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It's been a hard days night!

Têm dias em que a noite é foda.


16 junho 2008

A Construção de um Sertão e suas Veredas

“Sertão, o senhor sabe, é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado”. Eis o que, entre milhares de outros aspectos, salta aos olhos à primeira leitura de Grande Sertão: Veredas, romance do escritor mineiro Guimarães Rosa. Na obra, um grande sertão é construído: sertão de jagunços, a cavalo, fortemente armados, sempre em busca de pouso após entrar em combate numa pugna sangrenta; sertão de inúmeros buritizais. Os jagunços do sertão, alguns dos homens mais terríveis, sertanejos, vêm e vão pelas imensidões do sertão, arrastando esporas, trazendo armas, buscando rumos novos em seus destinos. Gente que se conhece tão bem e por quem tanta estima se tem: o Caruncho: só de se olhar para ele se vê o vulto da guerra; Jerebives: sempre com histórias de demônios. Homem temente e bravo; Titão Passos: segundo em chefe. O negro nobre. Pai e mãe dele tinham sido escravos; Ricardão: bom no tiro e na montada. Sombra fiel do outro; Hermógenes: flagelo com frieza. Homem sem anjo da guarda; Alaribe: com seu jeito ligeiro, capaz de abrir num dia quinze léguas e cavalos guiar; Joaquim Beiju: quase menino. Dizia que nunca tinha conhecido mãe nem pai, nem dos outros; Sô Candelário: o amigo mais velho de Joca Ramiro. Compreendor de tudo e senhor de muito respeito; e é claro, Reinaldo: que também era Diadorim. Sabendo deste é que se sabe a vida de Riobaldo, o protagonista. A guerra ia a seis léguas do Guaituí; por lá o coronel Alarico Totonho vinha fazendo os piores desmandos, as maiores crueldades. Boa terra no lado direito do Rio das Velhas. Terras de rapaz que o coronel invadiu e arrasou com tudo. “Aquele homem, o Alarico, está querendo ser dono do sertão inteiro”. Mas Joca Ramiro restituiu as terras ao rapaz, e deixou por lá um punhado de homens bens armados pra dar proteção. Agora era ficar preparado pra guerra que ia estourar enorme por ali afora. Foi assim que Riobaldo conheceu o jagunçado. No outro dia aquele bando partiu e, nas semanas seguintes, dizendo que Joca Ramiro era um chefe forçado e que muitos não nascem assim. Dono de glórias. Mas Riobaldo não pensava em Joca Ramiro; pensava em todos, mas primeiro naquele moço que o perturbava. Aquela madrugada dobrada inteira; depois dos trens ajuntados saiu de lá e, montado em seu cavalo, abriu aquele sertão. Mediu o mundo. Arremessou a cavalo, galopou demais e ganhou o sertão. Razão porquê fez? Sabe ou não sabe. Se viu em seu Gerais, furou o sertão... Sertão é isso: o senhor empurra pra trás, mas ele de repente volta a rodear o senhor pelos lados. Sertão, desses teus vazios, daí em longe os brejos vão virando rios. Buritizais vêm com eles. Buritis em séries, séries. Sertão que o rio do Chico, o São Francisco, o rio chefe, atravessa. Esses Gerais enormes, não se têm onde acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isso é assim desde o raiar da aurora. O senhor tonteia, tem medo de tudo. Dos tamanhos. A alma dele. Sertão é o sozinho dentro da gente. É onde o pensamento se forma mais forte que o poder do lugar. E ele é muito perigoso. O sertão: onde tanto boi berra, berra. Sertão velho de idades, da ternura. Sertão que vem e que volta. Do sol e das noites. Dos pássaros, dos bichos. Dos ventos que voam as imensidões por sobre a terra. O sertão e suas ciladas, suas sombras, seus sustos. E buritizais... Como afirma Riobaldo: “Sou homem pobre, o senhor sabe, mas tive escola. Mestre Lucas me ensinou as boas letras. Assim deixei a fazenda de meu padrinho, por guiar a vida de minha própria cabeça, então alguém me informou no caminho ‘alguém está encomendando um professor, boa paga’ e avancei, o sertão se abrindo