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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


17 junho 2008

KOYAANISQATSI

Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio e fotografado por Ron Fricke, é uma obra completamente avessa ao clássico cinema hollywoodiano; ao invés de uma obra narrativa - que visa esconder os meios pela qual é construída, tendendo ao invisível -, apresenta-se como uma sucessão ininterrupta de imagens que procuram, como o nome do filme (palavra da tribo Hopi) atesta, fazer pensar a respeito de “uma vida fora de equilíbrio”. Apresenta-se e desenvolve-se exclusivamente por meio de imagens, ou seja, a contemplação, o encadeamento de “situações” é o que veicula a mensagem pretendida. Sem diálogos – a moda dos filmes do chamado Primeiro Cinema – baseia-se integralmente na visualidade. Dado, como dito, à contemplação, o filme é um deslumbre visual; de maneira semelhante aos videoclipes da então incipiente estética mtv (àquela época começando suas atividades nos EUA), é incrível a capacidade de comunicação desse filme não-tradicional. Máquinas, equipamentos e aparelhos transitam diante de nossos olhos no que, inicialmente, parece ser uma apologia da modernidade, da tecnologia, assim como no clássico russo “Um Homem com uma Câmera”. Contudo, o espectador atento não se engana: tudo o que nos é apresentado em Koyaanisqatsi visa à reflexão de seu público; é conduzido magistralmente de modo a suscitar debates em torno de nosso mundo extremamente tecnológico e, por isso mesmo, completamente escravo de suas facilidades. O mote da obra é a discussão da vida urbana em suas mais diversas acepções. No tempo do filme (de 1976 a 1983 – a última data seu ano de lançamento) e atualmente a grande maioria da população mundial vivia/vive entrincheirada nas grandes cidades, levando ou buscando a estabilidade financeira, o conforto por ela propiciado, o esgotamento de suas forças em prol de uma pseudo-felicidade. A tecnologia nos permite (no trabalho, no estudo, no lazer etc) um aceleramento de nossas respostas corretas, ou mesmo quando erramos, uma retomada mais rápida em sua direção, o que se traduz acertadamente na palavra “produtividade”. A vida é corrida, o ritmo frenético. O controle remoto, por exemplo, tornou-se para nós um catalisador indispensável. Parece que ninguém mais tem tempo para nada; então por que alguém pode se dar ao luxo de levantar e apertar o botão pra trocar de canal? Na obra, há uma espécie de “treinamento do olhar”, quero dizer, nos é apresentada uma realidade imagética que invariavelmente permeia o nosso cotidiano, mas que nós nem sempre nos damos conta, que nem sempre é devidamente apreendida por nós; as imagens que permeiam nosso mundo e a nós são comuns, são também construídas por nós. O aparecimento de marcas tradicionais (Coca-cola, por exemplo), no filme, não é por acaso, porém insere-se no debate da construção cultural da realidade, na qual muito do que existe e nos facilita a vida é pensado pelo homem, e plasmado em laboratórios. O filme possui, além da já citada contemplação das belas imagens de tecnologia, uma trilha sonora magnífica. As músicas, compostas por Philip Glass, foram pensadas em associação com as imagens, o sonoro completa o visual. O dinamismo musical dá o tempo do corte, o que proporciona um ritmo vibrante ao filme. Uma trilha recorrente procura marcar bem a mecanicidade e estagnação provenientes do progresso industrial, na verdade nocivo à evolução humana.

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