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Têm dias em que a noite é foda.


13 junho 2008

Ensaio: A POESIA ÍMPAR DE AUGUSTO DOS ANJOS

Muita luz já se fez a respeito da singularidade da poesia de Augusto dos Anjos. De fato, parece haver algo em torno de seu nome que, quando simplesmente pronunciado, suscita uma série de conceitos devidamente internalizados por aqueles que dele tratam. Seria improvável deixar de lado idéias como, por exemplo, a morte, a transformação da matéria, o pessimismo, que permeiam toda a obra do autor. Augusto dos Anjos publicou apenas um livro: “Eu”, composto por pouco mais de 50 poemas que combinam elementos parnasianos (o trabalho formal constituído em sonetos; o rigor da rima), simbolistas (musicalidade) e expressionistas (deformações e hipérboles expressivas). A obra, de 1912, escapa à simples categorização literária, não vindo a filiar-se a nenhuma escola. Agrega em torno de si a efervescência das vanguardas européias e é uma mescla de todas as tendências da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Enfim, surge em meio a um contexto histórico conturbado. Entre outras coisas, ocorreram a libertação dos escravos, o advento da República, as revoltas rural (Canudos) e urbana (Rio de Janeiro), a decadência da antiga estrutura latifundiária e a urbanização de grandes centros, os movimentos grevistas e anarquistas em São Paulo, as possibilidades de uma grande guerra e as incertezas em face do futuro da humanidade. Do ponto de vista estrito da poesia, a obra desse autor é tradicionalmente estudada dentro de um período eclético, a Belle Époque, em que a máxima predominante foi o olhar para o passado, a influência das escolas anteriores, pois em seu cerne convivem pacificamente o simbolismo, o parnasianismo e alguns traços do romantismo, e verifica-se uma predominância de neoparnasianismo. A única novidade foi justamente a sua poesia, o livro “Eu”. A. dos Anjos opera milagres ao unir ciência e arte; é original ao aliar cientificismo com linguagem poética. A voz do eu lírico é em jargão científico, clínico, biológico, e é por causa dos termos técnicos que emprega considerada uma linguagem difícil, densa, até mesmo hermética. É desse modo que manifesta a podridão, a estarrecedora verdade de que tudo o quanto é vivo um dia perecerá. Assim se dá a recorrência temática da morte e as visões escatológicas: cadáveres, vermes, túmulos, escarros, sangue de vísceras dilaceradas, espectros, fantasmas, até mesmo duendes, além de outras criaturas sinistras. Permeiam os poemas um grande número de símbolos e alegorias, percebendo-se em cada um deles, em cada imagem de sentimentos dissimulados – já que o real é ocultado em metáforas -, um fragmento de realidade que nos abrasa o mundo interior. Dor e sofrimento, mágoas e tormento transparecem em mensagens angustiantes, sentimentos esses que não passam e não passarão, pois falta ao eu lírico uma espécie de resignação cristã ou de conformidade filosófica. Desse drama emocional que apenas transparece em linguagem evasiva, fica o sentimento de descrença perante a vida. Nas diversas camadas de entendimento que constrói, afirma e reafirma que somos todos desajustados, excluídos dos felizes mundos pintados por outros poetas, e que a única salvação seria abstrair, afastar-se da realidade. Já que não há solução no raciocínio frio e racionalista, rebela-se contra a natureza; nega Deus, mas alguém teria de responder pelos infortúnios de seu destino. Acaba por encontrar a sua musa justamente na dor, a dor consciente de que a vida é pueril, efêmera, finita, e é assim que acaba por reduzir o homem à simples matéria, um aglomerado de moléculas. A morte é o fim de tudo, mas para os que crêem há ainda uma esperança; mas não para ele, que não admite a vida espiritual. E porque a visão da morte não o deixa em sossego, luta por fugir, refugia-se no abstrato mundo das idéias, aí seu porto-seguro. Enfim, é torturado pela consciência, sofre a si mesmo e sofre também o sofrimento de toda a