por debaixo entre as pernas de meu cavalo, até que um dia esbarrei num sitiozinho cujo dono eu conhecia. Buritizal, ó... os buritizais, e um encontro com Zé Bebelo”. Zé Bebelo, de seu lado: “No sertão, nunca se sente de costas pra uma porta. É perigoso, fique sempre de outra banda. No sertão reunem-se homens, em comando de guerra, pra sair por aí às vezes para acabar com jagunço, até o último, limpar o sertão dessa jagunçada brava. Essa gente de Joca Ramiro é daninha, uma vergonha pra civilização do Estado. Depois de liquidar esses vils, entro direito na política. Deputado do sertão. Segredo e coragem, segredo. No sertão tomam-se terras dos outros. Com os jagunços é só no pau-picado”. O espaço é o sertão; junto dele a sina e desejo do jagunço: andar vivendo a própria sorte, com lutas e guerras. A vida é outra da gente do sertão: nada de políticas, tudo de políticas. Ainda há muito fazendeiro graúdo com agregados valentes, turma de cabras no trabuco e na carabina escopetada. Uma carabina, um trabuco, é presente para um homem de coragem. No sertão, amigo se prova na incerteza. A carabina atira certeiro, mas atrai chumbo também. Eis que Riobaldo briga com Zé Bebelo e se junta ao bando de Joca Ramiro; a guerra entre Joca Ramiro e Zé Bebelo se desenrola no sertão monstruoso. O sertão é grande demais, há lugar pra viver mais um bando nele. Há muita fazenda nele, muitas armas e uma jagunçada leal. “A gente fica rica, cheia de poderes, cheia de poderes”. Porém, apenas um bando sai vitorioso, a fim de ocupar o vazio tremendo da extensão sertaneja. Sertão mítico de redemoinho, no qual o capeta anda solto pelas bandas, tendo corpo de homem ele aparece. Aqui o pacto – ou “paucto” - com o diabo, à meia-noite, numa encruzilhada, é algo “comum”. Diz-se que o Judas é “positivo pactário”. No sertão, quando venta é que vai aparecer o coisa-ruim, o satanás, demônio. Venta e venta muito no Sucuruiú. Riobaldo, que é terrível como Urutu branco, revira os sertões. Ao rodar por ali, com os jagunços, trazendo glória e justiça em território dos Gerais, ao catar os Judas, nem que o sertão se vire pelo avesso. O sertão, da obra Grande sertão: veredas, é notadamente o sertão de Minas Gerais limites com o estado de Goiás. O sertão tomado por jagunços, cangaceiros, homens de muita valia. Vida de perigos, de ameaças: é o que existe no sertão. O destino no sertão está sempre traçado, e é o destino da vingança. No galope, cada um engole as suas palavras, mão de homem e as suas armas, jagunços “investem” no perder do sertão. Nos mares de calor, passam feito flecha, feito faca, feito fogo, indo caçar Judas assassino. No sertão, em tudo há perigo: viver entre jagunços, vingança, ódio são más companhias. Às vezes, no sertão, não dá vento nenhum, só calor e caminha-se sempre nas distâncias. Gente vai e vem sobre o rastro dos outros. Por matar, para acabar com a raça deles, por perseguir nos caminhos dos Chapadões. Os Judas correm longe. Sempre e sempre. Sertão só. Sertão é grande, não tem fim. Cabe num grito, num fôlego até... Aí se esbarra em outra paragem: sempre um lugar perdido nas planuras. Vai-se com cuidado, rezando boa ladainha. No sertão é calor, poeira e tristeza. No sertão a vida é perigosa: morrem-se companheiros, matam-se os traidores, os vivos têm de viver por si só. No sertão desespera-se pelos lestes e oestes, em guerras e andanças. Às vezes perto dos buritis de palmas abertas, longe da guerra, longe dos mil perigos. O sertão chama pra guerrear, é a sina. Contudo, em meio ao árido sertão, há a paz dos buritis. Lá no fundo do sertão, esses Gerais das lonjuras. - ROSA, Guimarães. Grande sertão: veredas.

Um comentário:

  1. Que bom conhcer o vosso blog. Visitarei mais vezes. Sucessos. Feliciano

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