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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


17 junho 2008

MONTAGEM SOVIÉTICA

Na década de 1920, importantes transformações abalaram a vida cultural européia; inseridas no processo artístico-ideológico conhecido pelo nome de “modernismo”, várias vertentes/movimentos propuseram novas concepções para o pensamento e a prática do fazer artístico. Assim é que vertentes – ou escolas – surrealistas, dadaístas e construtivistas ganharam campo. O construtivismo foi o meio que artistas russos de esquerda, altamente politizados, escolheram para dar forma à ideologia da qual deliberadamente tomaram partido. Esse novo viés pelo qual se definiram, objetivava um controle substancial – se não, total – do processo artístico por parte de seu artífice; dizia “não!” à inspiração e ao talento inato do artista; centrava no trabalho medido, pesado, extremamente verificado, a responsabilidade por fazer o apreciador da obra se emocionar. Com isso em mente, pode-se afirmar que a Revolução Russa de Outubro de 1917 é o contexto no qual se insere toda uma geração de intelectuais atuantes na transformação política, social e econômica de uma nação, através da arte. O futurismo de Marinetti era o preceito básico com o qual os artistas trabalhavam, ou seja, a apologia da velocidade, do dinamismo, da urbanização, do progresso científico, constituía a base na qual toda uma revolução estética estava calcada. Nas artes plásticas, Malevich desenvolvia o cubo-futurismo, arte abstracionista (não-figurativa) que tinha por objetivo principal a libertação da pintura como meio essencialmente representativo da realidade; Tatlin fazia obras que ultrapassavam as tradicionais esculturas, eram já um misto de várias artes, próximas ao que hoje denominamos “objetos”. Na poesia, Maiakovski, o grande líder das vanguardas do período, visava plasmar uma nova forma poética que incitasse o povo russo a fazer frente no projeto revolucionário. No teatro, Meyerhold, grande diretor de teatro, desenvolvia em suas montagens novas maneiras de interpretar, algo que estivesse mais afinado ao distanciar da simples imitação da vida real. No cinema, Lev Kulechov foi o primeiro a enveredar pelos caminhos do construtivismo. É dele a famosa experiência dos planos justapostos, a base para os trabalhos da montagem de atrações de Sergei Eisenstein. Conta-se que Kulechov filmou e justapôs planos de um homem com planos de um prato de sopa, uma porta de prisão e uma “situação amorosa”. O efeito que isso teria suscitado nos espectadores foi o de, respectivamente, fome, medo e desejo. Ora, esse efeito, que ganhou o nome justamente de “efeito Kulechov”, provaria que o real sentido de um filme não está no conteúdo do plano, na mensagem estática de um quadro, mas sim nas relações estabelecidas entre os planos no decorrer da narrativa. Tanto isso é tido como verdadeiro, que se consideram as proposições a cerca da montagem como a sua maior contribuição ao cinema. Eisenstein é, no cinema, o maior nome da vanguarda russa dos anos 20. Ao contrário da tradição cinematográfica existente até então, o jovem cineasta estabeleceu uma montagem de choque, ao invés da montagem de continuidade. Nos filmes de Eisenstein o que importa não é a continuidade espaço-temporal, a transparência ou a fluidez ininterrupta dos planos, mas sim o encadeamento de planos de modo que faça surgir naqueles que assistem ao filme uma espécie de associação, que eles possam concluir com base na justaposição de dois planos um terceiro, ainda mais impactante; enfim, nas obras do autor, sempre um plano A + um plano B é = a um plano C. Desse modo, o enredo se dá dialeticamente: uma tese é apresentada (A), segue-a uma antítese (B), resultando numa síntese (C), algo que não é um dado material do filme, mas algo que “salta” da tela. Essa montagem de atrações é a base formal de seus três primeiros filmes – A Greve, Encouraçado Potemkin e Outubro –, verdadeiras obras primas do cinema russo, e do cinema mundial. Divergindo um pouco em relação a Eisenstein, outro importante cineasta desenvolveu seu trabalho no período: Dziga Vertov, o autor de “Um Homem com uma Câmera”. Criador do “Cine-Olho”, procurava captar o sentido de modernidade nas imagens cotidianas; assim, filmava “a esmo” imagens da agitação da vida urbana e, posteriormente, através de uma montagem cuidadosa, criava o sentido para aquilo tudo. Valia-se de inúmeros recursos da montagem, tais como fusões, transições e trucagens para atingir seus objetivos, e é certo que, assim como Eisenstein e os demais construtivistas, queria deixar evidente a artificialidade do filme, o seu caráter essencial de “fatura”, coisa construída. Foi justamente acusado pelo próprio Eisenstein de uma certa “estetização vazia” de seus filmes, de que eles eram muito estáticos, de que não permitiam ou não exigiam dos espectadores a reflexão cuidadosa daquilo que lhes chegava aos olhos. Contudo, Vertov preocupou-se demasiadamente com o sentido do que sua câmera atingia, e foi pela montagem e justaposição precisa dos planos que construiu obras completamente não-alienadas, que esperavam muita participação por parte de seu público, bem alinhado aos pressupostos construtivistas. Após o fim da revolução e com a instauração do governo de Stalin, os artistas russos perderam grande parte do direito à experimentação que tinham durante as lutas dos proletários e camponeses. A arte, principalmente o cinema, passou a ser supervisionada e subsidiada pelo Estado, o que fez com que muitos artistas e intelectuais deixassem o país. Maiakovski suicidou-se. Meyerhold foi fuzilado. Apenas Eisenstein, após curto período de “viagens de estudo”, retornou à Rússia e prosseguiu a carreira, ainda com um certo brilho. Eis que chegava ao fim o período genial da vanguarda russa dos anos 20.

Um comentário:

  1. UAU, fantástico!, foi de grande ajuda esse resumão desses monstros do cinema, agora tenho algo para enriquecer meu trabalho de faculdade! hehe

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