humanidade, o sofrimento do mundo. É a voz de uma existência absurda e paradoxal, na qual sempre um novo dia é, ao mesmo tempo, um dia a menos; enquanto cresce, também aos poucos, definha, imerso na contagem regressiva que o leva daqui, o presente, para o fim da vida. À concepção de animais racionais não prescinde a consciência, portadora da certeza de que o fim chegará, e contra ele não há como lutar. Será comido, devorado pelos vermes; o corpo, fiel invólucro que envolve, sustenta e condiciona, será reduzido a pó, ou “apenas cabelos”, como no poema “Psicologia de um vencido”. Enfim, a matéria é mostrada em decomposição, putrefata. É desse modo que, ainda nesse poema, se considera um vencido, inconformado com a idéia de um dia ser roído pelos vermes. É certo que há poemas também a tratar de amor – “A ilha de Cipango”, “A árvore da Serra” -, contudo, também neles não deixam de constar desventuras, visões sombrias e sofrimentos inexeqüíveis. É uma alma outrora apaixonada, que agora sofre atormentada e vaga solitária, perseguida por visões alucinadoras. Pessimista, angustiante, tétrico. Por esses motivos aqui explicitados e também outros mais, o livro “Eu” foi tomado por exótico no momento em que apareceu na literatura brasileira. Tanto é que o tipo de poesia que propunha foi taxado por alguns de seus críticos (João Lélis; Álvaro de Carvalho), muitos inclusive conterrâneos do próprio poeta, como de importância duvidosa, por constituir um modelo original, porém sem seguidores, assim mesmo como ocorreu em outros países, com autores como Rimbaud e Edgar Allan Poe. Ora, exigir que toda produção intelectual se enquadre nos cânones estabelecidos e vigentes em determinada época é, no mínimo, negar o caráter libertador e revolucionário de tudo o que se reveste sob o signo “arte”, é retirar do artista o poder criativo, é negar-lhe mesmo a essência do fazer artístico. Em tempos – como chamados – pré-modernistas, uma fase marcadamente transitória, fazer tal afirmação (a de que este tipo de poesia é de importância menor, pois não gerou seguidores) é realmente contraditória. Sabido é que a vida é o material do artista e, além disso, um ponto-de-vista; assim como são deiferentes as pessoas, também o são seus ambientes, seus sentimentos, suas mentes. Exigir que Augusto repetisse ao menos temática ou linguagem, já devidamente consagradas, seria retroceder, partir em direção contrária. Distinguir-se dos contemporâneos, certamente, não foi escolha do autor, era apenas o modo como produzia, e como pensava. Nas palavras do próprio Augusto: “Eu hoje só vivo para a desgraça”. Desgraça: o drama mais doloroso de sua consciência. Além disso, críticos não devem, não podem exigir, moldar ou apontar caminhos para a produção cultural de um dado momento; seu trabalho é outro. Devem sim procurar interpretar, analisar com minúcias as diversas variantes que constem das obras que lhes cheguem às mãos. Variantes! Se o que querem são constantes, que trabalhem apenas com a maior delas: a mudança. “Eu” é um livro único, representativo e importante e, se seu mundo ficcional é constituído pr monstros, cemitérios, alucinações, mórbidas visões, é porque assim o quis o seu autor; um artista igualmente único, de plena posse de sua capacidade criativa e com vontade de causar espanto. E assim como a morte, contra a vontade não há quem possa! P.S.: Hoje Augusto dos Anjos é cânone. “Eu” é o livro de poemas mais lido/reeditado no Brasil. - ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 36ª. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985. - GULLAR, Ferreira. “Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”. In: ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia; com um estudo crítico de Ferreira Gullar. Rio de Jeniro: Paz e Terra, 1978. - INFANTE, Ulisses. Curso de literatura de língua portuguesa. São Paulo: Scipione, 2001. - NICOLA, José de. Literatura brasileira: das origens aos nossos dias. São Paulo: Scipione, 1998.

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