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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


13 junho 2008

MANIFESTO TEATRO POP

A espécie de teatro que passo a propor baseia-se essencialmente na intercalação entre o ato cênico propriamente dito – a representação, ou mese em scène – e músicas que, consideradas em meio às atuações, são significantes no decorrer do enredo. Aparecem de modo similar às trilhas sonoras dos filmes: criam os climas necessários à ambientação e desenvolvimento das histórias, e de certo modo, mesmo como passagens ou explicações em determinados contextos. Constam impreterivelmente no início e término dos espetáculos, visando respectivamente a uma apresentação e a um desfecho da trama. Esta postura surge do fato constatado de a música, em nosso país, ser uma das manifestações artísticas de apelo mais popular de que dispomos. Dito isso, visa-se não apenas o já conhecido caráter sinestésico desencadeado pelas canções, mas também, o propósito de talvez despertarem um interesse maior e por conseqüência o acesso mais facilitado do grande público ao teatro. Por tratar-se de músicas conhecidas, daí decorre a expressão “pop” no alto da página. Há a tentativa – contudo não primordial – de aproximação com as antigas tragédias gregas, no que diz respeito à constituição de trágico naquelas peças, pois nessa constam alguns dos artifícios essenciais para a obtenção do efeito trágico, a saber: 1) o fato do herói (protagonista) ou o seu mundo ilusório de segurança ter de sofrer uma queda considerável, ou seja, haver um encadeamento de acontecimentos sofríveis que mudem a situação em que se encontra; 2) que essas ações façam parte do próprio mundo dos espectadores, para que, através delas, eles se comovam e reflitam, tudo isso devido à inquietação em suas almas provocada pelas sensações dramatizadas. Em outras palavras, visa-se a catarse (a purgação ou purificação; a liberação de pensamentos, idéias etc. que estavam inconscientes, reprimidas, seguindo-se alívio emocional); 3) a necessidade do herói estar consciente do infortúnio a que se sujeitará; 4) e, por último, o caráter irreconciliável das agruras sofridas pela personagem (não poder evitá-las de maneira alguma). Há a tentativa de estabelecimento de uma ALMA BRASILEIRA, o que se verifica na caracterização das realidades sociais, econômicas e políticas dos roteiros e, mesmo nas alusões à história do Brasil. Visto que Shakespeare analisou e eternizou a alma inglesa de sua época; Brecht, a alemã; etc etc... pretende-se fazer o mesmo com a alma brasileira, trabalho já iniciado, no teatro, com autores como Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Dias Gomes, Chico Buarque, Ariano Suassuna, entre outros. É certo que aqui somos cidadãos do mundo; queremos conhecê-lo e entendê-lo, a nosso modo. Queremos sair e ver tudo. Rodar mundo. Mas, antes de tudo, antes de conhecer o mundo, devemos conhecer nosso país. E antes de conhecer nosso país, devemos conhecer nossa região. E ates de nossa região, o nosso estado. E antes dele, nossa cidade. Ainda antes, nosso bairro. E antes, as ruas. Antes, as casas, os quintais, os cômodos. Mas, em primeiro lugar, antes de tudo isso, devemos conhecer a nossa Alma. Conhecer a nós mesmos! No que diz respeito às personagens, é importante dar as características que lhes são comuns: trata-se na maioria de personagens verborrágicos e loucos, porque além de falarem muito, falam sozinhos. E falam muito em longos solilóquios. Expressam-se através de uma linguagem coloquial cuidada, até certo ponto, na qual em certas ocasiões são permitidas algumas espécies de solecismos gramaticais, como por exemplo, o uso de pronome oblíquo átono em começo de frase. Há, além disso, personagens ditos “protáticos”, ou seja, aqueles que aparecem pouco e que, de certa forma, preenchem algum espaço, algum tipo de buraco no enredo. In “As Prisões de Pedro”. Cesar Felipe Pereira. 2006.

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