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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


17 junho 2008

PRIMEIRO CINEMA

Flávia Cesarino Costa, pesquisadora da área do chamado Primeiro Cinema, constrói uma interessante historiografia do período acima citado. A autora considera relevante para atingir os objetivos a que almeja, ou seja, desmistificar o caráter “menor” atribuído aos primeiros filmes, proceder a uma nova conceituação desse cinema. Para tanto, vale-se do termo inglês early cinema para designá-lo, escolha essa que acaba por retirar o sentido de evolução de um cinema “primitivo” para um cinema “clássico”. Flávia começa por apresentar o contexto no qual a atividade cinematográfica teria tido origem: as exposições universais (particularmente a de Paris, em 1900), os vaudeviles, as feiras, os museus de cera etc. Ela salienta que o cinema, quando surgiu, foi visto apenas como mais uma novidade para a diversão, como entretenimento, e não como uma arte ou algo assim. Uma séria de máquinas para captar imagens haviam sido inventadas e construídas naqueles tempos de final de século XIX: Thomas Edison havia construído o quinetoscópio e o quinetógrafo, havia também o mutoscópio e as lanternas mágicas. A briga corria feia entre Edison e os Irmãos Lumière, que forneciam com exclusividade seus cinematógrafos, suprimentos de filmes e operadores das máquinas (homens que além de instalarem, exibirem e muitas vezes comentarem os filmes para o público, também serviam de cinegrafistas para multiplicar o catálogo de suas atrações). O principal cliente dos Lumière eram vaudeviles, lugares que exibiam variados números e que detiveram a hegemonia do divertimento barato entre os anos de 1895 e 1900. Além dos Vaudeviles, exibidores itinerantes (showmen) levavam as imagens das “atualidades” para lugares afastados dos grandes centros urbanos. É preciso salientar a diferença substancial existente entre o Primeiro Cinema e o Cinema Clássico: enquanto este buscava uma consistência mimética (imitação da realidade), aquele tinha como marca principal uma grande quantidade de sincretismo (o caráter artificial dos filmes coexistia com uma pequena intenção de realismo); com o passar do tempo e desenvolvimento da prática cinematográfica, com a sua aproximação cada vez mais rápida em produtos economicamente rentáveis, foi ocorrendo uma convivência dialética entre espetáculo e narrativa. Outro fato curioso é o de que parecia haver um caráter tal de efemeridade naqueles primeiros filmes, um quê de espanto, comicidade e absurdo, que, vistos pelos olhos de agora, com os filtros de nossa cultura, talvez não nos damos conta daquilo que as pessoas pensavam e sentiam quando da interação com eles. Por exemplo: aquelas obras deixam-nos com muito mais noção da irrepetibilidade de uma situação do que fazem as obras a elas posteriores. O “assassinato do momento” , como chama a autora, é mais aparente nelas; o estranhamento parece ser maior. Uma das características mais marcantes dos filmes do Primeiro Cinema foi a não-possibilidade de apresentarem enredos completamente inéditos, devido ao fato da linguagem cinematográfica ser ainda pouco desenvolvida; e, quando o faziam, era de três maneiras: o assunto do filme já era bem conhecido do público; havia uma apresentação preliminar do filme, realizada por um conferencista ou pelo exibidor; eram narrativas extremamente simples, como piadas ou alguns dos filmes de Georges Méliès. Como o cinema era novidade e também a única mídia capaz de transmitir a sensação de velocidade, foi natural o interesse das pessoas pelas imagens de trens e automóveis em movimento, o que, de certo modo, justifica os filmes de perseguição, verdadeiros exemplos do cinema de atração realizado na época. Entre 1906 e 1915, foram os Nickelodeons (armazéns ou depósitos que do dia para a noite transformaram-se em cinemas improvisados) que apresentavam, e então como atração exclusiva devido a seu sucesso, os filmes. Os empresários, visando atrair a classe média, promoveram verdadeira “reforma” nestes locais, antes destinados ao proletariado. Foi preciso algum tempo para que se passasse da completa “aculturação” das massas para um estado no qual todos partilhassem de uma linguagem comum, em outras palavras, foi preciso treinar as percepções visuais do público freqüentador desses lugares. Os Nickelodeons, que eram a diversão mais barata do momento (custavam 5 centavos de dólar – um níquel), deram início a uma massificação ou a uma ”civilização” dos gostos no que se refere a temáticas e estética, sempre em consonância com as aspirações burguesas dominantes. Entre 1913 e 1915 surgiram os longas-metragens, um passo a mais na consolidação de uma indústria do cinema, que naquele momento dividia suas atuações em setores: uma produção, uma exibição e uma distribuição que não mais vendia os filmes, e sim os alugava. É precisamente nesse contexto que, em 1914, ocorre a completa narrativização: os filmes como formas perfeitamente inteligíveis sem a necessidade de explicação externa. Abandona-se o esquema dos filmes de perseguição em prol da montagem paralela, que permitia mostrar acontecimentos simultâneos. David Wark Griffith, marco no estudo da história do cinema, fez a proeza de integrar o cinema à cultura dominante. Por volta de 1908,1909, começou a sistematizar uma “gramática” da linguagem cinematográfica, que consistia em novas maneiras de fazer filmes. Moldava-se uma estética mais refinada para atrair as classes “mais respeitáveis”. Foi desse modo que, ainda seguindo as palavras de Flávia Costa, o cinema “domesticou-se”, passou do simples espetáculo dos primeiros anos à narração, ao veículo de contação de histórias, moral e ideologicamente voltadas a perpetuação da classe média. - COSTA, Flávia Cesarino. ”O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação”. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.

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