador e romântico, sempre perdido em reflexões e na observação da natureza. Carrega sempre consigo algum livro, o seu Homero – na primeira parte do livro -, ou os “Cantos de Ossian”, que inclusive havia traduzido – na segunda parte. No romance, a natureza que tanto o impressiona desempenha um importantíssimo papel simbólico, pois é mostrada de modo a refletir os estados de espírito do jovem: ora calmo e pleno – natureza “bela” -, ora agitado e perdido – natureza “feia”. Desenhista que vê no retrato da natureza a mais alta beleza, entra em “crise criativa” por ocasião da “cegueira” de amor louco suscitada por Carlota. Ao ser arrebatado pelo casto amor, progressivamente vai perdendo as esperanças em vê-lo correspondido – havia sido avisado para que não se apaixonasse por Carlota -, o que aos poucos o leva a perder a alegria da vida, anunciando a medida extrema que deliberadamente levará a cabo. Já na introdução às cartas, o editor-narrador nos alerta para que, quem sentir no íntimo o mesmo que o nosso pobre herói, faça da narrativa uma boa amiga e com ela tenha sua purgação, sua purificação, enfim, sua CATARSE. A mensagem do livro, sua máxima, o mote perece ser: o rapaz só se torna homem depois que sofre por amos, só amadurece após a primeira desilusão amorosa séria. Werther (o personagem) e Jerusalém (o jovem membro do círculo de Wetzlar), assim como vários e vários jovens sentimentais da época, não endossaram esse “rito de passagem”, acabaram suicidando-se. Goethe (o autor) amadureceu: transcendeu esta fase (por volta dos seus 22-23 anos de idade), escreveu o livro e com ele obteve seu primeiro sucesso, abrindo caminho para muitas outras obras-primas como, por exemplo, “Fausto”, “Ifigênia” e “Viagem à Itália”. - GOETHE, Johann Wolfgang, von. Os sofrimentos do jovem Werther; tradução, organização, prefácio e notas de Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2006.

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